[0:00]E aí eu queria pegar tudo o que a gente debateu aqui e levar para o PT. Vamos debater o PT histórico. Surgimento do PT. Surgimento do PT, como que ele surgiu, por que que ele tem esse ponto de vista, em que contexto, e quais são, como essas minhas críticas se aplicam à política prática do PT, né? Primeiro de tudo, eu falei de social-democracia o tempo todo aqui, né? Uma das coisas que é importante a gente notar é que a social-democracia teve dificuldades de fincar raízes no Brasil. E a razão é bem simples, o país se industrializou tarde. A social-democracia alemã, por exemplo, cresce quando a industrialização na Alemanha cresce. Lembra que eu falei que quando a industrialização estava explodindo, foi quando o partido cresceu o máximo e virou até o maior partido do parlamento? É porque com a industrialização vêm proletários. Esses proletários todos estavam sendo organizados dentro do Partido Social Democrata da Alemanha. Isso acontece de novo na década de 80 aqui no Brasil. O Brasil se industrializa bastante tarde. A gente tem picos de industrialização, né? Mas depois no final da década de 70 é quando a gente tem uma formação de uma classe operária bastante robusta, principalmente no ABC Paulista, que foi até o que você citou no começo que você falou que morou lá e acompanhou. Morei, morei em São Bernardo. Morava bem perto da casa do Lula, inclusive, estudei com a filha dele. Ah, é verdade, você falou que estudou com a Luliana. Lula, é. Pré-vestibular. O que acontece? O que que faz com que a social-democracia consiga se consolidar no PT, por exemplo? Porque antes a gente tinha o Partido Socialista do Brasil, que eu tenho certeza que você nunca ouviu falar, ele foi fundado em 1916. Não. O partido tem pouquíssima atividade, não importa tanto. E a gente tem também algumas pessoas vão argumentar que o trabalhismo de esquerda era uma vertente da social-democracia. O PTB, você está falando? O PTB, exatamente, o PTB do Brizola, do Goulart, mas eu, eu não acho que é a mesma coisa, gente. Não. Não, eu não acho que é a social-democracia, eu acho que o trabalhismo é substancialmente diferente da maneira como a social-democracia se forma. Principalmente porque ele, ele tem um projeto nacionalista como prioridade. E é um projeto nacionalista que nem visa contemplar classe em particular assim. Claro, tem os mais à esquerda, mais à direita, mas o foco é proteção da indústria nacional e crescimento da indústria nacional. É sempre foi o foco e a organização da classe trabalhadora não estava na prioridade, organização militante da classe trabalhadora. A gente não via, mesmo na fundação do PDT, que foi a manifestação do trabalhismo de esquerda com o Brizola. A mobilização da classe trabalhadora não estava na prioridade da, da fundação do PDT, né? E aí a gente tem o PT como a encarnação do social-democracia no Brasil, né? O que que acontece? Uma das coisas que é fundamental pra gente entender por que que o PT se forma no momento que ele se formou, é a gente entender que o sindicalismo estava mudando no Brasil. Então, o que acontece? Em 1964, os sindicatos eram bastante organizados, sobretudo com vínculo com o Partido Comunista. O Partido Comunista era bastante organizado nessa época, era o principal representante da esquerda. E depois da ditadura militar, o sindicalismo é destruído, destruído. Tem um monte de perseguição a líder sindical, os sindicatos ficam ligados ao Ministério do Trabalho, eles são completamente controlados de dentro pra fora. Eh, eles são, assim, desmembrados, desfragmentados, perdem toda a sua potência. Só que, mesmo assim, no final da década de 70, a ditadura começa a enfrentar uma crise econômica gigantesca. Por duas razões: a primeira é porque o arrocho salarial era uma das políticas principais da ditadura. A ditadura foi imposta, não tenho dúvida aqui, tá? A ditadura foi imposta para trazer a agenda da burguesia de forma violenta no país. Para impor a agenda da burguesia nacional e internacional, de forma violenta no país. O arrocho salarial foi um dos principais políticas. Só que quando a gente tem 10 anos de arrocho salarial, junto com uma inflação galopante da época e a crise do petróleo que agravou isso mais ainda, não tem como a classe trabalhadora não se organizar e voltar a ter as suas greves, as suas manifestações e tal. Foi exatamente isso que aconteceu. Em 78, a gente tem greves espontâneas no ABC, nas montadoras do ABC. E o próprio Lula diz: Eu não consigo lembrar um mês de 78 que não tinha greve. O ano inteiro foi um ano de greves. Em 79, de novo tem greves, mas dessa vez muito mais organizadas. E aí entre essas greves, o PT começa a ser concebido. Um partido dos trabalhadores começa a ser concebido. Só que ele já é concebido na sua gênese como um partido que visava, entre aspas, colocar trabalhadores no congresso, são palavras do Lula. Então você vê, antes dele ser fundado, ele já tinha como prioridade a disputa das eleições. Sim. Prioridade. E o que que faz com que esse partido também seja formado nessa época? Dentro desse novo sindicalismo e desse movimento sindical, existiam veteranos das, das antigas organizações de esquerda. Os principais que influenciaram a fundação do PT são os trotskistas. Entram um grupo de trotskistas que no futuro iam ser, inclusive, os, os mesmos que iam fundar o PSTU e o PCO. Eles são expulsos na década de 90 e fundam seus próprios partidos. Esses trotskistas, o que que eles trazem? Eles trazem teoria organizativa partidária. Então eles pegam esse novo sindicalismo, que defendia esse sindicalismo independente, um sindicalismo que deixasse de ser pelego, e colocam essa necessidade de organizar a classe trabalhadora num partido próprio. Essa experiência que esses trotskistas trazem é uma das primeiras, é uma das primeiras sementes para a fundação do PT. Enfim, o PT se funda em 1980 e essa é a época do PT, digamos assim, dos movimentos sociais. Tá. O PT ainda tinha um ponto de vista de preservar muito o seu caráter proletário. Então, de manter bastante operário dentro do partido, de botar os operários para disputar as eleições, era aquela coisa que o Lula falou, colocar operários no parlamento, né, colocar operários no congresso. É, é o PT da, da CUT, é o PT que estava vinculado com a fundação do MST, é o PT, inclusive, das Comunidades Eclesiais de Base. Uma das coisas que fez com que o PT tivesse tanto sucesso, principalmente na década de 80, foi que a ala progressista das Igrejas Católicas, da Igreja Católica, aderiu ao projeto. Só que isso aqui tem uma pegadinha. A Igreja Católica sempre foi combatente do comunismo. Sempre foi. Mesma ala da teologia da libertação? Mesma ala da teologia da libertação. E por isso que aderir ao projeto social-democrata do PT, que já é fundado, sem nenhuma perspectiva de revolução, sem nenhuma perspectiva de ser um partido de vanguarda para conduzir a classe trabalhadora por uma ruptura, tão pouco um golpe armado para uma revolução armada. Nunca foi. Nunca foi, nunca foi nos documentos mais essenciais não tem isso, e ele vai ficando cada vez menos, por exemplo, ele começa a deixar de usar a palavra socialismo com o tempo, mesmo que socialismo significasse mais justiça social do que disputa pelo Estado, etc, né? Esse, eh, a Igreja vê nesse projeto um lugar que ela pode começar a aplicar esses ideais progressistas, mas sem aderir a uma via de ruptura, porque o comunismo era muito vinculado com o ateísmo, Vilela. Ah, tá. A União Soviética não era só um Estado laico, era um Estado ateu e de um ateísmo militante. O Estado soviético propagava, propagandeava o ateísmo. Então a Igreja via, via muito, eh, a sua própria destruição no comunismo. Claro, uma ameaça. Exatamente, e aí eles apoiam, e as Comunidades Eclesiais de Base foram tão importantes pro PT, porque elas conseguiram tirar o PT dos centros urbanos. O PT era muito vinculado, hoje a gente associa muito o PT ao Nordeste e o Norte, né? É, era diferente no passado. O PT era muito associado aos grandes centros urbanos onde tinha indústria. Claro. Os sindicalistas eram os principais representantes, o começo realmente era de maioria operária e a Igreja conseguiu levar núcleos do PT para rincões pequenos do Brasil, porque a Igreja Católica tem uma capilaridade gigantesca num país de maioria cristã e na época a maioria católica, né? Agora os evangélicos estão avançando para se tornar maioria. Então, a gente tem essa primeira fase do PT, o PT dos movimentos sociais, e o PT já em 82, disputa as eleições. O que já mostra qual que era a prioridade do partido, né? Em 80, eles fundam o partido, 82, eles já disputam. Por que que eles conseguiram fundar esse partido bem no meio da ditadura, que era a ditadura ainda, né? A ditadura estava com uma tática que acabou se provando errada. Por conta da crise, no meio da década de 70, a ditadura começa a perder, o partido da ditadura, que é o Arena, começa a perder eleição atrás de eleição. Todo mundo começa a votar no MDB. E aí o que que a ditadura pensa? Vamos fazer o seguinte: a gente legaliza o pluripartidarismo, fragmenta o movimento deles e foca todo no nosso. A esquerda vai se dividir. É, não era nem esquerda, né, era só oposição. A oposição vai se dividir e a gente foca no PDS, que era o novo partido, é, o partido que sucedeu a Arena, só que isso não funcionou. Porque assim que se fundam os novos partidos, aí a gente tem partidos que crescem muito, sabe? O PT é um deles, o PDT também conseguem emplacar o Brizola, que era uma figura já muito conhecida. O MDB que é o, que é o. Vira PMDB depois. Eh, a gente tem um partido muito grande na época que é o PFL também. Eh, o PFL era o partido de direita por excelência na época, mas também que fazia oposição à ditadura, etc, né? E aí, o que acontece? Já em 82, o PT se funda em 80, em 82, o PT disputa 25 Estados. É muito impressionante isso. Claro que ele não vence muita coisa. Mas já mostra não só a vocação eleitoral, como a capacidade organizativa para as eleições, muito impressionante, sabe? Um partido fundado há dois anos, consegue disputar 25 estados do Brasil, é realmente. Mobilização nas ruas muito forte. Muito forte, muito forte, e assim, uma, uma capacidade de de, eh, capilarização em vários lugares do Brasil, muito propagada pelas Comunidades Eclesiais de Base. Por isso, essa é, exatamente, a importância é gigantesca. O que que acontece? A gente tem as famosas eleições de 89. E em 89, as coisas mudam bastante. O giro à direita que o PT dá nessa época. E assim, eu estou falando giro à direita, mais à direita, porque para nós, eles já são posicionados à direita por não defenderem uma revolução. Entendi. Eles defendem a manutenção da ordem burguesa, a gestão do capitalismo, a disputa parlamentar, nessa ideia de isonomia, o PT se mobiliza muito com a luta antiditadura, né, contra o regime militar. E, ah, depois que o regime militar cair, a gente vai ter isonomia perante as leis, a gente consegue disputar, né? Em 89, o Lula disputa e ele surpreende todo mundo. O candidato favorito da esquerda era o Brizola. A burguesia tinha medo do Brizola. E não existia um candidato de direita muito claro ainda. O Collor acabou sendo por circunstância. Ele era apoiado pela, ah, pela editora Abril, era apoiado, foi apoiado pela Globo, mas a burguesia ainda não tinha um consenso sobre o Collor. Quando o Collor vira esse fenômeno inesperado, que ele vinha de família já de, de políticos de muito tempo, ele se mostra o único capaz de derrotar um candidato extremamente popular, que era o Lula. Aí com toda aquela manobra lá que a Globo fez, manipulando o debate. Acho que você conhece essa história, né? O documentário, eu não lembro, mas. Muito além do Cidadão Kane, esse documentário. Ah, tá. Que é o documentário que foi até ilegalizado pela Globo, ilegalizado pela Globo como se a Globo pudesse ilegalizar. Ele foi proibido pela Globo, né, ele censurado, que é um documentário que mostra como a Globo editou o, o debate para favorecer o Collor, né? Para favorecer o Collor e o. Exatamente, e a Lurian estava envolvida, inclusive, nessa, nesse procoó todo. No final, né, pertinho da, da eleição, né? Exatamente, que foi que a mídia quereria, eh, o Lula teria pedido para, para a mulher dele para abortar, né? E eu lembro, mas. Essa é, foi a, basicamente, a corrente de zap-zap à moda antiga, né, que filma a, a ex-esposa do Lula que era Miriam falando não só isso, ela fala outras barbaridades, fala que Lula é racista. Ah, é? É, fala, ah, ele não aguenta ver preto na TV, umas coisas bem, é, é, é um negócio. Nossa. Vira e mexe esse vídeo volta para os grupos de zap-zap aí, antipetistas. É, e isso também tem um impacto gigantesco nas eleições, mas mesmo assim, o Lula passa raspando. Só que qual que é a avaliação que o PT faz? Isso aqui é arquetipicamente, eh, social-democrata. Eles pensam que eles não foram abertos o suficiente. Abertos, o partido não foi, não conseguiu se abrir o suficiente a ponto de mobilizar bases o suficiente para ser eleger. Então, o que que o partido faz? Ele começa Lula paz e amor. Totalmente, o Lula paz e amor é bem 2020, 2002. Mas é, é esse momento que o partido começa a rever boa parte das suas políticas, que ainda usava um pouco do vocabulário inspirado nas revoluções do passado, no marxismo, nessas correntes trotskistas que ainda estavam dentro do, do partido. E aí, por exemplo, ele substituem socialismo, a palavra socialismo, por democracia. Você nunca mais vê o PT falando de socialismo. Esse giro à direita, né, inclusive, abdicando da nacionalização da economia, falando, ah, a gente defende mercados regulados. A gente não defende mais a estatização dos meios de produção. Isso faz com que eles comecem a ter oposição dos trotskistas que estavam dentro, esses trotskistas são expulsos, e os grupos fundam, um, um grupo era a Convergência Socialista funda o PSTU, o outro era a Causa Operária funda o PCO. Esses dois vieram de dentro do PT, né? O Lula disputa em 94, tendo certeza que ele vai ganhar, só que o que faz ele perder é o Plano Real. O Plano Real dá uma popularidade gigantesca pro Fernando Henrique. Verdade. E ele consegue solapar, e aí de novo, cada eleição que o Lula perde, eles avaliam como, a gente abriu pouco, tem que abrir mais. Eles começam a fazer uma coisa que era contra boa parte das bases do partido. Eu tinha falado no começo, por mais que eles não fossem revolucionários, eles tentavam manter, pelo menos, um PT que tinha um número grande de filiados que eram operários, né? Manter o partido proletarizado. E uma das coisas que eles faziam era rejeitar doação de grandes empresas. Ainda era legalizado, agora não é mais, né, mas na época era legalizado doação de pessoa jurídica. Depois de perder 94, eles começam a aceitar. Inclusive, se não me engano, o José Dirceu recebe doação da Odebrecht, uma coisa assim. Tipo, eles, um mês eles estavam denunciando a Odebrecht por fraude, no outro o José Dirceu estava recebendo doação da Odebrecht. O Lula recebe do Itaú e tal. Enfim, né, quem paga a banda escolhe a música, né? Você acha que eles estão pagando por quê? A gente chega em 2002 com uma coisa assim que é o rebaixamento, que foi o José Alencar como vice, né? Um, o cara que claramente para representar os interesses do mercado financeiro, colocado como vice, que era sempre assim, foi o que eu falei. Para acalmar o, o mercado. 89, 94, 98, foi, não abriu o suficiente, não abriu o suficiente, não abriu o suficiente. Mas aí pensa, imagina que no lugar de não abriu o suficiente, fosse, a gente tem que mobilizar mais as nossas bases para disputar a consciência das pessoas. Você viu como as coisas se repetem? É. É sempre a mesma coisa, sabe? E isso é por circunstância. O capitalismo vai conformando, vai espremendo, digamos assim, as políticas dos partidos, até elas andarem sobre os mesmos trilhos. Por isso que a gente diz, o Lula não leu o Bernstein. Ele não leu os, os, os revisionistas alemães do final do século 19, para falar, nossa, essa é a braba. Essa teoria aqui é a braba. Ele foi sendo espremido, digamos assim, o partido foi sendo espremido para adotar essas políticas, por conta do parlamentarismo burguês, ser o balcão de negócio da burguesia, como sempre. E aí a gente chega na eleição do Lula, que ele vence, né, com um PT, assim, bastante, digamos assim, rebaixado. E aí é que entra a segunda parte da minha crítica, né, que é uma vez que a social-democracia chega ao poder, ela precisa construir alianças para conseguir governar. E aí pensa o seguinte, Vilela. Uma das grandes dádivas que o PT tinha, um dos grandes trunfos do PT, foi a organização da CUT, que foi a maior central sindical do país, né? E a CUT de fato foi muito importante para muitas greves que aconteceram. Só que pensa o seguinte, você agora é presidente da República e você precisa criar alianças. É. Muitas dessas alianças são com a altíssima burguesia, burguesia industrial, burguesia financeira. E aí você pega e mobiliza as suas bases para fazer greves contra essa mesma burguesia. Como que você concilia uma coisa com a outra? Não tem como. Não tem como. Se o Lula colocar as bases do PT pra, de novo, construir greve, de novo, lutar nas ruas, enfrentar a burguesia numa luta de classes, ele mina, ele mina as bases da sua governabilidade. Então, esse é o problema. É um jogo duplo que é muito conveniente. Tem esse discurso de governar para os trabalhadores, ao mesmo tempo, desativando ou colocando em suspenso a luta de classes na sociedade civil, que é onde nós marxistas defendemos, que é onde, que é a, a política acontece de verdade. A gente fala que o parlamento é teatro. São todos atores, a política de verdade acontece nos bastidores e a verdadeira política é, na verdade, na sociedade civil, na luta de classes, ela se manifesta na luta de classes. E o que eu queria trazer aqui é alguns exemplos de como, ao governar, aos moldes da social-democracia, o PT vai construindo as bases para a própria derrubada. Então vou falar um pouco do Lula e vou falar da queda da Dilma, que as duas coisas têm muito a ver. Quais programas você sabe de cabeça que foram implementados durante o governo Lula? Quais que te, te vêm, é, é. Fome Zero. A Fome Zero que depois foi substituído, né? Acabou não sendo bem-sucedido, né? Bolsa Família. Bolsa Família. Que mais? O Decash quando estava aqui, ele falou de alguns, ele falou do mais importante, inclusive. Que foi? Valorização do salário mínimo. Ah, tá. O que mais promoveu a ascensão social da, principalmente da, das camadas mais pauperizadas da classe trabalhadora, não foi nem o Bolsa Família, foi a valorização do salário mínimo junto com a alta empregabilidade. Isso tudo foi a política mais bem-sucedida do governo Lula, né? Mas a gente tem outros, a gente tem o Minha Casa Minha Vida. A gente tem o FIES e o PROUNI. É, tem esses outros programas sociais, que é o que eu quero avaliar mais de perto. Porque de fato, a gente tem um programa de transferência de renda que é o Bolsa Família, que é super importante. A gente tem a valorização do salário mínimo, tudo isso é super importante. Mas vamos ver esses programas específicos, por exemplo, o Minha Casa Minha Vida. Minha Casa Minha Vida, ele surge em 2008 e a data não é um acaso. Em 2008, a gente estava tendo a crise internacional. Então, o Minha Casa Minha Vida, ele surge, sim, para apaziguar o déficit habitacional do Brasil, mas também ele surge para ativar o mercado mediante uma crise. Porque o Minha Casa Minha Vida é empresas privadas, apresentam para a Caixa Econômica Federal projetos que vão ser aprovados e subsidiados para oferecer para populações divididas em faixas: faixa 1, as mais pobres, faixa 2, a, meio-termo, a faixa 3, mais alta. Eu não lembro quantos salários mínimos é cada um, eu sei que a primeira é de zero até três, que é a mais, é, que tem 90% do déficit. Entendi. 90% das pessoas que precisam de casa estão nessa faixa 1, né? E aí, você entende, Vilela, que não é uma política que é para construir, por exemplo, um setor de construção civil pública. Não é uma política que visa, por exemplo, ah, questionar a especulação imobiliária. Porque agora em São Paulo, a gente tem muito mais casa sem gente do que gente sem casa. Ah, é? Em São Paulo, a gente tem, eu não lembro os números agora, mas assim, é uma, é uma cifra que nunca muda. A gente sempre tem muito mais casa, é, sem ninguém dentro do que, do que gente sem casa. E por que isso? Lembra que a gente estava falando no começo sobre escassez? Você estava falando, pô, agora eu tenho que pagar mensalidade para ouvir a música. Como é que você cria escassez no mercado imobiliário? Você deixa a casa desocupada. Comprar a casa e não ocupar faz os preços dos aluguéis subirem e o preço dos imóveis subirem. É uma maneira de criar escassez artificial. Principalmente perto de grandes centros urbanos, perto de transporte público. Em São Paulo, a gente vê isso de maneira patente, assim. O Minha Casa Minha Vida, ele é, é, é muito transparente a a respeito de como ela tenta conciliar classes. Ela tenta, ao mesmo tempo, resolver o problema do déficit habitacional, que é histórico no Brasil e inclusive em todos os grandes centros urbanos do capitalismo, o déficit habitacional é muito grande, ao mesmo tempo, que tenta não incomodar, inclusive beneficiar a burguesia. Então a gente tem empresas que estão ganhando subsídios para construir. Mas muitas vezes, essas casas são na Puta que pariu, principalmente para as faixas mais baixas. Material de baixa qualidade. É, o material, eles têm poucas exigências. Esse aqui é o problema. Em questão de número é, tem uma série de, eh, os urbanistas criticam mais isso de maneira mais categórica. Tem uma série de coisas que a, as exigências não falam que as empresas se aproveitam. Tá. Então, é para construir casa maior, eh, eh, condomínios com mais coisas juntas em menor espaço, porque tem um limite de espaço, né? Vai precisar colocar elevador pelo número de. É uma coisa assim, são nesse nível, eles, eles tentam baratear os custos passando por cima de algumas coisas que a lei não prevê, né? Entendi. Cria uma espécie de segregação, colocando a classe trabalhadora para longe, justamente por não questionar a especulação imobiliária. E por ser empresas privadas que apresentam o projeto, elas têm uma quantidade muito grande de poder, nessa barganha. Claro. E elas tendem a favorecer as faixas mais altas. A faixa que mais precisa é a de zero até três salários mínimos. Só que são as casas mais baratas. Eles querem que mais gente das faixas altas comprem os imóveis, justamente porque tem um valor mais alto. Então, isso, por mais que a lei precise resolver 90% do déficit, que é concentrado na faixa, eh, um, que é de zero até três, a metade é para as faixas mais altas. Então, isso, essa lógica de, de manter a moradia como mercadoria, acaba criando, ah, problemas por si só. E aí é que está, isso fortalece a burguesia ligada ao setor imobiliário, a burguesia ligada ao setor imobiliário não vai nem pensar duas vezes na hora de querer antagonizar o PT e o Lula. Não tem a menor dúvida disso. Você entende como uma política que visa resolver um problema da classe trabalhadora, sem incomodar a burguesia, fortalece a burguesia por tabela. É. Ele acaba enriquecendo, lembra que eu falei, a crise de 2008 foi o que impulsionou a Minha Casa Minha Vida para ativar o mercado. Não era só uma coisa de precisamos dar casa para quem tem, sabe? Vou dar outro exemplo, e isso aqui é mais visível ainda, FIES e PROUNI. O FIES não é nem uma política do Lula, é uma política do Fernando Henrique. O FIES é de 99, ele substitui uma outra política de financiamento, à educação privada já estava se expandindo um monte no, na década de 90, principalmente por exigência do Banco Mundial e do FMI. E que que é o FIES? É um sistema de financiamento, seja parcial ou integral, para universidades privadas. E aí eu não sei se você lembra da chamada farra do FIES, na época da Dilma. Não. Você chegou a acompanhar isso? Não. Que que é? Se você, eh, agora seria um momento para o, pro Leni procurar um, um gráfico, se ele puder. O Léo procura. Eh, existe um gráfico de quantas pessoas foram contempladas pelo FIES. E é um gráfico impressionante, assim. No governo Dilma, em 2014, o FIES chega a quase dois milhões de contemplados. E aí você pensa, Vilela, são duas milhões de pessoas que estão usando dinheiro público para financiar a universidade privada com baixíssimo risco. Porque tem um aporte do Estado para, para sustentar essa inadimplência, né? E o problema no governo Dilma vem, principalmente, porque o FIES deixa de exigir certos critérios. Por exemplo, antes ele exigia fiador. Quando eles derrubam o fiador, tem algumas outras coisas que caem, eu não vou me lembrar agora. A quantidade de usuários do FIES dispara. Ah, seria bom pegar desde 99. Esse está a partir de 2012, né? É. Porque aí já é a explosão, já é quando muita gente começa a usar. Que você vê que antes disso é bem baixinho, depois que eles tiram os critérios, explode, sobe lá para o, para o espaço, justamente por conta da queda do, das exigências, exatamente. E aí, cara, isso na prática é transferência de recurso público direto pro bolso da educação privada, simples assim. Formou monopólio, com essas coisas. Com esses.

UMA CRÍTICA AO PT DIFERENTE DE TUDO QUE VOCÊ JÁ VIU
Ian Neves
22m 33s4,442 words~23 min read
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