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Psicólogo vê risco de retrocesso para humanidade com vício em telas

DW Brasil

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[0:00]Esse uso [da tecnologia] deixou de ser um uso equilibrado, racional, salutar e passou a ser um uso desmedido.
[0:13]Fazendo com que parte desses acessos ininterruptos, dessa necessidade, desse medo de estar perdendo alguma coisa, se tornasse uma, uma, vamos chamar assim, quase que uma doença mundial.
[0:13]O sonho da tecnologia equilibrada e bem balanceada no nosso dia a dia não foi atingido.
[0:13]Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso abusivo da internet aumentou drasticamente nas últimas décadas.
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[0:00]Esse uso [da tecnologia] deixou de ser um uso equilibrado, racional, salutar e passou a ser um uso desmedido.

[0:13]Fazendo com que parte desses acessos ininterruptos, dessa necessidade, desse medo de estar perdendo alguma coisa, se tornasse uma, uma, vamos chamar assim, quase que uma doença mundial. O sonho da tecnologia equilibrada e bem balanceada no nosso dia a dia não foi atingido. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso abusivo da internet aumentou drasticamente nas últimas décadas. Esse aumento veio associado a vários casos de consequências negativas para a saúde. Também a rolagem infinita pensada para proporcionar uma melhor experiência ao usuário, acabou, na opinião de muitos, se tornando um pesadelo. Para entender melhor o assunto, nós conversamos com o coordenador do núcleo de dependências tecnológicas da USP, Dr. Cristiano Nabuco. Segundo uma estimativa da empresa Ericsson, 4 bilhões de pessoas têm um smartphone no mundo. O, de acordo com uma outra pesquisa, nós pegamos nosso celular cerca de 200 vezes por dia. O número de toques diários no aparelho é de em média 2.600. O que vai ser de nós, Dr. Cristiano? Pois é, essa, essa é uma pergunta bastante inquietante. É como se a tecnologia, de uma forma ou de outra, ela pudesse nos servir como se fosse uma bicicleta, né? Nos levando a lugares aonde sozinho eu não conseguiria. E o grande problema, com a passagem do tempo, eu diria que quase aí 15, 20 anos depois, eh, esse uso, ele deixou de ser um uso, eh, equilibrado, racional, salutar. Ele passou a ser um uso absolutamente desmedido. Isso se, se dá em função de algumas questões. A primeira delas, o fato de várias, vários segmentos do nosso dia a dia estarem sendo conectados à inteligência artificial, né? Nós temos os algoritmos aí que nos auxiliam das mais variadas maneiras, mas também temos as redes sociais, né? As redes sociais, de uma forma ou de outra, muito embora elas sejam aí consideradas como a grande cereja do bolo, a grande estrela da vez, na verdade elas propiciaram um desequilíbrio bastante expressivo.

[2:39]Fazendo então com que parte, eh, desses acessos ininterruptos, dessa necessidade, deste medo de estar perdendo alguma coisa, se tornasse uma, uma, vamos chamar assim, quase que uma doença mundial. Eh, para se ter uma noção, uma pesquisa feita com, eh, jovens ingleses, mostrou que 51% desses, desses, desse, dessa população se sentiria mais feliz se as redes sociais nunca tivessem sido criadas. Então, o que a gente entende é que hoje a tecnologia, o sonho da tecnologia equilibrada e bem balanceada no nosso dia a dia, ele não foi atingido. Nós, infelizmente, não tivemos freio e passamos do ponto, fazendo hoje então com que a quantidade de pessoas que apareçam trazendo problemas derivados do uso excessivo, jovens que têm a sua vida acadêmica absolutamente destruída, pessoas que têm sua reputação devastada nas redes sociais. Então, nós estamos vendo, na verdade, esse é o grande ponto, Mery, um outro lado da moeda, ou, como diríamos assim, um efeito colateral. Como diz aquele velho ditado, nem tudo são flores. Então, passadas as, as, as celebrações iniciais da festa, nós estamos tendo que recolher os cacos e ver o quanto que, na verdade, este uso, ele deixou de ser um uso consciente, em parte expressiva, né, desses jovens, principalmente. E nós temos agora que desenvolver programas de métodos de conscientização, eh, de, de, de prevenção para que as nossas crianças e os nossos jovens não sofram a médio e longo prazo, os efeitos dessa conexão excessiva. O programador Aza Raskin, ah, o inventor da rolagem infinita, ele diz que nós estamos colocando toda a humanidade no maior experimento psicológico já feito, sem nenhum controle. Ah, ele estaria exagerando? Eu acho que ele está sendo exatamente lúcido e muito preciso na observação, eh, porque o que nós já temos observado, principalmente quando, eh, eu fico na ponta da linha de um hospital universitário, aonde eu atendo jovens e adolescentes, adultos, inclusive, de todas as regiões do país. Os casos que nos chegam, eles são extremamente dramáticos. Porque quando nós falamos assim, bom, um indivíduo tá consumindo álcool, ou ele consome, eh, comida de uma forma excessiva, ou ele compra desordenadamente, isso existe, vamos chamar assim, marcadores muito mais concretos de serem observados. Quando eu falo para uma pessoa, você tá usando demais as telas digitais, você é um dependente tecnológico, imagine, eu não sou. Então, o que acontece? Nós recebemos nesse centro, eh, eh, adolescentes que chegam a ficar 40 horas conectados de uma maneira ininterrupta, 50 horas, 55 horas. Houve um caso que ele é icônico, esse jovem foi levado pela mãe com 17 anos de idade, porque ele não parava mais de jogar. Não parava mais de jogar. E ela falou: pois é, Doutor, ele chega a ficar 55 horas ininterruptas. Eu achei estranho aquilo, eu falei: mas, eh, eh, Dona, Dona Maria, como assim? Ele não se alimenta? Ela falou: o senhor não tá ouvindo bem, é? Ela tava muito irritada, né? Óbvio. Meu filho fica 55 horas, ele não se alimenta, doutor. Ele urina na calça, doutor. Ele evacua na calça. Com uma mão ele joga e com a outra ele tira a cueca suja de fezes e arremessa pela janela. Exatamente para não parar de jogar. Por quê, Mery? Porque hoje, eh, as redes sociais, os jogos, ele se tornaram o grande elemento de propagação do seu valor social. Então, o que acontece? A vida digital ela ofereceu uma perspectiva de eu reinventar aquilo que eu não gosto em mim mesmo. Eu consigo ter uma versão de mim mais bem elaborada. Quem não tem, né, problemas, eh, de ordem psicológica? Quem não tem baixa autoestima ou quem nunca passou por isso? Quem não tem suas inquietudes? Então, a hora que eu consigo entrar numa realidade paralela, num jogo, eh, numa rede social, aonde eu crio um simulacro de mim mesmo, um personagem melhorado, obviamente que eu começo a ter na vida digital um grau de reconhecimento de valorização que eu não teria na minha vida real. A vida real, ela partia, ela parte do pressuposto que eu tenho que lidar com frustração. Eu tenho que lidar com a falta de recursos, eu tenho que lidar com os meus pais que brigam, ou com a nota baixa na escola, ou o fato de eu sofrer bullying daquele, daquela turma lá do clube. Na vida digital, isso é minimizado, fazendo então com que eu me sinta mais protegido e ao encontrar na vida paralela um mundo com tamanha gratificação, eh, seria mais ou menos assim, por que que eu vou voltar pra vida real mesmo, né? Outro dia conversando com um, um, um jovem adolescente de, de 15 anos, ele dizendo que nos finais de semana ele não sai mais da, da, da, das telas, né? Ele passa o final de semana conectado direto, ele não dorme mais, ele nem abre mais as janelas, eh, ao longo do dia. Eu falei assim, mas puxa vida, você não, não, não teria, eh, outras atividades para serem feitas? Aí ele parou, olhou para a minha cara assim. Ele falou, mas, doutor, o senhor quer que eu jogue com quem? Se tá todo mundo, né, nessas plataformas? O senhor quer que eu jogue sozinho, né? E tem mais, ele falou, na vida digital, a hora que eu canso, eu simplesmente eu desligo, eu não preciso pegar ônibus, não preciso pegar transporte, eu não vou gastar dinheiro. Então, veja, os apelos, Mery, eles são infinitos. Então, o criador da rolagem infinita, concluindo, né, ele acertou em cheio. Nós estamos, na verdade, nós somos, eu diria assim, testemunhas oculares de uma das maiores invenções da humanidade.

[9:39]Eh, alguns antropólogos chegam a comparar a invenção da internet, das telas ao descobrimento do fogo, mas também somos hoje testemunhas oculares de algo que pode nos levar muito adiante, ou pode produzir pela primeira vez na história, a interrupção dessa consolidação do conhecimento.

[10:07]Nós temos acesso à informação, mas a informação ela não se torna conhecimento. Então, esse é o grande ponto, nós estamos num dilema, numa condição paradoxal onde, inicialmente, se observa apenas as benesses. Então, o senhor disse que ainda a gente tá nesse ponto que pode, eh, pode ficar melhor. Ou pode piorar. Tem aquele ditado que diz que, conselho se fosse bom, a gente vendia, não dava. Vamos dar conselho. O senhor diria que a gente realmente tem que diminuir o acesso e, e de uma maneira muito drástica? Eh, eu acho que precisaria haver algum tipo de tomada de consciência geral, mundial. Onde as empresas, de uma forma ou de outra, elas procurassem, eh, alertar a população dos riscos envolvidos no uso em demasia. Quando nós pegamos algum outro exemplo, a indústria do tabaco, eh, levou-se nada menos do que 150 anos para que a gente conseguisse ter estampado que isso, nas maços, que isso é prejudicial. Eh, então, no caso da tecnologia, a tecnologia ainda não é reconhecida como um problema. Exceto para profissionais que tratam. Para você ter uma noção, nos Estados Unidos, onde temos lá a, a, o Vale do Silício, o Silicon Valley, eh, onde se concentra a maior, eh, quantidade de empresas de tecnologia no mundo, no Vale do Silício, um tipo de escola, ela é muito disputada, eh, pelos, eh, funcionários dessas empresas, principalmente os CEOs. Aonde nessas escolas, elas são chamadas de tech-less schools, aonde a tecnologia, ela não só é desencorajada como ela é proibida. Inclusive, eh, ela é desestimulada de ser oferecida para os filhos até os 8 anos de idade em casa, quando retornam da escola. Então, isso dá uma pista importante, que esses indivíduos que estão lá na frente, eles já estão observando alguma coisa, que é isso ainda não chegou aqui fora, pelo menos para a população leiga. Eu entendo que nós estamos hoje observando uma vala, um grande abismo que está sendo criado, onde esses jovens que não saem mais de casa, que inclusive a literatura os denomina aí dos, entre aspas, "Os filhos do quarto", onde eles não têm experiência, aonde eles não se preocupam em ter um outro tipo de vida. Então, a pergunta que eu faço é, como que esses jovens com 30 anos estarão preparados? Eles não estarão preparados.

[13:17]Qual é o grande ponto? Eh, a população ainda não se deu conta de que nós estamos lidando com um problema que está aqui abaixo das nossas barbas, quer dizer, está ocorrendo uma, uma, uma cooptação, né, social, existencial desses jovens, aonde, de uma forma desavisada, os pais presenteiam os filhos com tecnologia, ou passam os novos, os novos aparelhos, né, os velhos aparelhos, quando eu compro enquanto pai um aparelho, eu dou o velho para. Então, as histórias que chegam, Mary, são, são, são assim, chocantes, né? Existe uma frase muito bacana de uma autora americana chamada Sherry Turkle. Ela diz o seguinte, né? Abre aspas: a tecnologia deste jeito que nós estamos falando, né? Ela entra na vida de uma pessoa quando as relações humanas não ocupam o seu devido lugar.

[14:24]Então, se você tiver uma vida que minimamente você esteja cuidando das suas relações, de você mesmo, que você trabalhe em um ambiente que o seu chefe não exija que você responda imediatamente a mensagem que acabou de ser enviada, que é um ambiente tóxico. Então, todos esses recursos vão te, obviamente, devolver um uso saudável e não um uso descontrolado e patológico.

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