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Cinco Lições de Psicanálise [S. Freud] I 2ª Lição [Leitura conjunta de Freud]

Gustavo Ribeiro - Psicanálise Descomplicada

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[0:00]E hoje a gente vai falar sobre a segunda lição do texto Cinco lições de psicanálise.
[0:00]Para quem não assistiu a primeira lição, vou deixar aqui no card o acesso pro link para vocês poderem assistir.
[0:00]Vocês devem estar observando que eu estou falando a palavra recalque e na tradução de vocês deve estar escrito repressão.
[0:00]Originalmente, o termo que ele empregou foi recalque, não foi repressão, e são duas coisas bastante diferentes.
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[0:00]Oi, pessoal, tudo joia? Voltamos aqui à nossa sequência de vídeos sobre a leitura da obra de Freud. E hoje a gente vai falar sobre a segunda lição do texto Cinco lições de psicanálise. Para quem não assistiu a primeira lição, vou deixar aqui no card o acesso pro link para vocês poderem assistir. Bom, de forma muito resumida, a segunda lição trata basicamente de três aspectos: o abandono da hipnose, a observação da força de resistência como uma espécie de contrapartida do recalque, e lá no finalzinho, Freud fala da relação entre sintoma e recalque. Vocês devem estar observando que eu estou falando a palavra recalque e na tradução de vocês deve estar escrito repressão. Esse é um dos problemas de tradução da obra do Freud. Originalmente, o termo que ele empregou foi recalque, não foi repressão, e são duas coisas bastante diferentes. Mas eu vou deixar para abordar isso num outro vídeo, tá? Uma outra coisa que vocês precisam lembrar é que nesse momento, na primeira e na segunda lição, o Freud ainda está fazendo um percurso histórico da criação da psicanálise, do surgimento da psicanálise. Então é por isso que a gente ainda está falando de abandono da hipnose, do início do recalque, o início da repressão, né, esses mecanismos, porque o Freud está fazendo ainda um resgate histórico de como que ele empreendeu a descoberta da psicanálise. Então eu vou destacar aqui alguns pontos que eu achei mais interessantes pra gente colocar nesse vídeo e vocês poderem participar lá nos comentários. Claro que se eu esquecer alguma coisa, sintam-se à vontade de contribuir apontando isso nos comentários do vídeo. E lá é o espaço que a gente usa para poder debater. Bom, vejam que Freud inicia essa segunda lição, destacando a influência do pensamento de Charcot, e também a convergência entre o pensamento de Charcot e o pensamento de Breuer, que foi o grande mentor do Freud no início da psicanálise. Porém, o Freud vai fazer um destaque importante: ele vai lembrar que o Charcot, embora empregasse a hipnose, e ele falava da importância do trauma psíquico, Charcot era neurologista, então ele queria trazer a histeria pro campo de estudo da neurologia, ele queria buscar uma explicação que fosse ligada ao sistema neurológico. Então, Charcot não buscava uma teoria psicológica da histeria. Já Breuer e Freud buscavam uma teoria mais de caráter psicogênico dessas perturbações, ou seja, eles buscavam criar uma teoria psicológica a respeito da histeria, porque eles entendiam que a histeria tinha causas de fato psicológicas. Então, na escola de Charcot, tinha um pesquisador chamado Pierre Janet. Dentro do pensamento francês naquela época, Pierre Janet é quem tinha uma teoria que mais se aproximava de uma concepção psicológica. Mesmo assim, Freud discordava muito dessa teoria do Janet. Então, para Janet, a histeria era causada por fatores hereditários e com uma certa propensão também a aspectos degenerativos do sistema nervoso e da psique, que, vamos dizer assim, predispuseram os indivíduos histéricos, né, homens e mulheres histéricas, a não conseguir sustentar a unidade da sua psique. Então a histeria era causada pela dissociação da psique. Vejam, essa dissociação para Pierre Janet era causada por fatores de caráter hereditário e degenerativo, e isso Freud e Breuer não observaram nas suas pesquisas. Uma prova dessa discordância é que Breuer tinha observado que a Ana O, enquanto tinha limitações nas seus sintomas neuróticos, ela, por outro lado, parecia ter uma hipercapacidade para outras coisas. O exemplo que ele destaca é que quando ela esqueceu a língua materna, que era o alemão, ela falava muito bem o inglês em substituição ao alemão. Então, como é que havia aí alguma coisa de degenerativo? Não parecia fazer muito sentido. Então, seguindo adiante nesse percurso histórico que o Freud está fazendo, lá pelo meio do texto, ele vai falar de como é que ele foi se separando de Breuer. E um dos aspectos que ele destaca é o abandono da hipnose. Pela experiência do próprio Freud, ele via que a hipnose esbarrava em muitas dificuldades. Muitos pacientes não eram hipnotizáveis, e alguns outros pacientes, quando estavam no processo de rememoração da causa, do trauma originário daquela neurose, quando eles estavam muito próximos de chegar nessa causa, eles despertavam do transe hipnótico. É como se o transe não conseguisse levá-los até o ponto causador da neurose. Então, aos poucos, Freud vai perdendo o interesse na hipnose, e ele vai passar a empregar um outro método. Ele então vai passar a fazer com que os pacientes buscassem a cena traumática dessa vez em vigília, despertos. Então ele vai usar a seguinte técnica: ele vai pedir para que esses pacientes se lembrem do que aconteceu. E é óbvio que esses pacientes vão dizer que não conseguem se lembrar do que que houve. Mas, baseado na teoria da sugestão pós-hipnótica, principalmente com os estudos de Bernheim, o Freud vai insistir que ele se lembrem. O Freud vai dizer assim: Você se lembra, sim, continua se esforçando que você vai se recordar. Então ele faz uma espécie de pressão. Em alguns casos, ele até relata que coloca a mão dele sobre a testa do paciente, como se a própria sugestão da autoridade, né, do próprio médico, colocando a mão sobre a testa, fosse um estímulo encorajador para que o paciente fosse capaz de se lembrar. O nome dessa técnica é chamada de técnica de pressão. O próprio nome já explica por quê, porque o médico faz uma pressão de fato psicológica para que o paciente se lembre. E aí entra, logicamente, o caráter da autoridade da figura médica. E ele vai descobrir que muitos pacientes de fato se lembravam sobre o efeito dessa pressão. Eles se lembravam do que havia ocorrido. Porém, agora sem a hipnose, o Freud vai perceber que para que essa lembrança seja alcançada, havia de se superar uma força de resistência.

[7:07]Ou seja, o que que é então uma resistência? Uma resistência é uma força que se opõe à lembrança desses eventos patogênicos. Então, Freud chamou essa força contrária de resistência. Mas aí o Freud também vai fazer uma outra questão: se há uma resistência a que a gente se recorde de alguma coisa, por que que há essa resistência então? Por que que algo nos impede de lembrar? E aí a dedução que ele faz é que se algo nos impede de lembrar, se alguma força nos impede de recordar alguma coisa, deve ser porque a recordação dessa coisa pode trazer algum tipo de sofrimento, pode trazer algum tipo de conflito na consciência. Então ele vai deduzir, a partir dessa observação, que existiria uma força, vamos dizer assim, uma força análoga à resistência, que é a força de recalque, o mecanismo de recalque, que na tradução de vocês deve estar como repressão. Ou seja, aquilo que foi reprimido no passado, que está no campo fora da consciência, e que hoje no presente, quando tentado recordar, sofre um processo de resistência muito forte. Então vejam que onde há uma resistência, houve no passado um recalque, uma repressão. Portanto, o que aciona o mecanismo de recalque, o mecanismo de repressão, é algum tipo de conflito psíquico. Vejam que tem um trecho lá no texto, aqui na minha edição é na página 25. Claro que na edição de vocês deve ser uma página diferente, mas eu vou citar aqui e vejam se vocês conseguem localizar na edição de vocês. O texto diz assim: Era, portanto, a incompatibilidade entre a ideia e o ego do doente, o motivo da repressão, as aspirações individuais, éticas e outras, eram as forças repressivas.

[9:23]A aceitação do impulso desejoso incompatível ou o prolongamento do conflito teriam despertado intenso desprazer. A repressão evitava o desprazer, revelando-se, desse modo, um meio de proteção da personalidade psíquica. Ou seja, a função do mecanismo de repressão, o recalque, é proteger a consciência de um conflito. Vejam que aí há uma outra diferença marcante do pensamento freudiano psicanalítico e o pensamento de Pierre Janet na escola francesa. A dissociação psíquica então para Freud ocorria devido à força do recalque, através do resultado dos conflitos psíquicos. Para Pierre Janet, essa dissociação ocorria por fatores inatos e degenerativos. Ora, não é isso que o Freud está observando na sua prática clínica. Então, vejam que a observação das resistências passa a ser uma das principais técnicas da psicanálise. Mas para que a gente possa observar o fenômeno da resistência, é necessário o abandono da hipnose. Vejam, então, que a hipnose, que parecia ser a técnica adequada para o atingimento do núcleo das neuroses, ela passa a ser, na realidade, o maior obstáculo, porque ela impede que essas resistências conscientes apareçam na fala do paciente. Portanto, onde há uma resistência, há um conflito por trás que foi reprimido. Vejam, então, que as resistências sinalizam recalques, sinalizam repressões. Onde há uma resistência então, há certamente um conteúdo reprimido que deve ter alguma relação mais direta ou mais indireta com o núcleo da neurose que está sendo tratada. Vejam aí, então, a importância da análise das resistências. E isso é uma coisa que na psicanálise contemporânea ainda é muito praticada. E aí, o Freud vai se aproximar da ideia de recalcado e sintoma. E ele vai usar uma metáfora muito interessante. Ele vai dizer assim: Imaginem que nós estamos aqui nesse auditório e tenha aqui um indivíduo muito barulhento. E esse indivíduo perturba a explicação que está sendo feita aqui. Então, pede-se para que algumas pessoas retirem esse indivíduo de dentro do auditório e é colocado lá pro lado de fora. Porém, mesmo lá do lado de fora, ele continua produzindo barulho, ele continua gritando lá fora, batendo na porta, criando distrações que impedem que essa palestra continue acontecendo. Ora, essa metáfora que o Freud vai usar é mais ou menos a metáfora pro retorno do recalcado, que se faz na forma do sintoma. Mesmo que aquele conteúdo tenha sido expulso da consciência, vamos imaginar então, como o ambiente da palestra, como sendo a consciência, o auditório, né, é a consciência. O lado de fora do auditório seria o inconsciente. Então, o indivíduo foi expulso, ele foi como, na analogia, recalcado para fora da consciência. Mas mesmo lá de fora, ele continua gritando e fazendo barulho. Vejam que essa analogia mostra mais ou menos o que acontece na formação do sintoma: o recalcado retorna. E ele retorna através de sinais deslocados, condensados. Vejam que o sintoma, então, é um substituto do recalque. E aí, nessa analogia do auditório, o sintoma seria equivalente às vozes, os ruídos daquele indivíduo que está lá do lado de fora, mas que continua fazendo barulho dentro do auditório, ou seja, se manifestando na consciência. A respeito disso que eu acabei de comentar, tem também uma passagem lá no finalzinho do texto, que é muito interessante. Vejam o que é que ele escreve: Mas, o impulso desejoso continua a existir no inconsciente, à espreita de oportunidade para se revelar. Concebe a formação de um substituto do reprimido, disfarçado e irreconhecível, para lançar à consciência substituto, ao qual logo se liga a mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão. Esta substituição da ideia reprimida, ou seja, o sintoma, é protegida contra as forças defensivas do ego, e em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável. No sintoma, à par dos sinais do disfarce, podem reconhecer-se traços de semelhança com a ideia primitivamente reprimida. Ou seja, o sintoma guarda então semelhanças com os conteúdos reprimidos, porque de uma certa forma, o sintoma preserva aspectos do reprimido, mas ele foi, logicamente, que deslocado, condensado, ele sofreu a ação de mecanismos de defesa do ego, Porém, ainda assim ele busca algum certo, ele busca algum tipo de compensação desse reprimido no inconsciente. É por isso que a psicanálise tem uma certa crítica dos tratamentos psiquiátricos que visam eliminar os sintomas, porque para psicanálise o sintoma é fundamental para que a gente possa identificar o reprimido. Se você então limpa os sintomas, você perde o mapa do tesouro. Então, quando eu falo sintomas, eu estou me referindo à depressão, eu estou me referindo aos sintomas de ansiedade, às compulsões, ao pânico. Eu não estou dizendo que o tratamento medicamentoso seja ruim, em alguns casos ele é fundamental para que uma psicoterapia possa ocorrer. O que eu estou criticando aqui, que eu acho que é a crítica que a psicanálise faz também, é a medicalização indiscriminada de que todo sintoma tem que ser removido a qualquer custo. E isso não é bom, porque muitas vezes o sintoma é o caminho para o tratamento da certo. De parte do sintoma, para chegar ao núcleo do conflito. Então, esses sinais não podem ser eliminados. Então, Freud vai destacar isso no final dessa segunda lição, dizendo que o caminho do tratamento é o percurso desses sintomas, dos mais recentes para os mais antigos, e a investigação dessas causas, uma por uma, dissolvendo, então, o núcleo dessas neuroses. Vejam que aqui o Freud ainda está trabalhando com um cenário de surgimento da psicanálise. Ele está falando do abandono da hipnose, ele está falando da descoberta do recalque, a descoberta da resistência, e ele está trabalhando agora com a técnica da pressão. Ela ainda visa a restituição do inconsciente à consciência. Mas ele ainda está num cenário assim bem inicial da psicanálise. Na próxima lição, que é a terceira lição, a gente vai dando um andamento a esse percurso histórico e vamos desvelando um pouco mais essa questão. Um grande abraço para vocês. Se você gostou, curte, compartilha e se inscreve no canal. Até mais.

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