[0:04]26 de abril de 1986. Pripyat, na Ucrânia. O que aconteceu aqui ficará para sempre marcado na história da humanidade como o mais perigoso e desastroso acidente nuclear. Essa é a história dele.
[0:36]Em 1970, a usina nuclear Vladimir Ilich Lenin, popularmente conhecida como Chernobyl, começou a ser construída. Naquela época, a União Soviética estava implementando o seu programa nuclear e a usina de Chernobyl era a nona usina a ser construída. As primeiras usinas nucleares foram feitas no final da Segunda Guerra Mundial, mas elas eram usinas de testes e pesquisas científicas. Elas não eram ligadas à rede elétrica, ou seja, elas não geravam energia para casas, apartamentos, indústrias e civis. Uma coisa importante é que logo após a Segunda Guerra Mundial a palavra nuclear trazia com ela a imagem das bombas atômicas que foram usadas no final da guerra. E, por consequência, a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética tornavam o medo de um possível ataque nuclear uma ameaça constante. Mas uma coisa que ambos os lados sabiam é que a energia nuclear poderia ser usada para abastecer energeticamente a população. Na época, a União Soviética possuía uma vasta extensão territorial, só que com isso surgiu um problema de demanda energética e de recursos econômicos. Algumas áreas eram mais afetadas que as outras e, como uma maneira de tentar levar esses recursos às áreas que precisavam, o programa nuclear soviético começou. Em 1951, a primeira usina nuclear conectada à rede elétrica do mundo começou a ser construída. Obninsk, a usina, era o orgulho da tecnologia nuclear soviética. Era a promessa de gerar energia de maneira eficiente e um símbolo de quão avançada a ciência soviética era. Obninsk foi apenas a primeira de muitas usinas construídas ao longo de décadas e, junto dela, a primeira das Atomgrads, uma espécie de cidade nuclear construída junto das usinas cujo propósito era servir a usina nuclear. Essas cidades contavam com bombeiros, vendedores, civis, escolas, o que você imaginar. E se você acha que elas eram cidades restritas, saiba que não. Naquela época, a União Soviética não considerava usinas nucleares como algo perigoso. Inclusive, existia um slogan de propaganda que era o átomo pacífico, uma maneira pensada de mudar a imagem que as pessoas tinham da energia nuclear. Pripyat foi a nona das Atomgrads e a primeira cidade nuclear da Ucrânia. Pripyat era a cidade vizinha da usina de Chernobyl, que na verdade era para ter sido construída 25 km de Kiev, que hoje é a capital da Ucrânia. Mas por pressão popular e de diversos órgãos, a construção foi realocada para outra área, a pouco mais de 100 km de Kiev, nas margens do Rio Pripyat. O local foi escolhido por ter grande disponibilidade de água, por ser às margens do Rio Pripyat, e também por estar bem localizado. A cidade ficava perto de uma estrada de ferro e de uma rodovia, então o acesso à matéria-prima para manter a usina funcionando seria facilitado. Pripyat foi inaugurada oficialmente no dia 2 de fevereiro de 1970, a apenas 3 km da usina nuclear de Chernobyl. E mesmo sendo uma cidade nuclear cuja única finalidade era abrigar as pessoas que trabalhavam na usina e suas famílias, Pripyat era uma cidade bastante moderna e muito bem pensada, tanto em termos de infraestrutura quanto de paisagens. E isso faz bastante sentido porque Pripyat precisaria abrigar os 50 mil trabalhadores da usina, junto com as suas famílias e também suprir as necessidades básicas da população. Só que ainda assim, convencer 50 mil trabalhadores a se moverem para um lugar remoto como Pripyat foi um grande desafio. É por isso que a maior parte dos trabalhadores veio direto da universidade. Por conta disso, a média de idade da população era de 26 anos, o que fazia de Pripyat uma das cidades mais jovens da União Soviética. Estima-se que todos os anos cerca de 1000 bebês nasciam na cidade, e quando eu falei que ela tinha uma estrutura surpreendente, é porque ela realmente tinha. Pripyat tinha jardins de infância, escolas de ensino fundamental e médio para quase 10.000 alunos, um hospital com capacidade para 410 pacientes, 35 parques, um cinema, estádios de esportes, academias e muitas outras coisas. De fato, Pripyat chegou a abrigar 49.360 pessoas, quando o acidente aconteceu.
[4:36]Só existe uma coisa pior do que um acidente nuclear. Um acidente nuclear evitável. A usina de Chernobyl usava um novo tipo de reator nuclear desenvolvido na União Soviética, o RBMK. Os reatores RBMK eram considerados bons na época por alguns motivos. Primeiro, eles eram extremamente baratos de serem construídos, o que permitia que eles fossem montados em série, e isso acelerava a expansão do programa nuclear soviético como um todo. Segundo, eles poderiam servir não só como gerador de energia elétrica, mas também como uma usina de produção de plutônio, que é um subproduto da operação de um desses reatores. O plutônio então poderia ser utilizado para projetos militares e até para fazer armamentos nucleares. Sendo eficiente financeiramente, possível de construir vários rapidamente e ainda usar como matéria-prima para armamentos nucleares no meio da Guerra Fria, fizeram dos RBMKs os reatores escolhidos pelo programa nuclear soviético.
[5:31]Mas eles tinham alguns problemas. Pensem em usinas nucleares como grandes máquinas a vapor. O funcionamento básico de uma é o seguinte: você tem o núcleo do reator, que é composto pelo combustível nuclear. Geralmente, é urânio, como no caso de Chernobyl. O urânio, quando decai, gera energia como um subproduto, e é essa energia que queremos aproveitar. Nós fazemos isso colocando um cano de água perto do combustível. A energia liberada pelo decaimento do urânio aquece a água, que então entra em ebulição e vira vapor. E esse vapor é canalizado até uma turbina e faz ela girar. É aí que a energia elétrica surge. Você pode então canalizar esse vapor, resfriar ele até ele voltar a ser água líquida e repetir todo o processo. Enquanto o urânio no núcleo do reator estiver fissionando, ele vai continuar aquecendo a água, e é esse processo que aproveitamos para gerar energia com as usinas nucleares. Na sua essência, a diferença entre usinas nucleares e usinas termoelétricas de carvão, por exemplo, é que ao invés de queimar carvão para gerar energia, você está usando o decaimento dos átomos de urânio. Mas um detalhe importante que torna muito mais complexo operar uma usina nuclear é a necessidade de um moderador e hastes de controle. Se você quer gerar energia elétrica para um país, não faz sentido você deixar que o urânio decaia todo de uma vez, ou então fazer com que ele nunca decaia e a água nunca vire vapor. Para isso, você adiciona um moderador, que no caso de Chernobyl era grafite. A função do moderador é simples, mas extremamente importante. Os nêutrons liberados no decaimento radioativo do urânio possuem velocidades altíssimas. Para garantir que a reação em cadeia da fissão do urânio continue por bastante tempo, você precisa desacelerar esses nêutrons para eles terem mais chance de serem absorvidos por outros átomos de urânio e, com isso, continuar a reação em cadeia. É importante notar que a diferença operacional de uma bomba nuclear de fissão e uma usina nuclear é que na bomba você quer que todo o combustível nuclear decaia rapidamente e libere a maior quantidade de energia no menor tempo possível. Para isso, você precisa de um combustível extremamente enriquecido e puro. Só que em uma usina nuclear, você quer que esse decaimento seja constante e ao longo de muito tempo, para continuar gerando energia pelo maior tempo possível. Só que a parte complexa é que átomos de urânio não vêm com botões de liga e desliga. Eles sempre vão estar decaindo, não importa o que você faça. E em um reator nuclear, isso pode ser um problema caso a reação aconteça mais rápido do que deveria. É por isso que existe outro componente no reator, as hastes de controle. A função delas é absorver os nêutrons para controlar as reações em cadeia. Um reator nuclear é uma delicada dança entre diversos componentes. Tudo tem que ser contabilizado e se você perde o controle do decaimento dos átomos de urânio, você tem problemas. Mas, se tudo isso for feito de maneira correta, você tem uma usina nuclear que funciona com um altíssimo nível de segurança e baixíssima probabilidade de acontecer um acidente. Mas infelizmente, esse não era o caso dos reatores RBMK. O próprio design deles favorecia várias situações que reduziam a segurança e a integridade dos reatores. Como nós vimos antes, os reatores soviéticos usavam água para resfriar o núcleo. Mas eles também utilizavam grafite como um moderador. E isso é peculiar, porque a água já é tanto um moderador de nêutrons quanto um absorvedor. O fato de os reatores RBMK possuírem grafite como moderador criava uma situação perigosa, o coeficiente de vazio positivo. Basicamente todo reator que usa água para ser resfriado possui uma quantidade de vapor dentro dele. Uma das razões pela qual isso acontece é porque a água é aquecida e gera bolhas de vapor. A razão entre o líquido e o vapor em um reator é chamada de fração de vazio. E essa fração, por sua vez, pode ser positiva ou negativa. Uma grande parte dos reatores nucleares do mundo utilizam água tanto para resfriar os reatores quanto para moderar os nêutrons. E a água é um elemento especial, porque além de moderar os nêutrons, ela também absorve eles. E isso gera um coeficiente de vazio baixo ou negativo. Esse caso é bastante seguro, e o motivo disso é bem simples. Nos reatores que usam água, ela está fazendo três funções ao mesmo tempo: absorvendo nêutrons, moderando nêutrons e resfriando o núcleo. A consequência disso é que se por algum motivo você tira a água do reator, ele para. Sim, você perde a única coisa que estava absorvendo os nêutrons e segurando a sua reação. Mas você também perde a única coisa que estava moderando os nêutrons e fazendo a reação acontecer. Isso é seguro. Só que no caso dos reatores RBMK, grafite era usado como moderador. Então, além da água que já faz o papel de moderador, você tinha a grafite desempenhando esse papel. E isso pode ser perigoso. Em um reator como o de Chernobyl, se você por algum motivo fica sem água, você perde o que estava absorvendo os nêutrons. Mas o moderador de grafite ainda está lá, então a reatividade aumenta e você perde o controle da reação. Com essas e outras falhas de segurança, um acidente nuclear em Chernobyl ou em qualquer outro reator RBMK russo, era não só uma possibilidade, mas uma questão de tempo.
[10:53]À 1:00 da madrugada, o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl estava operando normalmente. Um teste de segurança estava marcado para acontecer, coincidindo com o dia em que o reator número 4 seria desligado para manutenção. A intenção do teste era verificar como o reator operaria em uma situação de emergência. A situação era o seguinte: reatores RBMK precisam de água para serem resfriados. No caso do reator número 4, 28.000 litros por hora. Essa água toda era bombeada por bombas de água, mas elas precisam de eletricidade para funcionar, que, curiosamente, era alimentada pelo próprio reator. Então, se ele parasse de funcionar ou houvesse alguma situação emergencial em que a energia elétrica fosse perdida, a usina tinha três geradores de diesel à disposição. O problema é que esses geradores levavam de 60 a 75 segundos para atingir a velocidade total necessária para fazer as bombas de água funcionarem. Isso significa que em uma emergência os reatores ficariam praticamente um minuto sem água, o que seria desastroso. Isso era um risco de segurança inaceitável. A solução encontrada foi usar a turbina que, quando o reator fosse desligado, ainda estaria girando por causa do vapor de água que ainda estaria sendo formado no núcleo. Essa turbina, teoricamente, poderia fornecer 45 segundos de eletricidade para as bombas de água, mas isso nunca havia sido testado. Então, para realizar o teste, os operadores começaram a diminuir aos poucos a potência do reator. Às 13 horas e 5 minutos, 12 horas depois do início do processo, o reator estava operando com 50% da potência normal. Às 14 horas, a última redução na potência seria feita e o teste começaria, deixando o reator operando a 30% da capacidade normal. Mas inesperadamente, os controladores da rede elétrica em Kiev pediram para o teste ser interrompido porque haveria uma alta demanda energética e, portanto, o reator precisaria estar funcionando. Os operadores de Chernobyl deixaram o reator operando a 50% da potência por mais 9 horas. Às 23 horas e 4 minutos, os controladores em Kiev permitiram que o teste continuasse. E é aqui que as coisas começaram a dar errado. O teste era para ser feito durante o dia, com uma equipe devidamente preparada. Mas naquele horário, o turno do dia já tinha ido embora e quem continuaria o teste seria o turno da noite, que não estava preparado. Às 0:00, o novo turno havia assumido o teste. Entre as pessoas na sala de controle estavam Alexander Akimov, chefe do turno noturno, Leonid Toptunov, o operador de hastes, e Anatoly Dyatlov, o chefe-engenheiro da usina de Chernobyl. Para o teste acontecer, o reator precisaria estar operando a 700 megawatts. Essa potência foi atingida à 0:05. Só que dentro do reator, um dos subprodutos do decaimento radioativo, o xenônio 135, que absorve nêutrons, estava começando a se acumular. Isso é um processo conhecido como envenenamento do reator e a consequência disso é que a potência continua a diminuir, apesar de os operadores não terem feito mais nenhuma alteração. Às 0:28, o supervisor do turno noturno, Alexander Akimov, começou uma discussão com o chefe engenheiro da usina, Anatoly Dyatlov. Akimov dizia que o manual mandava que a potência do reator não poderia ser menor do que 700 megawatts, mas Dyatlov, que tinha um cargo maior, dizia que 200 megawatts seriam seguros. Como Dyatlov tinha um cargo maior, ele tinha a última palavra. E o teste seguiu. A potência do reator continuou a cair por causa do envenenamento de xenônio, quase chegando na potência para desativar o reator. Quando ela chegou em 5% do mínimo necessário para realizar o teste, os operadores da sala de controle decidiram tirar a maioria das hastes de controle para fazer a potência aumentar. O reator estava cada vez mais instável. Apesar de eles terem conseguido novamente atingir a potência de 200 megawatts, o envenenamento por xenônio estava cada vez maior. À 1:21 da manhã, um dos trabalhadores que estava próximo ao reator notou que a tampa das hastes de controle estavam pulando sem parar em cima do reator. Detalhe, cada uma dessas tampas pesava 350 kg. Com quase todas das 211 hastes de controle removidas do núcleo do reator, o teste começou à 1:23, 23 minutos e 4 segundos. Nesse ponto, todas as bombas de água que resfriavam o reator estavam funcionando com pouca energia. Isso diminuiu a quantidade de água que conseguia chegar no sistema. E é aqui que entra o coeficiente de vazio positivo. Bolhas de vapor começaram a se formar na água que deveria resfriar o núcleo.
[15:42]O vapor, diferente da água líquida, quase não consegue absorver nêutrons. A reação estava completamente descontrolada, conforme mais e mais água ia se transformando em vapor, o único elemento que absorvia nêutrons havia sido tirado do sistema, já que quase todas as hastes de controle estavam fora do núcleo naquele momento. A única coisa que restava eram os moderadores de grafite, que faziam a reação ocorrer mais rapidamente. Com o reator esquentando rapidamente, a potência aumentando sem controle, Akimov apertou o botão de emergência AZ5 para desligar o reator à 1:23 e 40 segundos. As hastes de controle que deveriam ser colocadas totalmente para desativar o reator, travaram logo no começo. O reator chegou a 120 vezes a potência normal de operação e cada vez mais vapor estava se acumulando na tubulação.
[16:33]A tampa de 1000 toneladas que ficava sobre o reator é arremessada para cima por causa da explosão. O núcleo agora estava exposto. Conforme o oxigênio entrava no núcleo, o grafite que servia de moderador começava a pegar fogo. As condições no reator eram tão extremas que o ar que entrava no reator reagia com a água e o metal dos tubos e gerava hidrogênio. A segunda explosão joga detritos no ar e quebra completamente o teto do reator número 4. Pedaços de grafite do núcleo, extremamente radioativos, podem ser vistos no teto e nos arredores do reator. A liberação de radiação agora já estava fora de controle. Partículas radioativas eram emitidas a todo instante e eram prontamente liberadas na atmosfera. Dois minutos depois da explosão, bombeiros da unidade de Pripyat são chamados.
[17:35]Um dos primeiros bombeiros a chegar no local foi Vasiliy Ignatenko. De acordo com a sua esposa, Liudmila Ignatenko, os bombeiros foram chamados sem saber exatamente qual era o tipo do acidente que havia acontecido na usina. Sem nenhum tipo de proteção especial, muitos dos bombeiros lutavam bravamente contra o fogo, muitas vezes chutando blocos de grafite, extremamente radioativos, que estavam espalhados pelo chão ao redor da usina. Aproximadamente às 6:35 da manhã do dia 26, os focos de incêndio já estavam controlados, com exceção do reator 4, que continuaria pegando fogo por vários dias. Nesse ponto, pelo menos 186 bombeiros haviam sido chamados. Ainda pela manhã, os bombeiros foram levados para o hospital local de Pripyat, com sintomas de síndrome aguda da radiação. Mesmo sendo uma cidade cujo propósito era servir a usina de Chernobyl, Pripyat não tinha como atender a todos aqueles bombeiros e pessoas. As roupas que eles usaram estavam contaminadas e emitiam grandes doses de radiação. Elas foram tiradas e jogadas no subsolo do hospital, e elas continuam radioativas até hoje. Durante a noite, eles foram levados para o hospital número 6 em Moscou, um hospital especializado em radiologia. Radiação é invisível, não tem gosto, não tem cheiro e não emite som. Os bombeiros e operadores da usina logo começaram a apresentar sintomas como vômito, náusea, em alguns casos, confusão mental. Dependendo da dose de radiação absorvida pela pessoa, esses sintomas podem aparecer após horas ou dias. No caso de alguns bombeiros e operadores de Chernobyl, isso aconteceu em minutos. O problema acontece por causa da radiação ionizante. Ela consegue tirar elétrons dos átomos e uma das consequências disso é a alteração do DNA das células. Como resultado, elas não conseguem mais funcionar corretamente. As proteínas necessárias para o funcionamento das suas células param de ser sintetizadas. As células que compõem o seu corpo começam a morrer. A Liudmila Ignatenko conta que, ao chegar no hospital número 6 em Moscou, ela ficou surpresa com a condição do marido, Vasiliy Ignatenko. Ele parecia estar bem, como se até estivesse melhorando e saudável. Mas infelizmente, ele e os outros bombeiros estavam na fase latente da síndrome aguda da radiação. Apesar de parecerem estar melhorando, dentro dos seus corpos as células da medula óssea estavam morrendo. Com isso, o seu corpo para de produzir as células do sangue, entre elas, os glóbulos brancos que servem como a nossa proteção contra infecções. Com um organismo extremamente debilitado e sistema imunológico praticamente inexistente, começa a próxima fase da síndrome aguda da radiação. Nela, os sintomas anteriores podem voltar. Vômito, náusea. Mas o que realmente marca essa fase é que os últimos glóbulos brancos do seu sangue começam a morrer. E eles não são repostos porque a sua medula óssea não funciona mais. E sem plaquetas para ajudar na coagulação, o corpo começa a sofrer com hemorragias. O seu sistema digestivo para de funcionar e você não consegue mais comer. As células do seu corpo vão morrendo uma a uma porque não conseguem reparar o dano que foi feito pela radiação ionizante. Em menos de duas semanas, o dano irreparável que a radiação fez no corpo leva a morte do paciente. Vasiliy Ignatenko, um dos primeiros bombeiros a chegar no local, morreu no dia 13 de maio de 1986 no hospital número 6 em Moscou. Essa é o que acreditamos ser a primeira imagem tirada do acidente, e a única que ainda existe daquela manhã. O fotógrafo se chamava Igor Kostin. Você percebe a quantidade de grãos nessa imagem? Isso provavelmente foi causado pela radiação. Uma coluna de fumaça continuava a emanar do reator e essa fumaça levava partículas extremamente radioativas para a atmosfera e estava contaminando Pripyat e as cidades ao redor. Quando questionados sobre o nível de radiação ao redor da usina, os dosimetristas reportaram 3,6 roentgens por hora. O detalhe é que essa era a medição máxima daquele medidor específico.
[21:38]A radiação ao redor da usina, na verdade, chegava a 30.000 roentgens por hora. Mesmo sabendo que 3,6 era o valor máximo daquele medidor, o chefe da usina, Viktor Brukhanov, reportou a Moscou que o acidente foi pequeno e estava sob controle. Só que, de verdade, ele estava fora de controle.
[22:41]De acordo com as notas pessoais escritas por Nikolai Karpan, um dos homens que trabalhou na contenção do acidente, ainda na manhã do dia 26, as autoridades soviéticas já sabiam da dosagem de radiação na cidade e já poderiam ter evacuado a população. O que não aconteceu. O acidente nuclear de Chernobyl era um segredo de estado e não demorou muito para tropas e mais tropas soviéticas chegarem na cidade, que chegou até a ser cercada. Ninguém saía e ninguém entrava sem autorização.
[23:15]A evacuação só começou na tarde do dia 27 de abril, depois de as autoridades soviéticas não falarem nada para os residentes de Pripyat por praticamente 36 horas. Os habitantes de Pripyat foram instruídos a levarem apenas itens pessoais, já que a evacuação supostamente seria por apenas dois ou três dias. Mais de 1.200 ônibus foram utilizados para evacuar algo entre 40 e 45 mil pessoas que estavam na cidade. Elas não sabiam, mas nunca mais voltariam para casa.
[23:53]Enquanto isso, o reator exposto continuava a emitir partículas extremamente radioativas na atmosfera. Diferente de um incêndio, um derretimento nuclear não pode ser apagado com água. Átomos de urânio não param de fissionar, a única maneira de impedir a reação em cadeia é colocando alguma coisa para absorver os nêutrons liberados. Às 10:00 da manhã do dia 27, um domingo, os primeiros helicópteros começaram a jogar uma mistura de areia e boro no reator exposto. O desafio era conseguir acertar o reator. Os pilotos não podiam sobrevoar ele por causa dos níveis de radiação. Vários improvisaram a proteção de chumbo nos próprios assentos dos seus helicópteros. E no decorrer de 5 dias, 5.000 toneladas foram jogadas no núcleo. Infelizmente, a maior parte desse material não acertou o alvo, e o núcleo continuou a aquecer. Conforme o núcleo aquecia, a alta temperatura transformava concreto, urânio, areia e qualquer outra coisa que entrasse no caminho em Corium. Uma espécie de lava que, na verdade, é a mistura extremamente quente do que sobrou do núcleo derretido. Embaixo da usina existia um reservatório de água. Existia uma preocupação de que se o Corium chegasse até ele, uma nova explosão aconteceria e liberaria ainda mais radiação na atmosfera. Três trabalhadores de Chernobyl se voluntariaram para entrar na usina, mergulhar na água contaminada e manualmente abrir as válvulas para tirar a água do reservatório. Não era esperado que eles voltassem. A missão foi um sucesso e eles conseguiram encontrar a válvula. Os riscos subsequentes de mais uma explosão foram eliminados por esses três indivíduos. E surpreendentemente, ao contrário do que foi amplamente divulgado, todos os três sobreviveram, e dois deles vivem até hoje.
[25:44]Com o perigo imediato de novas explosões eliminado, ainda restava um problema, o núcleo do reator. O teto do reator número 4 foi destruído com a explosão, e por isso o núcleo ainda estava exposto, continuando a contaminar as redondezas. Para acabar de vez com esse problema, uma solução prévia foi pensada: construir uma estrutura, uma espécie de sarcófago, que selaria o reator do ambiente ao redor. Mas para começar a construção, os arredores do reator ainda precisavam ser limpos para ficarem mais seguros para os trabalhadores. A explosão colocou aproximadamente 100 toneladas de detritos radioativos no teto da usina.
[26:26]No começo, as autoridades soviéticas tentaram usar robôs para limpeza. Um deles era uma versão modificada dos robôs do programa espacial soviético, construídos para serem operados na lua. Em um momento, até um robô especial alemão chegou a ser utilizado. Mas tinha um problema: os robôs paravam de funcionar por causa da radiação. Ou a radiação acabava com os circuitos eletrônicos dos robôs, ou eles ficavam presos nos destroços. Era uma situação delicada. Em um estágio do processo, chegou-se à conclusão de que os melhores robôs que existiam eram seres humanos, os chamados biorrobôs. Pessoas tiveram que fazer o trabalho que nem robôs conseguiam fazer. Eles faziam parte de um grupo conhecido como liquidadores, cuja função era ajudar na contenção e recuperação das áreas afetadas pelo acidente. Vestidos com roupas especiais, eles usavam paz e só podiam ficar de 40 a 60 segundos no telhado do reator removendo os destroços. No final desse intervalo, eles eram pagos e enviados para casa. No final do processo de limpeza dos telhados, apenas 10% foi feito por robôs. 90% dos destroços foram retirados por seres humanos. Ao todo foram necessárias quase 5000 pessoas para o serviço. Os trabalhadores receberam em média cinco vezes a dose de radiação que uma pessoa recebe em um ano, nesses 40 segundos no telhado. E foram eles que permitiram o início da construção do sarcófago. Enquanto o sarcófago era construído, um dos maiores feitos de engenharia do século, helicópteros dispersavam pelas áreas afetadas uma solução cujo propósito era fixar as partículas radioativas no solo. Esse solo seria cavado e colocado em outros lugares, descontaminando a região. Todas as estruturas da cidade, incluindo prédio, ruas e o próprio chão, tiveram que ser descontaminados. Nada entrava ou saía da cidade sem antes receber uma meticulosa inspeção em busca de contaminação radioativa. O que fosse muito difícil de ser descontaminado, como casas, era tombado e enterrado. Mais de 600.000 pessoas trabalharam ao longo dos meses seguintes ao acidente na descontaminação das áreas afetadas. Todos os veículos, incluindo helicópteros e tratores, ou foram enterrados ou permanecem em um pátio abandonados. Eles nunca poderão sair da cidade, embora vários deles ainda funcionem, por causa das partes extremamente radioativas. Eles estão contaminados. Dizem que em uma guerra são os vencedores que escrevem a história. Só que no caso de Chernobyl, não existem vencedores para escrever essa história. O mundo inteiro perdeu. Antes uma cidade que abrigava 50.000 pessoas, hoje Pripyat é uma amarga lembrança de um dos episódios mais desastrosos da história. Uma cidade completamente abandonada, em que muitos dos locais estão exatamente como foram deixados no dia 27 de abril de 1986. É difícil de estimar exatamente o número de casualidades decorrentes do acidente. O número oficial divulgado pelas autoridades soviéticas é 31, e esse número é mantido desde 1986. Mas esse número só engloba os trabalhadores e bombeiros que pereceram diretamente como decorrência do acidente. Embora seja difícil de contabilizar as pessoas afetadas no longo prazo, algumas estimativas colocam esse número na casa dos 4.000. Outras, organizadas por grupos de sobreviventes, instituições científicas e ambientais, sobem esse número para 93.000. Mas essa não é a única consequência do acidente. Existe um país pequeno chamado Bielorrússia, com uma população de 10 milhões de pessoas. Como resultado do acidente, o país perdeu 485 vilas e assentamentos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o país perdeu um de cada quatro habitantes. Hoje, um em cada cinco bielorrussos vivem em terras contaminadas. Uma zona imensa foi interditada e continua interditada até hoje. Ela é chamada de zona de exclusão de Chernobyl, e compreende aproximadamente 2.600 km2. Mas surpreendentemente, Chernobyl não é uma história só sobre energia nuclear. Chernobyl também é uma história política e de engenharia, e também das pessoas que mais sofreram e ainda sofrem com o acidente. Usinas nucleares não são simples, e a segurança deve ser máxima e sempre priorizada. Diferente do que era feito na usina de Chernobyl e nos reatores RBMK russos. Pripyat é um testemunho perpétuo do preço que se paga quando não fazemos nada disso direito.



