[0:00]Tem uma consideração apenas que eu vou responder antes porque eu acho que ela é importante para a democracia do Brasil. O processo de ditadura militar no país, em 19, que começa em 64 e se aprofunda em 68 e atinge o seu auge em 70, quando se tortura e se mata indiscriminadamente no Brasil, ele é completamente diferente do processo de transição democrática. Esse momento, que vai se dar nos 80, é diferente do que aconteceu ao longo dos anos 70. O que acontece ao longo dos anos 70, não é uma ditadura policialesca simplesmente. É a impossibilidade de se dizer a verdade em qualquer circunstância. Por quê? Porque o direito à livre expressão estava enterrado. Não se dialoga, não é possível supor que se dialogue com o pau-de-arara, com o choque elétrico e a morte. Não há esse diálogo. E isso não é só aqui no Brasil que não houve. Não houve em nenhum país do mundo, não houve na Argentina, diante da ditadura militar Argentina. Não houve na Argélia, na guerra da Argélia. Não há a possibilidade de um diálogo civilizado. E é isso que é importante hoje na democracia brasileira. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira. Eu tinha 19 anos, eu fiquei 3 anos na cadeia e eu fui barbaramente torturada, senador. E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogadores, compromete a vida de seus iguais, entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia se fala a verdade. Diante da tortura, quem tem coragem e dignidade, fala mentira. E isso, e isso, senador, faz parte e integra a minha biografia que eu tenho imenso orgulho. E eu não estou falando de heróis. Feliz do povo que não tem heróis desse tipo, senador, porque aguentar tortura é algo dificílimo, porque todos nós somos muito frágeis. Todos nós somos humanos, nós temos dor. E a sedução, a tentação de falar o que ocorreu e dizer a verdade é muito grande, senador. A dor é insuportável. O senhor não imagina o quanto é insuportável. Então, eu me orgulho de ter mentido. Eu me orgulho imensamente de ter mentido, porque eu salvei companheiros da mesma tortura e da morte. Não tenho nenhum compromisso com a ditadura em termos de dizer a verdade. Eu estava num campo e eles estavam no outro, o que estava em questão era a minha vida e a de meus companheiros. E esse país, que transitou por tudo isso que transitou, que construiu a democracia, que permite que hoje eu esteja aqui, que permite que eu fale com os senhores, não tem a menor similaridade. Esse diálogo aqui é o diálogo democrático. A oposição pode me fazer perguntas, eu vou poder responder. Nós estamos em igualdade de condições humanas, materiais. Nós não estamos num diálogo entre o meu pescoço e a força, senador. Eu estou aqui num diálogo democrático, civilizado. E, por isso, eu acredito e respeito esse momento. Por isso, todas as vezes eu já vim aqui nessa comissão antes. Então, eu começo a minha fala dizendo isso, porque isso é algo que é o resgate desse processo que ocorreu no Brasil. Vou repetir mais uma vez. Não há verdade, não há espaço para a verdade, é isso que mata. A, o que mata na ditadura é que não há espaço para a verdade, porque não há espaço para a vida, senador. Porque algumas verdades, até as mais banais, podem conduzir à morte. É só errarem a mão no seu interrogatório. E eu acredito, senador, que nós estávamos em momentos diversos da nossa vida em 70. Eu asseguro para o senhor, eu tinha entre 19 e 21 anos e eu, de fato, combati a ditadura militar e disso eu tenho imenso orgulho.

Dilma Rousseff sobre os horrores da ditadura militar
PT - Partido dos Trabalhadores
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[0:00]Tem uma consideração apenas que eu vou responder antes porque eu acho que ela é importante para a democracia do Brasil.
[0:00]Esse momento, que vai se dar nos 80, é diferente do que aconteceu ao longo dos anos 70.
[0:00]O que acontece ao longo dos anos 70, não é uma ditadura policialesca simplesmente.
[0:00]Não se dialoga, não é possível supor que se dialogue com o pau-de-arara, com o choque elétrico e a morte.
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