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Descolonizando o pensamento, com Renato Noguera | Websérie Filmes que Ensinam

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[0:10]Oá, rogiyê Exu é poder. Comece antes de vim, transforma tudo que faz. Pessa licença para Exu, força e movimento altas. Lá rogiyê, Exu é poder. vou quase partir de um pressuposto, quando ele fala de colonização, que o sistema mundo ele se organizou a partir desse elemento histórico, desse fenômeno histórico, que foi quando a Europa no século XVI. Ela vai entrar na América, na África, na Ásia, vai entrando, século 16, 17, como isso vai criando no campo das humanidades, um campo de estudos que é o campo dos estudos pós-coloniais. Né? Então, como os estudos pós-coloniais nos ajudam a pensar a história, a pensar a geografia, pensar filosofia, sociologia, o que tem nesse campo, nos pós-coloniais, é que eles partem desse pressuposto que pra gente compreender o sistema mundo contemporâneo, norte global, sul global, tem que compreender a colonização. E como isso tá relacionado a um a um processo de hibridismo, ou seja, o contato entre as metrópoles e as colônias, cria uma cultura híbrida, cria uma cultura que ela tem manifestações que tem elementos dos colonizadores e das populações e povos colonizados. Agora, os decoloniais, tão enfatizando algo que a gente chama de injustiça cognitiva, que é o epistemicídio. Como as culturas, as culturas locais que são colonizadas, elas são de alguma forma desprestigiadas, não são levadas em consideração. Os europeus vieram já enxergando índios e tentaram nos convencer até hoje que nós somos índios. Sendo que antes de sermos índios, nós éramos e continuamos sendo, né? É, Yepa-masã, Tupi-Nambá, é, Xavante, Craó, Potiguara, Kariri-Xocó, é, Pataxó, Tupi-Nambá, é, Kaingang e tantas as milhares de civilizações, né, com nomes próprios, com histórias próprias que acabaram sendo reduzidas à imagem do índio. lugar de fala é um conceito que atravessa muitas áreas, né? Tá na linguística, tá na comunicação, mas tá na filosofia. A Djamila Ribeiro popularizou esse debate sobre o lugar de fala. A gente não enxerga com os olhos, a gente enxerga através do olhar, porque o que significa dizer, a gente não enxerga só o conteúdo, mas a forma, o sujeito de fala, ele interfere na maneira como o circuito social recebe a informação. Lugar de fala tem relação com a partir do ponto que eu estou no circuito, num circuito social, a fala de alguns tem um peso diferente de outras pessoas. Isso tem a ver com algo que aparece nos estudos decoloniais e pós-coloniais, que é gênero, raça, classe social, faixa etária. Tudo bem? Escolaridade, esses elementos, eles mudam e criam ou não ruídos na hora de uma informação. Toda a circulação de informação, todo o ato de fala, ele é atravessado por ruídos que podem potencializar a fala ou não potencializá-la.

[4:00]Escrever sobre o lugar de fala eu entendi que era importante no momento em que as pessoas estavam eh, esvaziando muito o conceito. Então, tem muito isso, assim, porque vem de mulheres esse conceito, pensado por filósofas, não só filósofas, cientistas sociais também, mas filósofas que vem do sul do mundo, são latinas, são negras, ou são chicanas, como a Gloria Anzaldúa se denominava. Então, eu percebo que não tem muito respeito quando é, os conceitos partem dessas mulheres. E para discutir o lugar de fala, a gente tem que trazer esses pontos de partida, né, das mulheres, dos grupos, do grupo social. Então, discutir lugar de fala é discutir lugar social. Basicamente a gente pode falar em maneiras, em duas formas básicas das culturas se organizarem diante dos fenômenos fundamentais. De uma maneira mais cosmófica e de uma forma mais cosmofílica. A tradição abrâmica, que tem, é, especificamente, né, judaísmo, cristianismo, islamismo, ela parte de um pressuposto, pensando filosoficamente, que tem ali uma tribeleita em certa medida. Porque tem três tempos na história da humanidade, o tempo de um paraíso, a perda, a perder o paraíso, um tempo de tribulação e um grande juízo final. No ponto de vista de uma certa leitura, mais banalizada científica, ou seja, os mais fortes sobrevivem, o darwinismo social, por exemplo, né? Os mais fortes sobrevivem ao final, ou os mais adaptados de uma certa leitura, mas significa que tem sempre uma seletividade, tem uma seleção. Nem todos podem chegar ao final. Na economia capitalista neoliberal, pensando o neoliberalismo e diferenciando liberalismo de neoliberalismo, é, tem também uma competição quase insana, onde nem todos são capazes de mostrar os seus dons e são, estão prontos para competir com o mercado.

[6:04]Ou seja, tem uma seleção, tem uma disputa, uma disputa que é muito forte, essa disputa vai ser no plano religioso espiritual, vai ser no plano, eh, da natureza, vai ser no plano da economia. Ok? Tem sempre disputa e tem alguns que vão herdar uma terra prometida. O pressuposto Malthusiano e Neomalthusiano, fundamental, é de que tem pouco recurso para muita gente. Ou seja, só resta a disputa, é aquilo que tá relacionado a todas as formas de opressão, que é monopólio da gestão dos recursos para a vida. Ou seja, quando ele fala de racismo, fala de patriarcado, fala de qualquer maneira de opressão, colonização, nós estamos falando de gestão monopolizada dos recursos para a manutenção da vida, fundamentalmente. E aí, o Thomas Malthus, demógrafo, geógrafo, ele aponta para isso, e isso é uma discussão que a gente tem feito há muito tempo. Fazendeiro, desmatamento da floresta, destruição da terra e a poluição, lixo. Foi então que eu fui entendendo tudo aquilo, eram as marcas e os rastros dos napë. Aí aprendi que os rastros dos napë são assustadoramente sujos. Por que será que cortam a floresta dessa maneira? Por que que não tem amizade pela floresta? No ponto de vista da biologia, a gente pode falar do Porges, da teoria polivagal, que é o que a gente chama de sequestro amigdalar. Ou seja, quando as pessoas funcionam com, basicamente, duas emoções, medo e raiva. Se eu funciono com medo e raiva, eu tô sempre em estado de alerta. No estado de alerta, eu tô sempre numa situação que eu preciso convocar as minhas defesas, porque o estrangeiro sempre me coloca em risco. E a melhor defesa é o ataque, então significa que eu tenho que também atacar e monopolizar recursos dos outros grupos. Do ponto de vista biológico, o que significa? Significa que eu fico num estado, basicamente, é, ou fico no sistema, eu fico simpático. Funciona de modo simpático, que é também com raiva e com medo, e o medo é uma emoção, que ela produz um, um frio na barriga, mais sangue nas extremidades, que eu tenho que lutar ou fugir. Então, nesse estado, essa atmosfera cultural cosmófica, ela produz sujeitos que estão mais em estado de alerta, porque o imaginário social está a dizer que tem pouco recurso para muita gente. E essa pessoa não, não fica tanto no sistema vagal ventral, que é quando eu sou capaz de manter mais empatia e me relacionar, não que eu vou ser capaz de amar todo mundo o tempo inteiro com a, com a mesma intensidade. Eu sou capaz de respeitar muitas pessoas, eu sou capaz de lidar com as, com as divergências, porque eu tô num sistema, tá funcionando de uma forma, eu tô poroso, eu tô permeável, eu tenho mais oxitocina. Ok? A oxitocina aumenta. Quando ela diminui, tem mais cortisol, eu tenho mais tendência, mais probabilidade, pensando de modo mais complexo, a ficar naquilo que é o sequestro amigdalar.

[9:41]O rio tem em cada rua um templo. Em cada homem, uma crença diversa. Pode-se ter a impressão de que estamos em um país essencialmente católico. Mas a cidade pulula de religiões. Basta parar em qualquer esquina, entrar em qualquer boteco e interrogar. A diversidade dos cultos é de espantar. Os contra-coloniais operam de uma outra maneira. Eu trouxe três nomes importantes: Mãe Stella de Oxóssi, Ailton Krenak e o Nego Bispo. Por que que eles têm em comum? Eles estão a dizer que não querem reformar o que existe, exatamente, mas que existem mundos que já funcionam de outra maneira. E aí tem dois modelos que são razoáveis para pensar isso, a aldeia e o quilombo. A aldeia e o quilombo são não são terras prometidas, não são paraísos, mas são territórios onde é necessário um sistema final de ganha-ganha. Porque se tem alguém em sofrimento na comunidade, coloca em risco toda a comunidade. Em sistemas cosmófilicos, além do diálogo, tem uma ideia, um conceito que é polidialogo, que é a capacidade que nós temos de conversar com seres que não estão presentes e com seres de outra espécie. Ancestrais que não, que já estiveram aqui, não estão mais em matéria, pessoas que estarão no futuro, a futuridade. O que que ocorre? Quando um iorubá fala que Oxum é água, é porque Oxum é uma pessoa. Quando um tupi-guarani, as culturas tupi-guarani, falam que Iara é água, porque Iara é uma pessoa. Pode parecer estranho, mas o que significa isso? Do ponto de vista ecológico, que eu não posso mudar o curso de um rio. Algumas cidades ficam cheias quando chove, porque o curso do rio foi mudado. Uma sociedade cosmófila nunca teria feito aterro, porque ela entende que o rio é uma pessoa. Eu não posso cortar o braço de um rio, e aterrar um rio é cortar um braço, cortar uma perna. E vai ter um movimento reflexo em algum momento desse rio, desse mar, que quer voltar ao lugar que ele tinha. Ou seja, eu ocupo aquele espaço escutando o que aquele ser tem para dizer. Na conjuntura contra-colonial, é preciso desumanizar a humanidade para promover uma poli-cultura radical a favor da vida. E aí, os contracoloniais, eles são multis, são polis, por exemplo, uma arquitetura da agricultura contracolonial é a floresta. Né? Do ponto de vista político, os contracoloniais não falam muito em cidadania, falam em florestania, que é diferente. Os contracoloniais não fariam monocultura, plantar só cana de açúcar, plantar só café. Eles plantam tudo junto, isso é a floresta. Os contracoloniais não são monoteístas, não são monogâmicos, são polis, porque entendem que quando a gente é poli, você tem menos ciúme e talvez isso sirva para que a vida possa ser mais fácil de ser vivida. Quando um tupi encontrava lá um Kaingang, um Goianá, que era outra língua, outra crença, outro sistema, outra pintura corporal, né? Como que fazia? Então, tinha algumas estratégias, uma delas é, era, é se adequar a rotina do outro por um tempo. Ou seja, que festas, que ritos, que é, como que eu entro na casa do outro? E aí, vinha uma outra estratégia, que era o puxirum, que evolui-se para a palavra motirum, que se apotuguesa para a palavra mutirão. Então, a evolução desse primeiro relacionamento, que era a troca de coisas, evoluía para um relacionamento de colaboração mútua. E veja que o Cacá Werá diz, eh, os tupis aprendiam com os Kaingang um pouco seus costumes. Isso aconteceu com outros grupos também, Tupi-Nambá, aprendeu com os Guaranis, por quê? Ele queria aprender com o outro grupo, não queria impor o seu, o seu modo de ser. Isso acontece em outras culturas, também no contexto africano, a gente pensar os fon e os iorubás, os iorubás eram mais fortes, eles tinham, eram mais fortes militarmente que os fon. Mas eles absorveram a cultura fon, incorporou o seu panteão, né, mítico religioso. Ou seja, isso é diferente dos contextos europeus. Isso é muito importante, é salientar.

[14:40]Então, a ideia fundamental é que para que o mundo caiba no mundo, é necessário contra-colonizar o conhecimento. Porque se eles não contra-colonizam o conhecimento, viveremos num estado permanente de guerra, onde a arquitetura das cidades vão ter muito mais muros do que ponte. E a ponte é necessária para pelo menos a gente poder fazer conexão com as pessoas que a gente ama, com o mundo onde a gente tenha segurança psicológica para dormir sem medo e poder sonhar.

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