[0:00]A remoção gradual de preconceitos é o objetivo comum de toda a ciência, frase adaptada de Niels Bohr. Você já viu algo estranho no céu? Talvez um ponto de luz se movendo de forma estranha numa noite escura? Ou quem sabe você viu um disco de aparência metálica flutuando de dia? Ou talvez você tenha visto de perto algo que parecia com uma nave, com detalhes e tudo mais. Você não é o único. Você talvez tenha visto um OVNI, um objeto voador não identificado. Recentemente, o termo OVNI começou a cair em desuso e foi substituído, inclusive, pela NASA, por um termo mais tradicional: U.A.P, que significa Unexplained Aerial Phenomena. Em algumas fontes, você pode até ver o A significando anômalo ao invés de aéreo, e isso acontece porque a terminologia ainda não está 100% determinada. Mas nesse vídeo, eu vou usar o termo OVNI. No começo da década de 1940, os pilotos da Força Aérea americana começaram a reportar algo muito estranho. Um avião que era muito mais rápido do que todos os aviões conhecidos, e aqui vem a parte louca: os pilotos juravam que esse avião estava sendo pilotado por um gorila. Sim, isso mesmo, um gorila. Os pilotos, obviamente, foram ridicularizados pela Força Aérea americana, mas os relatos não pararam. Até que anos depois, a verdade foi revelada. O que os pilotos viram foi o teste dos primeiros aviões a jato, pelo piloto bastante piadista Jack Williams, que executava esses testes vestindo uma fantasia de gorila. Isso não tem tanto a ver com OVNIs, mas eu precisava contar essa história para alguém porque ela é boa demais. OVNIs são um tema bastante carregado. Todo mundo tem opiniões formadas sobre eles. Algumas pessoas acreditam que eles sejam todos de origem alienígena, outros acreditam que existe uma explicação mais terrestre. E o que eu quero fazer com esse vídeo é convidar todo mundo a dar um passo para trás e olhar de maneira séria e imparcial para a história de observações estranhas no céu, que acreditem, vai longe na história da humanidade. Como que esses avistamentos ficaram associados com alienígenas e como o assunto ficou tão polêmico e divisivo? Só antes de eu entrar em detalhes, eu tenho uma pergunta para vocês. Se você fosse o responsável pela Terra, que mensagem você mandaria para alienígenas? A resposta com mais curtidas daqui a uma semana leva a camiseta que eu estou usando nesse vídeo. Essas camisetas que eu uso nos vídeos já estão disponíveis na minha loja, a Loos, e toda estampa tem um significado. E você pode escolher qual parte do universo você quer vestir junto comigo. O significado dessa daqui é um mapa da galáxia para a gente saber onde a gente está. E se for a sua primeira compra, use o cupom LOOS10 para ganhar 10% de desconto. E agora, voltando a nossa discussão original, vamos fazer um resumo geral sobre o que nós sabemos sobre OVNIs. Todos os grupos que investigaram OVNIs de forma pública, desde o recente comitê independente da NASA até o clássico Projeto Blue Book dos anos 50 e 60, chegaram a algumas conclusões em comum. Primeiro, a maior parte dos relatos de OVNIs têm explicação natural, e isso é um fato. Até pessoas que acreditam que OVNIs são de origem extraterrestre, passaram a vida estudando eles, concordam com isso. Segundo, existe uma parcela pequena, mas não desprezível, dos relatos que, de fato, desafiam qualquer explicação conhecida. E esses são os OVNIs verdadeiros, observações incríveis feitas por observadores críveis. E terceiro, é um tópico difícil de estudar de forma rigorosa, tanto pelo estigma ao redor, quanto pela falta de dados de qualidade. E é justamente por esse terceiro ponto que o vídeo de hoje vai começar. Hoje em dia, é muito difícil de falar sobre objetos voadores não identificados de forma neutra. E eu quero entender o porquê disso. E para deixar super claro, essa pesquisa desse vídeo é baseada em um olhar crítico sobre documentos oficiais do governo dos Estados Unidos sobre OVNIs. E eu preciso deixar claro que OVNIs são um fenômeno global e vários países ao redor do mundo, incluindo o Brasil, tem histórias de OVNIs e uma relação conturbada entre o governo, forças militares e relatos de coisas estranhas no céu. O motivo de eu estar falando sobre os Estados Unidos especificamente é porque eles têm o maior volume de documentos e relatórios acessíveis sobre esses fenômenos, até por serem a maior presença militar no planeta praticamente 70 anos. Tirando isso da reta, agora podemos falar dos Foo Fighters.
[4:09]Não, não esse Foo Fighters. O nome da banda liderada pelo Dave Grohl vem de um fenômeno aéreo estranho observado por pilotos durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1942, vários pilotos da Força Aérea americana passaram a reportar luzes estranhas seguindo os aviões a alguma distância.
[4:28]E essas luzes foram chamadas de Foo Fighters, que é tipo uma gíria para caças de mentira, no sentido de caças aéreos de mentira. Se não me engano, Foo vem até do francês. Eu posso ter errado quanto a isso. Os Foo Fighters eram observados em todos os fronts ao redor do mundo, da Europa ao Japão, mas o comportamento e cores das luzes pareciam variar entre os locais. A observação desse fenômeno aéreo se tornou tão comum que os relatos assumiram até um tom casual. Ah, nós vimos mais Foo Fighters nessa quinta-feira. Olha lá ele de novo! A primeira hipótese para as luzes era de que os Foo Fighters eram algum tipo de equipamento de guerra desconhecido pelos Aliados. Mas no pós-guerra, ficou claro que os inimigos dos Aliados também estavam observando os Foo Fighters e não faziam ideia do que eram. E mesmo com investigações conduzidas sobre o fenômeno, o mistério continuou. Os relatos de coisas estranhas no céu continuaram depois da guerra, e os relatos na Suécia, Noruega e Finlândia eram de interesse especial para o governo americano. Esses países ficavam próximos da União Soviética, e o fim da Segunda Guerra Mundial era só um aquecimento para a Guerra Fria. Nessa época, os Estados Unidos temiam que OVNIs fossem alienígenas comunistas. Brincadeira. A hipótese alienígena para OVNIs só seria levantada alguns anos depois disso. O medo dos Estados Unidos nessa época era de que os relatos de OVNIs nos três países fossem alguma tecnologia secreta da União Soviética sendo testada, o que, nesse cenário, era bem possível.
[5:49]Mas ninguém nunca conseguiu evidências sólidas para comprovar isso. O ponto é que o medo de tecnologias aéreas secretas da União Soviética fez os militares e departamentos de inteligência americanos levarem OVNIs a sério. Os Estados Unidos decidiram olhar para o céu com a sua inteligência militar. E aqui vale uma nota para evitar anacronismo. Os principais serviços de inteligência americanos da época, como por exemplo, a CIA, ainda eram novos e bem descoordenados. Eles não eram nada parecidos com o que eles são hoje. Tem até uma frase da época de que inteligência militar, na verdade, era uma contradição. E isso é algo para se manter em mente enquanto nós estamos olhando para essa época. Aconteceu muito esforço duplicado, muitas falhas de comunicação e muita desconfiança mútua, tanto entre os esforços da Força Aérea, da CIA e do Pentágono sobre OVNIs, assim como discordâncias internas dentro de cada serviço. Em 1947, não existia uma opinião oficial sobre OVNIs dentro dos militares e agências de inteligência americanas, e nenhuma diretriz de comunicação pública sobre o tópico. O assunto era novo e ainda não tinha os preconceitos e expectativas modernas sobre o tópico. Em 1947 foi um ano icônico para relatos de coisas estranhas. A primeira observação a descrever um OVNI como um disco voador foi nesse ano, e esse também foi o ano do caso Roswell, um dos casos mais famosos e polêmicos de OVNIs da história. Dito isso, o foco aqui é que a Força Aérea americana repetia publicamente, com toda a calma do mundo, que tudo estava sob controle e eles estavam investigando o mistério. Mas internamente, existia uma divisão de opiniões do que exatamente eram os OVNIs: talvez fenômenos atmosféricos desconhecidos, ou quem sabe, tecnologia soviética, ou projetos super secretas do próprio governo americano. Alguns militares também sugeriram que OVNIs eram algum tipo de alucinação coletiva, que a Força Aérea estava bem disposta a descartar relatos civis de OVNIs como meras alucinações, mas desconfiados, relatos que vinham dos pilotos que a própria Força Aérea treinou seriam uma traição a eles.
[7:49]Então, em um geral, só relatos vindos de militares eram levados a sério. Em 1947, a Força Aérea só concordava que a questão precisava ser investigada mais a fundo, e em 1948, um projeto centralizado de investigação de OVNIs foi montado, o Projeto SIGN. Parte da motivação para levar a questão a sério veio da primeira morte devido a um OVNI. Um piloto americano sofreu um acidente tentando perseguir um OVNI no começo de 1948. E para piorar, esse OVNI, muito provavelmente, era só um balão que o governo americano estava desenvolvendo em segredo, o balão Skyhook. Se existisse coordenação entre a inteligência americana, esse acidente não teria acontecido. E outro exemplo da descoordenação da inteligência na época é que outro projeto de balões super secretos para espionar os soviéticos foi vazado numa revista popular como uma explicação para OVNIs. Repórteres souberam desses balões antes do Projeto SIGN, que investigou OVNIs, e mesmo com dificuldades de coordenar informações de diferentes grupos do Estado americano, o Projeto SIGN avançou e começou a chegar nas primeiras conclusões oficiais sobre OVNIs.
[8:53]E segundo o próprio Projeto SIGN, parte dos OVNIs eram reais, representavam um fenômeno genuíno que não podia ser facilmente explicado e que não era alucinação ou confusão por parte dos observadores. E mais para o fim do ano de 1948, uma nova hipótese foi levantada pelo Projeto SIGN: a hipótese de que os OVNIs são naves vindas de fora da Terra. Os OVNIs são alienígenas. A hipótese da origem alienígena de OVNIs começa aqui. A reação a hipótese foi bem dramática. A ideia entraria no imaginário popular permanentemente. O Pentágono respondeu a essa proposta com uma carta que enfatizava que a origem de OVNIs era desconhecida, dizendo-nas entre linhas que a hipótese alienígena não tinha mérito. Tanto é que o relatório final da inteligência da Força Aérea de 1948, só inclui duas possibilidades para a origem dos OVNIs. Projetos de veículos novos e secretos, talvez de origem americana ou talvez de origem soviética. Só que internamente o Projeto SIGN se recusou a descartar qualquer hipótese que eles consideravam possíveis, incluindo a hipótese alienígena. E talvez até pela insistência na questão, o Projeto SIGN foi descontinuado e substituído por um novo projeto: o Projeto GRUDGE. Além disso, o relatório final do SIGN, no começo de 1949, que era secreto na época, não incluiu a hipótese alienígena. O Projeto GRUDGE, sucessor do Projeto SIGN, era extremamente antipático a qualquer nova hipótese sobre OVNIs, especialmente a hipótese alienígena. Ele parecia seguir uma diretiva de encontrar explicações naturais para todo e qualquer relato de OVNIs, e essa atitude chegou no seu extremo em 1950, quando a produção de relatórios públicos sobre OVNIs foi simplesmente congelada. Os relatórios eventualmente foram retomados pelo Projeto Blue Book, mas esse projeto manteve a atitude de achar explicações naturais para todo e qualquer relato, evitando ao máximo concluir que uma observação era um OVNI verdadeiro. Olhando de fora, parecia que a questão dos OVNIs estava resolvida, pelo menos para os militares, e ninguém se importava tanto assim com OVNIs. Mas a verdade é que a divergência de opiniões chegou ao seu ápice. A situação dos OVNIs era tão polêmica que não existiam duas opiniões divergentes, mas cinco opiniões diferentes defendidas por diferentes grupos dentro da Força Aérea, da Marinha e do Pentágono. A primeira opinião é que todos os OVNIs, objetos voadores não identificados, poderiam ser identificados com informações suficientes. Essa era a opinião de parte do alto comando da Força Aérea, e por conta disso, os esforços públicos de investigar OVNIs, como o Projeto GRUDGE e o Blue Book, replicaram essa opinião. Não tinha mistério, tudo poderia ser desvendado. E aqui vale notar que, mesmo com essa atitude, foi impossível de explicar todos os relatos e observações estranhas que esses projetos receberam. Outra opinião é que os OVNIs realmente representavam algum fenômeno novo e desconhecido, mas que esse fenômeno não representava uma ameaça aos Estados Unidos. Então a questão não deveria incomodar o exército e as Forças de Defesa americanas. Se não era perigo nacional, então era para deixar para os cientistas resolverem. E aqui vale notar que lealdade e obediência são muito mais valorizadas nas Forças Armadas do que curiosidade, o que pode explicar a tendência dos militares de não levarem a questão a sério. Dito isso, existia uma parcela de membros do exército que tinham experienciado OVNIs eles mesmos e que estavam bem menos dispostos a ignorar a questão. Além disso, o Pentágono e outros braços civis da inteligência americana também pareciam mais curiosos sobre a questão dos OVNIs do que a Força Aérea. As outras três opiniões sobre OVNIs eram de aceitar que eles eram importantes e que era preciso um esforço sério para investigar, mas elas discordavam na origem mais provável. As duas versões mais populares dessa ideia eram uma de origem soviética e de origem secreta do próprio país Estados Unidos, com a hipótese alienígena sendo a opinião menos popular, pelo menos de forma pública. E essa dissonância entre opiniões também era refletida na divisão dos esforços. Por um lado, os projetos Blue Book e GRUDGE descartavam publicamente a seriedade da questão, mas internamente, vários grupos de estudo menos públicos foram montados para investigar a questão. Por exemplo, Stephen Possony liderou uma investigação sobre a possível origem soviética de OVNIs na Europa no fim da década de 1940. E quando ele voltou aos Estados Unidos nos anos 50, ele voltou bem convencido de que nem todos os OVNIs eram de origem soviética. E ele passou a dirigir um grupo de estudos especial sobre a questão, que era desconectado dos esforços públicos da Força Aérea. A falta de organização e coesão na inteligência americana sobre OVNIs foi posta à teste em 1952, que foi um ano com um número extremamente alto de relatos de OVNIs. Essa onda de novos relatos culminou em um caso que fez com que o então presidente Truman pedisse pessoalmente à CIA que investigasse os OVNIs sob uma perspectiva de segurança nacional. Esse foi o Incidente de OVNIs de Washington de 1952. Durante duas semanas seguidas, vários objetos com comportamento estranho foram detectados por radares ao redor da capital dos Estados Unidos, com episódios de confirmação visual de luzes brilhantes e bolas de fogo estranhas no céu, coincidindo com a detecção dos radares. E esse evento pôs em cheque a negação pública da importância da questão por parte da Força Aérea. O governo americano precisava dar algum tipo de resposta pública sobre OVNIs. A população estava com medo, e as notícias de OVNIs circulavam no país. E por trás, nos bastidores, uma nova possibilidade para a origem dos OVNIs assustava a inteligência americana: a ideia de que OVNIs eram o começo de uma guerra psicológica dirigida pelos soviéticos, com o objetivo de minar a confiança dos americanos no seu próprio exército e no seu próprio governo. A principal evidência para isso, na época, é que enquanto os jornais do mundo afora reportavam OVNIs em 1952, nada sobre OVNIs saía na imprensa soviética, o que indicava a censura por parte do governo soviético. A ideia, então, era que a União Soviética estava criando essas observações de alguma forma para causar medo na população e reduzir a confiança dos militares nos seus sistemas de defesa, enquanto censurava a reportagem sobre isso internamente para se blindar desses efeitos. E só para deixar claro, nos anos seguintes essa hipótese foi perdendo força e se tornando cada vez menos provável. OVNIs eram um fenômeno global e também eram observados na União Soviética sem explicação aparente. Mas em 1952, a hipótese da guerra psicológica era séria o suficiente para fazer com que as lideranças do exército americano decidissem agir em torno dela. Então, depois do caso dos OVNIs de Washington de 1952, a atitude do exército sobre OVNIs passou a ter como foco primário minimizar o medo na população e blindar ela de algum tipo de ataque psicológico por parte dos soviéticos. Encontrar a verdade ou explicar a natureza dos OVNIs virou uma questão secundária para a Força Aérea. A prioridade imediata era abafar o medo e a curiosidade sobre OVNIs. Tanto é que nas conferências de imprensa sobre os eventos de Washington, o general Samford não só descartava a seriedade dos OVNIs, como ele ativamente zombava os repórteres que levavam a questão a sério. A estratégia de misturar silêncio e zombaria funcionou. Um estigma começou a surgir em torno da questão dos OVNIs. No fim da década de 1950, levar OVNIs a sério era bem mal visto, mas esse era o lado público da história. Internamente, o próprio presidente pediu para a CIA levar o assunto a sério, e o resultado desse pedido deixa bem clara a dissonância entre como a inteligência americana apresentava OVNIs para o público e como eles lidavam com o assunto internamente. Dois grupos de pesquisa foram criados pela CIA, um mais público, liderado por Ray Gordon, que partiu das informações coletadas pela Força Aérea e acabou replicando o discurso atual de que OVNIs não eram nada demais. E outro, mais discreto, que era liderado por um diretor assistente da CIA, Marshall Chadwell. Existem evidências e relatos de que os casos mais interessantes iam diretamente para o grupo do Chadwell, e não para os esforços mais públicos de investigar OVNIs. Mas os exatos esforços do grupo liderado pelo Chadwell não são transparentes. Chadwell mandou o seu primeiro relatório sobre OVNIs em setembro de 1952, um pouco depois do caso de Washington. E nesse documento, ele afirma que considera a opinião da Força Aérea de descartar OVNIs como sendo um fenômeno sério, como algo honesto por parte da Força Aérea, mas a honestidade deles está baseada em trabalho mal feito. Para Chadwell, a Força Aérea já tinha as suas conclusões antes mesmo de estudar a questão direito, e a negação de OVNIs como algo sério vinha das limitações da inteligência militar. E ele também indicou que o fenômeno parecia ser um fato global, com uma parcela de casos sendo realmente inexplicáveis até pelos mais céticos. A área estava cheia de estigma e preconceito, e o relatório é concluído afirmando que os OVNIs merecem uma investigação séria por partes competentes e sem estigma prévio. Dito isso, até onde nós sabemos, as sugestões de investigação mais a sério foram largamente descartadas. Qualquer esforço sério custaria dinheiro, e durante a Guerra Fria, todo dólar gasto em OVNIs era um dólar não gasto se preparando para uma possível guerra nuclear com os soviéticos. E esse é um bom resumo da história inicial de OVNIs em geral, uma questão polêmica que dividiu a inteligência americana internamente. O ponto mais crucial é justamente a dissonância entre como OVNIs eram apresentados para o público, de forma a criar um estigma e minimizar a questão, versus como OVNIs eram levados internamente, que era como uma questão que merece ser investigada. E eu vou ser sincero. Olhando para isso assim, dá uma vontade de conspirar um pouco, de sonhar que talvez algum projeto secreto, que ainda é secreto, descobriu muito mais do que veio a público. Então, vamos olhar um pouco para a ideia de uma conspiração que, de fato, guarda algum segredo sobre OVNIs. Sejam eles um projeto militar ultrassecreto, ou realmente de fora da Terra, ou qualquer outra coisa. Basicamente, nada no status quo de OVNIs mudou desde 1953. O assunto ainda é um tópico cheio de estigma. Às vezes, grupos privados investigam um pouco, ou então a questão volta ao interesse público, mas o assunto morre depois de algumas declarações genéricas pelo governo, por militares. O interesse público sobre a questão é, em geral, ridicularizado ou ignorado. Então, não é à toa que a ideia de que existe um segredo sendo ativamente escondido nessa história surgiu. A hipótese mais mundana é que OVNIs são um ou mais fenômenos naturais, ainda desconhecidos, que conseguem enganar radares e humanos. Mas se é só isso, então por que que OVNIs viraram um tabu? Porque nos anos 1950, a comunicação do exército americano transformou OVNIs em tabu, com medo de eles serem um ataque psicológico soviético. E desde então, ninguém teve a boa vontade de olhar a questão de forma séria e honesta. Essa, eu diria que é a versão menos conspiracionista possível de OVNIs e da relação do governo com OVNIs. Dito isso, existem indícios de que pelo menos alguns grupos dentro da inteligência americana investigaram OVNIs mais a sério por conta própria, como os grupos dirigidos por Possony e pelo Chadwell. Além disso, os militares americanos provavelmente mantiveram contato com alguns grupos privados que estudavam OVNIs durante os anos 50 e 60, e se algum desses grupos de estudo chegou a algum resultado, isso nunca veio a público. Então, aqui eu vou endossar um pouco as conspirações, até porque se nós quisermos olhar para o fenômeno de OVNIs do ponto de vista social, as conspirações são um grande aspecto deles. Se existe algum tipo de conspiração em torno de OVNIs, se existe algum segredo sendo guardado, ele está sendo muito bem guardado. Nenhuma evidência direta do segredo veio a público, tudo o que existem são relatos, e relatos que, muitas vezes, são inconsistentes entre si, ou que apontam coisas que não podem ser provadas, ou até relatos que incluem mentiras comprovadas. Tipo aqueles aliens americanos de algum tempo atrás. Então, se nós realmente temos um segredo aqui, ele é muito bem guardado, e para um segredo ser muito bem guardado, ele precisa ser guardado por poucas pessoas. Por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, Bletchley Park era um esforço de guerra secreto na Inglaterra, envolvendo 2.000 pessoas, e lá eles desvendaram o código de comunicação da máquina Enigma e meio que venceram a guerra no processo. Historicamente, esse foi um dos segredos mais bem guardados da história, e a Alemanha nunca descobriu que a criptografia deles foi quebrada. Mas repórteres ingleses, espiões soviéticos descobriram o que se passava por lá. 2.000 pessoas eram simplesmente pessoas demais para guardar um segredo complexo. Então, se tem algum segredo realmente sério sobre OVNIs, ele provavelmente é guardado por dezenas ou, no máximo, algumas centenas de pessoas. O segredo não poderia envolver nenhum órgão grande, como a NASA, e provavelmente não incluiria nenhum cargo com grande exposição pública, na verdade, como o Projeto Manhattan deixou claro, cientistas são péssimos em guardar segredos. Se você quer guardar o segredo bem guardado, você quer minimizar o número de cientistas envolvidos. Um detalhe importante é que os Estados Unidos tem mecanismos para criar projetos ultrassecretos com um número extremamente limitado de pessoas envolvidas. Esses são os chamados Special Access Program. Alguns desses programas não são nem informados ao presidente americano. E inclusive, o governo americano já teve vários debates sobre projetos secretos consumindo grandes quantidades de dinheiro com basicamente zero supervisão pública. E só para deixar claro, eu não estou afirmando que o governo americano sabe que OVNIs são aliens e estão escondendo isso de todo mundo. Mas existem mecanismos no governo americano para guardar um segredo bem sério. Inclusive, Richard Doty afirma ter espalhado boatos de aliens e OVNIs para encobrir testes de aviões secretos do governo americano, que é basicamente o oposto da conspiração usual. O relato dele não é especialmente confiável, mas esse é o ponto. Não dá para chegar a nenhuma conclusão do que exatamente o governo americano sabe ou não sabe, se baseando apenas em relatos de pessoas. E o mesmo vale para a relação que os outros governos têm com OVNIs. Talvez o principal argumento para a existência de algo a mais por trás dos OVNIs, seja o interesse de figuras públicas que não têm nada a ganhar insistindo na questão. E provavelmente o exemplo mais óbvio disso é o consultor político John Podesta, que trabalhou para vários presidentes americanos e foi chefe de gabinete da Casa Branca durante a presidência Obama. John Podesta afirma que a sua maior falha como chefe de gabinete foi não conseguir trazer o assunto de OVNIs mais à luz do dia. E ele frequentemente aponta o seu interesse pessoal em esclarecer o que o governo americano sabe sobre OVNIs. E para deixar claro, novamente, John Podesta é um cara que elege presidentes americanos como profissão. Ele não tem nada a ganhar por se associar com possíveis conspirações. Na verdade, esse interesse dele, provavelmente, mais atrapalha do que ajuda na carreira dele. E John Podesta não é o único. O interesse oficial e declarado em OVNIs parece ter ressurgido nos últimos anos. Até a Marinha americana, que tradicionalmente é bem reservada sobre essa questão, tornou mais simples reportar observações de OVNIs nos últimos anos. Não dá para garantir que os Estados Unidos estão guardando um segredo que vai mudar o mundo, mas também não dá para garantir que não. E esse é o problema apontado por figuras como Podesta. Falta transparência e coordenação na questão. E esse problema fica tão gritante que mesmo alguém que assumiu o cargo de chefe de gabinete da Casa Branca é incapaz de descobrir a verdade, ou se sequer existe uma verdade para ser descoberta. E isso nos leva ao Comitê de Estudos Independentes de UAPs da NASA de 2023. Para ser direto, o comitê concluiu que existe uma parcela bem real de OVNIs que são OVNIs verdadeiros, algo como 2%. Mas o que isso realmente significa é que eles não podem ser explicados por fenômenos conhecidos. Não é uma confirmação de que eles têm origem alienígena. O comitê da NASA tinha como objetivo avaliar o que que dá para saber sobre OVNIs a partir de fontes de informação que deixaram de ser secretas, e recomendar medidas para aprender mais sobre a questão. Basicamente, determinar quais são os problemas que limitam o conhecimento público sobre OVNIs e como nós podemos resolver essas limitações. E as limitações que o comitê da NASA apontou são de natureza social, burocrática e técnica. Do ponto de vista social, a existência do estigma sobre OVNIs serem besteira, dificulta tanto receber relatos quanto coletar dados, seja por experimentos ou pessoas com smartphones. E também dificulta encontrar cientistas dispostos a estudar a questão de forma séria. Nos anos 60, um dos astrônomos consultores do Blue Book fez uma pesquisa de opinião sobre OVNIs entre astrônomos, e descobriu que muitos astrônomos tinham interesse em investigar a questão, mas não admitiam isso em público por medo de serem ridicularizados. Cientistas com medo de investigar o desconhecido, por vergonha. Isso é uma falha muito grande na lógica da ciência. E não é à toa que esse é um dos principais pontos do relatório da NASA. É preciso mudar o estigma social sobre OVNIs e fenômenos estranhos para poder estudar eles. E do lado burocrático, existe um problema com dados sendo mantidos em segredo. A maior parte dos dados sobre OVNIs são obtidos por fontes militares, e são classificados como secretos. Isso não é, necessariamente, devido ao fato dos dados coletados serem super incríveis ou super importantes. A principal razão para quase tudo que os militares produzem ser secreto é que a maior parte dos dados é obtida por sensores com tecnologias secretas. Ou seja, se a câmera de um caça americano tirar a foto de um rato entrando num bueiro, essa foto vai ser secreta, mas não por causa do rato, e sim por causa da câmera ser secreta. Isso dificulta que outras nações desvendem as capacidades tecnológicas americanas e achem pontos fracos nelas. E dito isso, mesmo os dados disponíveis não costumam ser de muita qualidade, até porque eles são feitos de forma acidental, com equipamento que não foi calibrado para estudar OVNIs. E aqui entra a grande proposta da NASA, e que se for realizada, vai ser a primeira mudança de status quo sobre OVNIs em 70 anos. A NASA propôs métodos para estudar OVNIs como ciência de verdade. Isso significa pensar em sistemas de detecção dedicados a estudar OVNIs, com calibração pensada em OVNIs e de origem civil, o que significa que os dados gerados por esses detectores seriam abertos para todo mundo. E isso, basicamente, removeria a exclusividade do estudo de OVNIs de serviços militares e de inteligência, e iniciaria, basicamente, uma nova era do estudo de OVNIs, um estudo feito com os métodos, seriedade e rigor da ciência. Por exemplo, parte da ideia é estudar com radares, câmeras e detectores passivos, qual que é a cara usual de tráfego e fenômenos aéreos, para então criar uma base de dados de eventos não extraordinários, que seriam os OVINIs: objetos voadores identificados. Com essa base estabelecida, a ideia é usar sensores civis e passivos para detectar eventos extraordinários, eventos que estão fora da base de OVINIs, que seriam os OVNIs de verdade. Os sensores simples e baratos, então, ligariam sensores mais específicos e precisos, que seriam capazes de coletar informação intencional sobre OVNIs. Além disso, os dados coletados intencionalmente poderiam ser comparados com dados climáticos, dados de fontes como a aviação civil, ou até relatos vindos de pessoas que filmaram coisas estranhas no céu. Ou seja, uma tentativa honesta de estudar OVNIs como algo científico. Inclusive, métodos bem parecidos são usados para detectar partículas ou eventos raros em experimentos de física. Se a proposta do comitê for realmente seguida, OVNIs vão se tornar um tópico de pesquisa real e sério pela NASA, que é a agência melhor equipada para lidar com a questão em solo americano. E esse é o primeiro sinal de que a visão pública sobre OVNIs pode mudar em 70 anos. Se um dia tivermos a confirmação de que OVNIs realmente são de origem extraterrestre, essa seria uma notícia incrível e um dia fantástico para se estar vivo. Mas nós não podemos deixar as nossas vontades e inclinações naturais para assuntos incríveis que nós temos como humanidade entrar no caminho da verdade. Nós sabemos que a maior parte dos casos possuem explicações mundanas, mas nós precisamos levar o assunto a sério com muito rigor científico, se nós quisermos realmente verificar se os casos para os quais nós não temos respostas mundanas, são o mesmo de origem extraterrestre. Eu fico animado em saber que depois de quase 70 anos nós começamos a levar o assunto mais a sério, não porque eu pessoalmente ache que a explicação para esses fenômenos se encontra fora da Terra, mas porque eu quero saber a verdade, mesmo que ela seja decepcionante. E eu acho que essa é a principal característica que todos nós deveríamos ter em mente: coletar dados de maneira séria e científica, de maneira aberta e transparente, para só então nós tomarmos conclusões baseadas no que a humanidade faz de melhor, que é descobrir o desconhecido. Mas e você, em que lado da discussão você se encontra atualmente? Eu adoraria saber o que você pensa aqui nos comentários. Muito obrigado e até a próxima.



