[0:00]A morte é a única certeza que temos na vida. Mesmo assim ela é cercada de mistérios e mais perguntas que respostas. Um exemplo disso é o que acontece com o nosso cérebro na hora em que partimos dessa vida. Até poucos anos atrás, não existiam muitos trabalhos científicos sobre o tema. Mas isso está mudando. Descobertas publicadas nos últimos anos vão na contramão do que se acreditava sobre o assunto. E até abrem caminhos para encontrar explicações mais sólidas para as famosas experiências de quase morte. Sou o André Biernath, da BBC News Brasil. Neste vídeo te explico o que acontece no cérebro quando morremos, segundo as últimas evidências. Bom, esse campo de pesquisas ganhou um novo fôlego com os trabalhos da neurocientista Jimo Borjigin, nos Estados Unidos. Numa entrevista para o serviço em espanhol da BBC, ela disse que se interessou pelo assunto quase sem querer, enquanto fazia experimentos com ratos de laboratório. Durante essas pesquisas, dois animais morreram e ela pôde observar que no momento da morte, um dos ratinhos apresentou uma secreção massiva de serotonina, um neurotransmissor relacionado ao bem-estar. Isso gerou uma curiosidade na professora Dimu, que resolveu observar como esse processo acontecia em detalhes. Em 2013, ela publicou uma nova pesquisa com ratos que sofreram uma parada cardíaca. Nessas situações, quando o coração para de bater, a circulação de sangue é interrompida e as células de todo o corpo deixam de receber nutrientes e oxigênio, que são vitais para elas funcionarem direito. Sem esse suprimento, elas morrem, e os tecidos e os órgãos deixam de operar até que desliguem completamente. Mas o que acontece nesse intervalo entre o coração parar e os neurônios morrerem pela falta de oxigênio? Os estudos da professora Dimu mostraram que ocorre uma intensa atividade de vários neurotransmissores, que são substâncias responsáveis pela comunicação cerebral. Nos ratinhos de laboratório, a serotonina, por exemplo, aumentou 60 vezes. A dopamina, outra substância relacionada ao bem-estar, subiu de 40 a 60 vezes. Segundo a neurocientista, em vestãos altos nunca são vistos, nem quando o animal está vivo e bem de saúde. Em 2023, a equipe da Universidade de Michigan deu um passo além. Eles publicaram um estudo sobre o que acontece no cérebro de seres humanos na hora da morte. Para isso, eles acompanharam quatro pessoas que estavam em coma e recebiam ventilação mecânica para respirar. Infelizmente, esses pacientes estavam morrendo, e tanto médicos quanto familiares chegaram à conclusão de que não havia mais nenhum procedimento disponível para salvá-los. Com a permissão da família, os tubos de ventilação mecânica foram retirados desses pacientes. Ah, detalhe importante, todos eles estavam com eletrodos na cabeça para medir a atividade cerebral durante esse processo que culminaria na morte. E o resultado dos exames surpreendeu até os especialistas. Até então, acreditava-se que o cérebro em hipóxia, ou seja, sem o oxigênio necessário para funcionar, reduziria sua atividade até desligar completamente. Mas o que acontecia na cabeça de dois dos pacientes em estado terminal foi justamente o contrário. O exame de eletroencefalograma captou uma alta atividade cerebral relacionadas às funções cognitivas. Poucos segundos após o desligamento dos respiradores, os cientistas detectaram uma alta atividade de ondas gama, as ondas cerebrais mais rápidas, que estão envolvidas no processamento de informações e de memórias. Ao contrário dos ratos, em que a atividade cerebral foi generalizada, nos seres humanos algumas partes específicas da cabeça mostraram uma atividade mais elevada. Uma das áreas que ficou mais ativa é conhecida como junção temporoparieto-occipital, ou TPO. Falamos aqui de um ponto de fronteira ou junção de três partes importantes do sistema nervoso. Segundo a professora Dimu, essa estrutura é responsável pela percepção dos sentidos, está associada à consciência, aos sonhos e às alucinações visuais. Alguns trabalhos também vinculam essa região à empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro. Outra região que se destacou nos estudos foi a chamada área de Wernicke. Ela fica perto dos nossos ouvidos e parece ter importância em quesitos como linguagem, fala, audição e memória. Mas nós precisamos fazer algumas ponderações aqui. Primeiro, esse é um estudo inicial com apenas quatro participantes. A partir dessas observações preliminares, os cientistas poderão fazer estudos aprofundados com mais voluntários para avançar o conhecimento nessa área. Em segundo lugar, parece que nem todo mundo experimenta esse aumento de atividade cerebral no momento da morte. Nesse estudo da Universidade de Michigan, o fenômeno foi visto em apenas dois dos quatro participantes. Mas esse achado se conecta com outro fenômeno intrigante: as experiências de quase morte. Você certamente já ouviu histórias de pessoas que tiveram uma parada cardíaca e foram ressuscitadas. Algumas delas relatam que, nesse meio tempo, em que o coração parou de bater, elas experimentam uma série de sensações. Alguns dizem que ouviram a voz da equipe que prestou os primeiros socorros. Outros sentem que saíram do corpo e veem a cena de cima, de outra perspectiva. E aqueles que enxergam uma luz no fim de um túnel, enquanto repassam as memórias da vida. Segundo levantamentos internacionais, esses fenômenos acontecem com cerca de 20% das pessoas que estiveram à beira da morte. Mas será que aquele cérebro hiperativo que foi detectado nos estudos da Universidade de Michigan poderia explicar isso? A professora Dimu acredita que sim. A neurocientista defende que essas experiências extracorpóreas se passam, na verdade, dentro da cabeça das pessoas. Ela destaca o que aconteceu no cérebro daqueles dois pacientes da pesquisa. Neles, regiões relacionadas à visão e à memória ficaram muito ativadas, o que poderia, teoricamente, explicar uma vivência visual e sensorial parecida à experiência de quase morte. É claro que não é possível confirmar com 100% de certeza se esses dois indivíduos tiveram de fato essa experiência, já que infelizmente eles morreram antes que pudessem relatar o que sentiram nesses momentos finais. Bom, enquanto as pesquisas sobre a hora da morte evoluem, a professora Dimu especula que essa hiperativação do cérebro pode representar uma espécie de mecanismo de sobrevivência num cenário de falta de oxigênio. Seria algo mais ou menos comparável à hibernação realizada por alguns mamíferos. Um mecanismo que deixa o corpo num estado de profunda dormência para lidar com a escassez. Aqui, no caso da hibernação, falamos de frio intenso e falta de alimentos durante o período do ano. Seguindo essa linha de raciocínio, a neurocientista acredita que ratos e humanos podem compartilhar uma forma de tentar sobreviver à falta de oxigênio. Nesse cenário ainda hipotético, é como se o cérebro desligasse todas as funções não essenciais, como aquelas que permitem falar, dançar ou se locomover. E mantém só o mais importante, como tentar retomar a respiração, usar com prudência a reserva de oxigênio disponível e fazer o coração voltar a bater. Isso, aliás, abre uma possibilidade futura. Será que é possível ressuscitar ou reviver um cérebro moribundo? Sei que isso parece ficção científica ou capítulo de Frankenstein, mas alguns cientistas avaliam essa possibilidade. Uma pesquisa da Universidade Yale, por exemplo, conseguiu restaurar a circulação sanguínea e a atividade de algumas células em cérebros de porcos que haviam morrido havia 4 horas. Infelizmente não foi possível restabelecer a atividade elétrica do sistema nervoso que está associada à percepção e à consciência. Segundo os autores, essa conquista, mesmo que modesta e muito inicial, desafia a noção de que a morte cerebral é absolutamente irreversível. Bom, com isso eu fico por aqui. Espero que você tenha curtido esse vídeo. Você tem outras dúvidas e curiosidades sobre a morte? Deixa aqui nos comentários que a gente fica de olho. Um abraço e até a próxima.

As descobertas sobre o que se passa no cérebro enquanto morremos
BBC News Brasil
7m 29s1,258 words~7 min read
AI audio transcription
Transcript source
AI audio transcription
This transcript was generated from the video's audio because no usable YouTube caption track was available. The transcript below is server-rendered so it can be read, searched, cited, and shared without opening the original YouTube player.
Pull quotes
[0:00]Um exemplo disso é o que acontece com o nosso cérebro na hora em que partimos dessa vida.
[0:00]Descobertas publicadas nos últimos anos vão na contramão do que se acreditava sobre o assunto.
[0:00]E até abrem caminhos para encontrar explicações mais sólidas para as famosas experiências de quase morte.
[0:00]Neste vídeo te explico o que acontece no cérebro quando morremos, segundo as últimas evidências.
Use this transcript
Related transcript hubs
Watch on YouTube
Share
MORE TRANSCRIPTS


