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Auto da Lusitânia

Carmen Costa

4m 1s300 words~2 min read
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[0:23]Mil cousas ando a buscar; delas não posso achar, porém ando porfiando, por quão bom é porfiar. Como hás nome, cavaleiro? Eu hei nome todo o mundo, e meu tempo todo inteiro sempre é buscar dinheiro, e sempre nisto me fundo. Eu hei nome Ninguém, e busco a consciência.

[0:51]Esta é boa experiência. Dinato, escreve isto bem. Que escreverei, companheiro? Que ninguém busca consciência, e todo o mundo dinheiro.

[1:11]E agora, que buscas lá? Busco honra, muito grande. E eu virtude que Deus mande, que tope com ela já.

[1:22]Outra adição nos acude. Escreve logo aí, a fundo, que busca honra todo o mundo, e ninguém busca virtude.

[1:38]Buscas outro mor bem que esse? Busco mais quem me louvasse tudo quanto eu fizesse. E eu quem me repreendesse, em cada cousa que errasse. Escreve mais. Que tens sabido? Que quer em extremo grau todo o mundo ser louvado, e ninguém ser repreendido.

[2:08]Buscas mais, amigo meu? Busco a vida a quem ma dê. A vida não sei que é, a morte conheço eu.

[2:22]Escreve lá outra sorte. Que sorte? Muito garrida.

[2:33]Todo o mundo busca a vida, e ninguém conhece a morte.

[2:44]E mais queria o Paraíso, sem mo ninguém estorvar. E eu ponho-me a pagar quanto devo para isso. Escreve com muito aviso. Que escreverei? Escreve que todo o mundo quer Paraíso, e ninguém paga o que deve. Folgo muito d'enganar, e mentir nasceu comigo. Eu sempre a verdade digo, sem nunca me desviar. Ora, escreve lá, compadre, não sejas tu preguiçoso. Não quê? Que todo o mundo é mentiroso, e ninguém diz a verdade. Que mais buscas? Lisonjear. Eu sou todo desengano. Escreve, anda lá, mano. Que me mandas assentar? Põe aí muito declarado, não te fique no tinteiro, que todo o mundo é lisonjeiro, e ninguém desenganado.

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