[0:09]Amor. Uma das palavras mais bonitas caídas do céu, mas por vezes muito maltratada, ou pelo menos bastante abusada. Ah, é uma palavra muito vasta, porque pode significar imensas relações, imensas formas de amor diferentes. Assim falamos do, do amor conjugal, mas falamos também do amor da mãe pelo filho, do pai pelo filho, ou do filho pela mãe. Falamos do amor ao sem-abrigo, ao pedinte. Falamos de amar a Deus sobre todas as coisas. Falamos de amar a nossa pátria, enfim, é uma palavra que utilizamos para tipos de relação muitíssimo diferentes. Mas o que é que é? Olha, para Jesus é tudo. Perguntaram-lhe uma vez qual é que é o primeiro mandamento, o que significava qual é que é a coisa mais importante de todas as coisas que temos que fazer na vida. E Jesus disse: "Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento. E amarás o próximo como a ti mesmo." E Jesus diz: "Tudo está resumido aqui." Que depois sintetizamos na nossa tradição cristã, amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a nós mesmos. Amar é tudo. Santo Agostinho escreveu: "Ama e faz o que quiseres." Ama com o verdadeiro amor de Cristo. Mas o que é que é, o que é que é o amor? Na filosofia grega há três palavras que traduzimos para português por amor. Estas três palavras, algumas pessoas pensam que são três formas de amor, mas parece-me que são sobretudo três componentes, três ingredientes do amor. A filosofia grega fala de filia, donde vem depois amizade, que é o amor de, de igual para igual, o amor do, do companheiro, o amor de dois amigos que enquanto tem um interesse em comum, se apoiam mutuamente. Outra palavra, ah, traduzida por amor também para português, é a palavra Eros, donde vem erotismo, erótico. Não é necessariamente, não tem necessariamente a ver com sexualidade, tem a ver com aquele lado impulsionador, não decidido, não racional, que me faz buscar no outro, digamos, a, a metade que me falta, o lado que me falta. A filosofia grega tem uma outra palavra, que é a palavra ágape, traduzida para latim por Caritas e para português muitas vezes por caridade, que é o amor generoso, oblativo, o amor de quem, que só quer o bem do outro. Ah, podem dizer, mas então este amor tem interesse ou não tem interesse? Ou seja, é interessado ou não é interessado. Faz lembrar aquela história dos dois amigos que se encontraram e um perguntou ao outro: "Então, já sei que vais casar, vais casar com uma mulher muito rica." Diz-me lá, vais casar por amor ou por interesse? E ele pensou, pensou e disse: "Bem, deve ser por amor porque o interesse nela não tenho nenhum." O que é que significa? Então o amor é interessado ou não é interessado? Não é interessado, não é interessado no que eu possa obter da outra pessoa, esta forma de amor, mas é profundamente interessado no bem da outra pessoa, no brilho dos olhos da outra pessoa, na alegria que tenho de ver a outra pessoa melhor, dela ficar de facto melhor. Filia, Eros e Ágape são três componentes do amor que depois entrarão em relações diferentes, as três ou uma ou duas, conforme o tipo de relação. Reparem, a, por exemplo, a, uma relação do amor conjugal terá certamente Eros, terá filia, companheirismo entre os dois e terá ágape, o querer o bem do outro. A relação com o sem-abrigo, se calhar, tem sobretudo ágape. É uma relação de mais gratuita, mais oblativa, mais de interessada simplesmente no, no bem do outro. Hum, estas três componentes são muito importantes. Em qualquer forma de amor, em qualquer tipo de relação. Mas para uma relação se puder chamar amor, tem que ter ágape.
[4:24]Ou seja, tem que ter o bem do outro. E este, digamos, seria o denominador comum de todas as relações que pomos sobre esta palavra, amor. Se eu não quiser o bem da outra pessoa, seja a relação da mãe com o filho, seja a relação, a nossa relação com Deus, seja a nossa relação com o amigo, seja a nossa relação com o parceiro, a, conjugal, se não quiser o bem do outro, não posso chamar amor. Posso chamar paixão, posso chamar química, posso chamar ambiente, posso chamar imensas coisas, ou então serviço social, mas não propriamente amor. Então, o que é que é, o que é que é o amor? Ou o que é que é amar? Se quiserem uma definição, amar é querer o bem da pessoa que se ama. Claro que formas diferentes de amor terão muitas outras componentes para além do querer o bem, mas na sua essência, amar é querer o bem da pessoa que se ama. E reparem, em qualquer tipo de relação há alturas em que fica só isto. Fica só a decisão, fica: eu estou aqui para ti. Evidente, no amor conjugal, não pode ser só isso a longo prazo, mas mesmo neste amor, nalgumas formas, e, fica só a decisão. Por isso, no Novo Testamento, quando se define Deus, naquela frase máxima e simples, onde se diz: "Deus é amor." A palavra que lá vem em grego é ágape. Deus é ágape. Deus olha para nós e a única coisa que quer é o nosso bem, é a nossa felicidade. Eu disse que amar é querer o bem do outro, mas podem dizer: "Mas então amar não era um sentimento?" Afinal é uma decisão, é uma opção. Evidente, o amor envolve imensos sentimentos. A, mas às vezes envolve sentimentos contraditórios, mesmo o amor conjugal, a, sentimento de paixão, sentimento de elevação, de êxtase, ou às vezes também sentimento de competição, às vezes uma certa irritação, às vezes, envolve imensos sentimentos. Mas ultimamente é uma opção e temos que, por isso, distinguir a palavra amar da palavra gostar. Em português temos estas duas palavras e é muito útil a, sabermos a, sabermos usá-las. Porque de facto gostar é um sentimento.
[6:49]Gostar é uma palavra de alguma maneira muito mais superficial que amar. Por isso, a, muitas vezes namorados, a, ela insiste, diz que me amas, e ele diz: "Gosto muito de ti." Ela, não, não disseste, não disseste. Não é gosto muito de ti, é, diz ama-me. É uma palavra que custa, porquê? Porque é muito mais funda. Amar, a, vem do fundo, de uma grande opção de fundo, gostar é mais superficial e gostar sim fica ao nível dos sentimentos. Por isso é que Jesus nos manda amar os inimigos e não nos manda gostar dos inimigos, que seria impossível em muitas situações, eu gostar de uma pessoa que me fez bem, ou que fez bem, ou que me fez mal, ou que fez mal a alguém muito, muito próximo. O que é que estamos a fazer aqui na terra? A aprender a amar. Estamos aqui para aprender a amar e um dia podemos viver só de amor no céu. Por isso, à volta desta palavra, ah, que cada um de nós deve levar a sério, devemos pensar neste momento, quais são os meus desafios na minha capacidade de amar?



