Thumbnail for Peça teatral - Jeca Tatu: Urupês Monteiro Lobato by Yasmin Mendes

Peça teatral - Jeca Tatu: Urupês Monteiro Lobato

Yasmin Mendes

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[0:00]1917 até hoje, como o renascimento de Narizinho, Emília no país da gramática, histórias de Dona Anastácia.
[0:00]Vivia na maior pobreza, em companhia de seu cachorro muito magro e seus bichos pálidos e tristes.
[0:00]Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarros de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma.
[0:00]Não amava caçar, tirar palmitos, cortar cachos de uva, mas não tinha ideia de plantar um pé de couve atrás da casa.
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[0:00]1917 até hoje, como o renascimento de Narizinho, Emília no país da gramática, histórias de Dona Anastácia. Um dos seus personagens mais conhecidos é o Jeca Tatu da obra Oroubeiro. Jeca Tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza, em companhia de seu cachorro muito magro e seus bichos pálidos e tristes. Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarros de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma. Não amava caçar, tirar palmitos, cortar cachos de uva, mas não tinha ideia de plantar um pé de couve atrás da casa. Perto um ribeirão onde ele pescava, de vez em quando, uns lambaris e um tubagra. E assim ia vivendo. Dava pena ver a miséria do casebre. Nem móveis, nem roupas, nem nada que significasse comodidade. Um banquinho, umas peneiras furadas, umas panelas velhas, a espingardinha de carregar pela boca, muito ordinária e só. Todos que passavam por ali murmuravam.

[0:59]Jeca Tatu era tão fraco que quando ia lenhar, vinha com um fechinho que parecia brincadeira. E vinha arcado como se estivesse carregando um enorme peso.

[1:17]Por que não traz de uma vez um feixe grande? Perguntava-lhe um dia. Jeca Tatu, com a sua barbicha rala e respondeu: Não vale a pena. Tudo para ele não valia a pena, não pagava a pena consertar a casa, nem fazer uma horta, nem plantar árvores de fruta, nem remendar roupa. Só valia a pena beber pinga.

[1:40]Por que você bebe, Jeca? Bebe para esquecer. Esquecer o quê? Esquecer as prosas da vida. E os passantes murmuravam. Jeca possuía muitos alqueires de terra, mas não sabia aproveitá-las. Plantava todos os anos uma rocinha de milho, outra de feijão, uns pés de abóbora e mais nada.

[2:05]Criava em redor da casa um ou outro porquinho e meia dúzia de galinhas, mas o porco e as aves ficavam sem a vida, porque Jeca não lhes dava o que comer. Por esse motivo, o porquinho nunca engordava e as galinhas punham poucos ovos. Jeca possuía ainda um cachorro, o Brinquinho, magro e sarnento, mas bom companheiro e leal amigo. Brinquinho vivia cheio de vermes no lombo e muito sofria com isso, pois apesar dos ganidos do cachorro, Jeca não se lembrava de lhe tirar os vermes. Por que? Desânimo, preguiça. As pessoas que viam aquilo franziam o nariz.

[2:41]Que criatura na escala? Não põe nem menos para ver o verme de um canel. Jeca só queria beber pinga e espichasse ao sol no terreiro. Ali ficava horas com o cachorrinho rente cochilando, a vida que rodasse, o mato que crescesse na roça, a casa que caísse. Jeca não queria saber de nada, trabalhar não era com ele. Perto morava um italiano já bastante arranjado, mas que ainda assim trabalhava o dia inteiro. Por que Jeca não fazia o mesmo? Quando lhe perguntavam isso, ele dizia: Mentira, meu filho. Não vale a pena plantar, é que a formiga come tudo. A formiga come tudo, e o vizinho italiano não tem formiga na casa? Aquele mata.

[3:25]Por que você não faz o mesmo? Jeca coçava a cabeça, cuspia por entre os dentes e vinha sempre com a mesma história. Ah, não vale a pena. Além de preguiçoso, bêbado. Um dia, um doutor Portolá por causa da chuva e espantou-se de tanta miséria. Vendo o caboclo tão amarelo e chucro, resolveu examiná-lo. Amigo, Jeca, que você está doente. Pode ser, sinto uma canseira sem fim, com dor de cabeça e com dor aqui no peito que responde na tatuca. Isso mesmo, você sofre de canseira nas panetas. Aqui o que? Sofre de amarelon, entende? Um tipo de doença que se contrai com muita fomaleta. A maleta aparecida pela arrea que fala assim no pé dela, pois há um pé que se mete entre as orres e se esconde, e um muito só, entende? Você tem outra coisa, amarelon. O doutor receitou-se um remédio adequado, depois disse: Tome esse remédio e nunca mais vai ter moléstias. Você ouviu? Ouvi sim, senhor. Pois é isso. Pois é isso, rematou o doutor tomando o chapéu. A custou mais o dinheiro, que um nunca mais vai ter moléstias. É para a calça dos caboclos que tem moléstias. É para ir no bolso. O doutor Jeca ficou cismado, não acreditava muito nas palavras da ciência, mas por fim resolveu comprar os remédios e também o par de botinas rechiadeira. Nos primeiros dias pinhou o rolo, ele andava pisando em ovos, mas acostumou-se afinal. Quando o doutor reapareceu, Jeca estava bem melhor. Graças ao remédio tomado, o doutor mostrou-lhe com a lente o que tinha saído das suas tripas. Veres, são vermes que o caipira tremendo faz que criou na sua pele, vermes que se instalam pelas tripas, vão varando a carne até alcançar o sangue. Chegando lá, tudo se anuncia por sangas dos veigueiros.

[5:22]Jeca abriu a boca, maravilhado. Grande igualmente, senhor doutor. Mas Jeca não podia acreditar numa coisa, que os bichinhos entravam pelo pé.

[5:33]Ele era positivo dos taques que só vento. O doutor resolveu abrir-lhe os olhos, levou-o a um lugar úmido atrás da casa e disse: Tira a botina e enfia o pé no por aí, Jeca obedeceu. Agora venha cá, sente-se de cócoras e olhe para o chão com a lente e com a outra. Jeca tomou a lente, olhou e percebeu vários vermes pequeninos que já estavam penetrando na sua pele, através dos poros. O pobre homem arregalou os olhos assombrado. Não é que é mesmo? Que haverá de fazer? Pois é isso, seu Jeca. Daqui para diante, não se esqueça de usar as botinas. Disconforme, e pigo então. Nem para ele. Tudo que o doutor disse aconteceu direitinho. Três meses depois, ninguém mais conhecia o Jeca. A preguiça desapareceu. Quando ele agarrava no machado, as árvores tremiam de pavor. Era pan pan, horas seguidas, se os maus paus não tinham remédio, se não caíam. Jeca cheio de coragem botou abaixo um capoeirão para fazer uma roça de três alqueires. E plantou eucaliptos na terra que não se prestavam para a cultura e consertou todos os buracos da casa e fez um chiqueiro para os porcos e um galinheiro para as aves. O homem não parava, vivia a trabalhar com fúria que espantou até seu vizinho italiano.

[6:58]Jeca? Respondia ele se largar do machado. Quero tirar a roça de um italiano. Jeca, quero o medroso, virou valente, não tinha mais medo de nada, nem de onça. Conheceu o Papuda. Você pensa então que está lidando com algum pinguço pilado? Fique sabendo que tomei remédio do bom e uso botina rechiadeira. Ele, que antigamente só trazia três pauzinhos, carregava agora cada feixe de lenha que metia medo. E carregava sorrindo, como se o enorme peso não passasse de brincadeira. Mas que Jeca, não sei o que você arrebentou. Diziam-lhe: Hoje já conseguiu carregar tanto pau de uma vez? Já não sou aquele fraco, se minha hora é carne. Respondeu o caboclo sorrindo. Quando teve de aumentar a casa, foi a mesma coisa. Derrubou no mato grossas perobas, atorroas, lavroas e trouxe no muqui para o terreiro das toras todas sozinho. Quero mostrar esta gente, quanto vale um caboclo que está a tomar um remedinho à ciência e que usa botina regideira e não vale um só martelinho de cachaça. O italiano via aquilo e coçava a cabeça.

[9:10]Por esse tempo, o doutor passou por lá e ficou admiradíssimo da transformação do seu doente. Esperava que ele sarasse, mas não contava com tal mudança. Jeca o recebeu de braços abertos e toda a gente ali calçada, o caboclo ficava com tanta fé no calçado que meteram as botinas até nos pés dos animais caseiros: galinhas, patos, porcos, tudo de sapatinho nos pés. O galo andava de bota e espora, pensei, mas que desenho para esta caipira toda. Em pouco tempo os resultados foram maravilhosos. A porta aumentou de tal modo que vinha gente de longe admira aquilo.

[9:54]Jeca adquiriu um caminhão Ford e em vez de conduzir os porcos ao mercado pelo sistema antigo, levava os de alto, num instantinho, buzinando pela estrada fora. Jeca parecia um doido, só pensava em melhoramentos, progressos, coisas americanas. Aprendia logo a ler e tinha a casa de livros. O Jeca só falava inglês agora. Não diz porco, é pig, não diz galinha, é é. Mas de álcool nada, antes que ver o demônio do que um copinho da pinga. Que viu e quem vê, nem parece o mesmo, está um estranjo. Legítima até na fala, o homem é mágico, diziam os vizinhos. Quando a gente na fala uma coisa, faz mesmo nem que seja um despropósito. Ficou rico estimado, como era natural, mas não parou aí, resolveu ensinar o caminho da saúde às caipiras das redondezas. Para isso, montou na fazenda em vilas próximas vários postos de maleita onde tratava os enfermos de sezões. E também poços de anquilosos, onde curava os doentes de amarelão e outras doenças causadas por bichinhos nas tripas. Um país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela quantidade da sua gente, que saúde é a grande qualidade de um povo, tudo mais vem daí. Não

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