[0:00]Depoimento de Dulce Pandolfi às Comissões Nacional e Estadual. Rio de Janeiro, 28 de maio de 2013. aquela noite do dia 20 de agosto de 1970, no momento em que entrei no quartel da Polícia do Exército, situado na Rua Barão de Mesquita, número 425, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, ouvi uma frase que até hoje ecoa forte nos meus ouvidos. Aspas. Aqui não existe Deus, nem pátria, nem família. Só existe nós e vocês e você. Fecha aspas. Era naquele quartel que funcionava o DOI-Codi. Uma junção de torturadores da área civil militar. O prédio que tinha dois andares, o prédio tinha dois andares. Diferentemente do que muitos dizem, aquele lugar não era um porão da ditadura, um local clandestino. Embora ali não existisse nem Deus, nem pátria, nem família, eu estava em uma dependência oficial do Exército Brasileiro. Uma instituição que funcionava a todo vapor, com todos os seus rituais, seus símbolos, seus hinos, sua rotina. Ali fiquei praticamente três meses. No térreo, tinha sala de tortura, com as paredes pintadas de roxo e devidamente equipada. Tinha outras salas de interrogatório, com material de escritório, essas, às vezes, usadas também para torturar, e algumas celas mínimas, chamadas solitárias imundas, onde não havia nem colchão. Nos interval, aliás, vários aqui dos presentes passaram por essas celas e essa sala, né? Nos intervalos das sessões de tortura, os presos eram jogados ali. No segundo andar do prédio, havia algumas celas pequenas e duas bem maiores, essas com banheiro e diversas camas beliches. Numa dessas foi numa dessas celas que passei a maior parte do tempo. Uma noite que eu não sei precisar quando, desci para a sala roxa para ser acareada com militante também da LNM, Eduardo Leite.
[2:46]Conhecido como Bacuri. Lembro até hoje dos seus olhos, da sua respiração ofegante,
[3:01]e do seu caminhar muito lento, quase arrastado, como se tivesse perdido o controle das pernas.
[3:16]Num tom sarcástico, o doutorador dizia para nós dois, na presença de outros torturadores: “Viram o que fizeram com o rapaz? Essa turma do Semimar é totalmente incompetente. Deixaram o rapaz nesse estado, não arrancaram nada dele e ainda prejudicaram o nosso trabalho.” Fecha aspas. No dia 8 de dezembro daquele ano, mataram o Bacuri. No dia 20 de outubro, dois meses depois da minha prisão, e já dividindo a cela com outras presas, servi de cobaia para uma aula de tortura. O professor, diante dos seus alunos, fazia demonstrações com o meu corpo. Eram uma espécie de aula prática com algumas dicas teóricas. Enquanto eu levava choques elétricos pendurada no tal do pau de arara, ouvi o professor dizer: “Essa é a técnica mais eficaz.” Fecha aspas. Acho que o professor tinha razão. Quando eu comecei a passar muito mal, a aula foi interrompida e fui levada para a cela. Alguns minutos depois, vários oficiais entraram na cela e pediram para o médico medir minha pressão. As meninas gritavam, imploravam, tentando em vão impedir que a aula continuasse. A resposta do médico Amílcar Lobo, diante dos torturadores e diante de todas nós, foi: “Ela ainda aguenta.” Fecha aspas. E de fato, a aula continuou. A segunda parte da aula foi num pátio, o mesmo onde os soldados diariamente faziam o juramento à bandeira e cantavam o hino nacional. Ali fiquei um bom tempo amarrada num poste, com tal do capuz preto na cabeça. Fizeram um pouco de tudo. No final, avisaram que como eu era irrecuperável, eles iriam me matar, que eu ia virar um presunto, um termo usado na época pelos esquadrões da morte. Ali simularam o meu fuzilamento.
[5:38]Levantaram rapidamente o capuz, me mostraram o revólver apenas com uma bala e ficaram brincando de roleta russa. Imagino que os alunos se revezavam no manejo do revólver, porque a brincadeira foi repetida várias vezes. Eu acuso o Major da Polícia Militar Riscala Corbage, conhecido como Doutor Najibe, que ao perceber que o tal soro da verdade não havia produzido o efeito esperado, me levou para uma pequena sala, me deitou no chão, subiu nas minhas costas, começou a me pisotear e a me bater com o cacete, dizendo aos gritos que ia me socar até a morte. O seu descontrole foi tamanho e os seus gritos tão estridentes que os outros torturadores entraram na cela, na sala, e arrancaram ele de cima de mim. Eu acuso o Major do Exército, João Câmara Gomes Carneiro, conhecido como Magafa, que em uma daquelas noites, dia depois de eu ter saído do soro, me deixou durante algumas horas em pé, com o capuz na cabeça e os fios amarrados nos meus dedos. Para mim, aquele foi um tempo infinito. A despeito de ser aquela uma noite muito fria, quando eu voltei pra cela, minha roupa estava totalmente molhada, colada no meu corpo, de tanto que eu havia transpirado de medo. Eu acuso o médico Amílcar Lobo, que fez uso dos seus conhecimentos médicos para auxiliar no esquema da tortura de todos nós. Um dia, diante do nosso clamor para que ele para que ele tentasse impedir que Maria do Carro Menezes, grávida de 5 meses, continuasse sendo torturada, ele nos respondeu: “Comunista não pode engravidar.” Fecha aspas. Eu acuso o Cabo Gil, um dos responsáveis pela infraestrutura do quartel da PE. O seu sadismo era sem fim.
[7:53]Ouço até hoje o barulho forte das suas chaves quando ele abria e entrava na nossa cela, com o capuz na mão, fazendo gracejos. Propositadamente, ele demorava um tempo e como se estivesse fazendo um sorteio, dizia: “Acho que agora é sua vez.” Descia as escadas de olhos vendados, guiadas por ele, era um verdadeiro horror. Sempre inventava mais degraus ou colocava o pé na frente para nós tropeçarmos. Eu acuso o agente da Polícia Federal Luís Timóteo de Lima, conhecido como Padre, que me deu muito choque elétrico. Eu acuso o coronel da reserva Paulo Malhães, que em recente entrevista ao Jornal O Globo, no dia 26 de agosto de 2012, afirmou que em 1970, trouxe do Rio Araguaia cinco jacarés e levou para o quartel da PE, na Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, para atemorizar os presos políticos. Uma delas fui eu. Eu acuso os presidentes da República, Humberto de Alencar Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo. A despeito das divergências entre eles e das diferentes conjunturas em que chefiaram o país, todos, sem exceção, foram responsáveis e coniventes com a tortura. Finalmente, eu acuso o regime ditatorial implantado no Brasil em 1964, que fez da tortura uma política de Estado. Muito obrigado.
[9:47]A tortura é uma prática da ditadura e nós sabíamos disso pelo relato dos que tinham sido presos. Mas nenhuma descrição seria comparável ao que eu vim a enfrentar. Não porque tenha sido mais torturada do que os outros, mas porque eu acho que o horror é indescritível. Quando cheguei no DOI-Codi, não sabia onde estava, só fui descobrir mais tarde que era o quartel do Exército localizado na Rua Barão de Mesquita que existe até hoje. Rapidamente me levaram para a sala de tortura. Fiquei nua, mas não me lembro que uma roupa foi tirada. A brutalidade do que se passa a partir daí confunde um pouco a minha memória. Lembro como se fossem flashes, sem nenhuma continuidade. De um momento para o outro eu estava nua apanhando no chão. Logo em seguida me levantaram no pau de arara e começaram com os choques. Amarraram a ponta de um dos fios no dedo do meu pé, enquanto a outra ficava passeando, nos seios, na vagina, na boca. Quando começaram a jogar água, eu estava desesperada e achei no primeiro momento que era para aliviar a dor. Quase agradeci. Logo em seguida os choques começavam muito mais fortes. Percebi que a água era para aumentar a força dos choques. Isso durou horas, eu não sei quantas horas, mas eu acho que deve ter passado mais de 10 horas. De tempos em tempos me baixavam do pau de arara. Lembro que o médico entrou e me examinou. Aparentemente fui considerada capaz de resistir pois a tortura continuou. Mas quando eu saí do pau de arara, eu estava paralítica. A minha perna direita tinha inchado muito. Depois foi diagnosticada uma flebite. Eu não conseguia mexer a perna, eu estava muito machucada, com febre muito alta e com os pulsos abertos por causa do pau de arara. Eu não sei bem o que se passou quando eu voltei. As lembranças são confusas. Eu não sei muito bem como era possível, mas eu sei que tudo ficou pior. Eles estavam histéricos. Eles sabiam que precisavam extrair alguma coisa em 48 horas, se não perderiam o meu contato. Gritavam, me xingavam, me puseram de novo no pau de arara. Mais espancamento, mais choque, mais água e dessa vez entraram as baratas. Puseram baratas passeando pelo meu corpo, colocaram uma barata na minha vagina. Hoje parece loucura. Mas um dos torturadores, o nome de guerra Gugu, tinha uma caixa onde ele guardava as baratas amarradas por barbantes. E através do barbante, ele conseguia manipular as baratas no meu corpo. Passados esses primeiros dias, eu fui largada no corredor de capuz. Eu estava meio desmaiada, meio dormindo, até que fui levada para a enfermaria. Com certeza eu fui salva por circunstâncias, não pela vontade deles. Podíamos morrer a qualquer momento e por isso nos mantinham incomunicáveis em todo esse período e por isso negavam a nossa prisão. Para eles que eram donos de nossas vidas e de nossas mortes, seria apenas mais um acidente como tantos que aconteceram. Na enfermaria, os médicos que me trataram, eram os mesmos que nos assistiam na sala de tortura. Amílcar Lobo e Ricardo Faial. Melhorei. A perna desinchou, eu fui transferida para a Base Aérea em Salvador. Eu estava com a perna muito fina, sem controle no pé, a cintura torta, como se eu tivesse tido paralisia infantil. Achei que as torturas tinham terminado, quando me avisaram que eu voltaria para o Rio. Quando eles entraram na cela em Salvador, já me puseram o capuz. Fui levada aos trancos para o avião. E durante todo o trajeto, eu era ameaçada de ser jogada para fora. Me levantavam da cadeira, me levavam até um lugar onde deveria ser a porta de emergência do avião, fingiam que abriam, diziam que eu abri, voltavam, me sentavam e recomeçavam. Em algum momento me perguntaram pelo Paulo, nome de guerra de Stuart Angel Jones, meu companheiro. E eu percebi que ele tinha caído. Depois no Rio nunca mais me perguntaram por ele. Stuart tinha sido assassinado, eu só soube depois. Foi nesse quadro, na volta, que o próprio Najibe fez o que ele chamava de tortura sexual científica. Eu ficava nua, com o capuz na cabeça. Uma corda enrolada no pescoço, passando pelas costas até as mãos, que estava amarradas atrás da cintura. Enquanto o torturador ficava mexendo os meus seios na minha vagina, penetrando com o dedo na vagina, eu ficava impossibilitada de me defender, pois se eu movimentasse meus braços para me proteger, eu me enforcava. E instintivamente eu voltava atrás. Assim um dia mandaram me vestir, nós usávamos um macacão na prisão. E eu fui levada por um grupo de soldados da Polícia do Exército para a Auditoria da Marinha.
[14:54]Quando eu cheguei na auditoria, eu não andava, a minha perna continuava atrofiada, eu tinha hematomas e ferimentos pelo corpo. Me levaram para uma sala onde estavam os meus pais e meu advogado. Sempre rodeada pelos soldados da PE, eu pedi, por favor, para que eles tentassem me tirar do DOI-Codi e me levasse para o Hospital do Exército, para o Hospital Militar. Eu sabia também que aquele momento era a única chance que eu teria de denunciar as torturas como uma prova real. Eu era a prova real da tortura. Eles não podiam mais me matar, porque eu já estava oficialmente presa. O que, no entanto, não tinha a menor importância para mim. O importante era que eu sabia que eu ia voltar a ser torturada e que eles deveriam estar furiosos com o meu depoimento. E é impressionante a capacidade deles de inventarem sempre alguma coisa diferente, alguma coisa que vai te deixar pior ainda. Quando cheguei na sala de tortura, estavam todos juntos, enlouquecidos. Releio esse depoimento e vejo que a todo momento eu digo que foi a pior coisa que vivi na vida. Bom, de novo, esse momento foi a pior coisa que eu já vivi na vida. Eles me fizeram representar o que eu tinha feito na auditoria, como se tivesse sido uma representação, uma mentira, uma palhaçada. Eles gritavam: “Ah, agora faz mais cara de choro, não está suficiente. Você fez mais cara de choro do que essa lá. Manca mais, cara, você mancou muito mais, filha da puta!” E eu fiz tudo o que eles mandaram. Eu fiz tudo o que eles mandaram. A sensação era que eu tinha perdido inteiramente minha identidade, porque quando a sua dor é transformada em piada, com a sua ajuda, é como se nada mais tivesse sentido.



