[0:00]Será que é plausível acreditar em Deus? Existem evidências que apontam para sua existência. E se Deus existe, por que o cristianismo seria verdadeiro e as outras religiões seriam falsas? A fé não está num constante conflito com a ciência? Como nós lidamos com o problema do sofrimento? Qual o significado da vida? Essas são as grandes questões que nos assolam. As grandes questões da vida. Seja muito bem-vindo à mais nova série documental da Escola do Discípulo.
[0:44]Seja muito bem-vindo à mais nova série documental da Escola do Discípulo. Meu nome é Filipe Breder e aqui nós vamos tentar nos próximos quatro episódios, responder algumas das grandes questões da vida. É plausível crer em Deus? O problema do sofrimento. Se o cristianismo é verdadeiro diante das outras religiões. Se existe conflito entre a fé e a ciência? Qual o significado da vida? Eu convido você a participar com a gente dessa jornada. E antes de continuar, eu já quero pedir para você, encarecidamente, que deixe aí o seu gostei, ou o seu valeu demais, porque deu um baita de um trabalho produzir toda essa série e disponibilizar gratuitamente aqui no YouTube para você. E também essa série só foi possível, graças à parceria que nós estamos com a ABC2, a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. Nós estamos muito felizes porque a ABC2 topou essa ideia, esse desafio de produzir esse documentário junto com a gente. Se você não conhece, Associação Brasileira de Cristãos na Ciência é justamente uma associação que busca um diálogo entre a fé e a ciência, entre cientistas cristãos e a academia. É uma associação que está espalhada por todo o Brasil, com grupos de estudo, com palestras, com conferências. No site deles, você pode conhecer a Academia ABC2, com diversos cursos, inclusive, pós-graduações. Fico o nosso convite para você conhecer a ABC2. Muito bem, se você está assistindo esse primeiro episódio, provavelmente você tem algum interesse sobre Deus. Você gostaria de saber pelo menos se é plausível acreditar em Deus? Talvez você seja cristão, ou talvez você seja um ateu, ou um agnóstico, ou está em dúvida sobre esses argumentos. Será que existe alguma evidência que aponta para a existência de Deus? Ou crer em Deus é plausível, é racional? Como que nós lidamos com o problema do sofrimento no mundo, por exemplo? Essas são algumas das questões que nós vamos buscar responder nesse primeiro episódio. Ao contrário do que muitos pensam, nós vivemos num mundo religioso e a religião está crescendo. Ao contrário do que muitos sociólogos previam, que a religião desapareceria, ou diminuiria, com o crescimento do progresso científico, da racionalidade, da intelectualidade, as pessoas abandonariam a fé. Mas as pesquisas têm demonstrado justamente o contrário. A gente entra no século 20, achando, especialmente na cabeça do cientista social, ou mesmo do cara das ciências naturais, falando o seguinte, olha, a gente tá entrando num período que a racionalidade vai nos levar ao fim da história.
[3:18]É um momento em que a gente já não vai mais ter guerras, a ciência vai resolver o problema da fome. Outros problemas, como disputas territoriais, já não farão mais sentido e o desenrolar do século 20 mostra que a gente não supera nenhum desses problemas, alguns deles a gente agrava. A gente viu algumas das guerras mais sangrentas da história do, da humanidade, acontecendo durante o século XX. Quando você tem essa desilusão na segunda metade do século 20, então surge uma necessidade interna do ser humano de dizer assim, não, espera aí, não dá, alguma outra coisa tem. As pessoas acreditavam que, conforme a ciência fosse trazendo outras respostas acerca da vida e do universo, a necessidade de crer em Deus diminuiria. No entanto, não foi isso que aconteceu. Até hoje, a ciência continua avançando e a espiritualidade continua sendo uma dimensão necessária para todo ser humano. Todo ser humano continua tendo essa dimensão, porque as respostas científicas não trazem sentido para a existência humana. O Washington Post, por exemplo, publicou uma pesquisa que demonstra que a religião continua crescendo no mundo todo. Tanto cristãos quanto muçulmanos são os que mais crescem e que, provavelmente, o século 21 será mais religioso do que o século 20. O que a gente precisa entender é que a espiritualidade, ela é, antes de tudo, uma dimensão do ser humano. Todo ser humano tem espiritualidade, mesmo aqueles que acreditam que Deus não existe, ou se definem como ateus ou agnósticos, essas pessoas também têm a sua dimensão de espiritualidade. E aí chegam muitas pessoas dizendo que a religião está crescendo justamente porque falta conhecimento no mundo. Porque quanto mais inteligente as pessoas forem, menos a fé crescerá na sociedade. Quanto mais intelectualidade nós tivermos, a religião desaparecerá. Existe aí uma ideia subjacente na cabeça das pessoas é o seguinte: o cara que é inteligente, ele é ateu. Né? O, o cara que estudou mesmo, é, ele não quer saber muito de religião. E então você assumir que, ah, o inteligente é ateu, os números não estão do seu lado. E também me parece que é uma certa prepotência em delimitar de maneira muito específica e muito pouco abrangente o que é a inteligência. Como se a crença em Deus fosse sustentada apenas pela ignorância humana. Ou seja, conforme a ciência avança, as nossas perguntas sobre o mundo, sobre o universo vão diminuindo. E se as nossas dúvidas vão diminuindo, a nossa necessidade de Deus também diminui. Esse é um argumento que se provou historicamente falho, porque mesmo com o, o contínuo avanço da ciência até hoje, a dimensão da espiritualidade não foi extinguida, justamente porque nós, quando falamos da existência de Deus, não falamos de um Deus simplesmente para, trazer respostas para aquelas dúvidas que a ciência não pode trazer. Muito pelo contrário, nós estamos falando de um ser necessário à vida. O próprio John Lennon, ele afirmou uma vez categoricamente: O cristianismo acabará. Desaparecerá, minguará para sempre. Não preciso argumentar acerca disso, estou certo e o tempo provará que tenho razão. O problema é que nós vimos que o tempo não deu razão a ele, porque com o passar do tempo, as pessoas estão se tornando cada vez mais religiosas. Mas aí você pode me dizer, não, espera aí, Filipe, porque quando eu olho ao meu redor, eu tenho visto que as pessoas estão se tornando cada vez mais céticas, estão abandonando as suas religiões. As pesquisas realmente demonstram que as religiões tradicionais, aquelas que os filhos já são parte da religião, simplesmente porque fazem parte da família. Esse tipo de religiosidade realmente está desaparecendo. Mas as pesquisas demonstram que no mundo todo, as religiões que exigem decisão, conversão, está crescendo exponencialmente. As pessoas no século 21 estão se apegando a uma espiritualidade. O famoso rabino Jonathan Sacks, ele afirmou que é inevitável que nós estamos vivendo. A humanidade, ela possui um apego à espiritualidade e à religiosidade. Então, mesmo que você não creia em Deus, ou tenha as suas dúvidas da existência de Deus, eu lhe convido a continuar na nossa série. A assistir ela completa, porque querendo ou não, você vive em um mundo religioso e nós precisamos entender esse fenômeno. Nós precisamos entender por que as pessoas creem. E, na verdade, nós precisamos perguntar, será que realmente é plausível acreditar em Deus no mundo de hoje? Provavelmente você já ouviu alguém pedindo provas da existência de Deus, não é mesmo?
[8:24]Com a chegada desse pensamento iluminista cartesiano, de que tudo precisa ser provado, cientificamente experimentado, as pessoas trouxeram isso para o campo da religião e aplicaram o mesmo argumento, dizendo o seguinte: Eu só creio em Deus se você puder provar a existência de Deus. A existência de Deus não pode ser provada cientificamente, porque Deus não está no nível do fenômeno científico. A ciência estuda fenômenos, fenômenos naturais. Ela tem uma metodologia própria para isso. A ciência, ela só pode nos dar respostas a respeito de fenômenos que ocorrem no nível da natureza. A ciência não tem o alcance ontológico para aquilo que Deus é. Então, a ciência, ela pode dar pra gente, ah, evidências no sentido de pistas, mas não provar no sentido rigoroso da palavra provar a existência de Deus. Esse tipo de prova científica, na minha opinião, é inexistente. Se não existir uma prova concreta, empírica de que Deus exista, então eu não posso acreditar em Deus, porque eu só acredito naquilo que os meus olhos veem. Eu só acredito naquilo que é possível ser comprovado num laboratório. Isso é loucura, porque nós acreditamos em muitas coisas. Coisas fundacionais pra vida humana e pro funcionamento humano, para as quais não existe uma evidência. Ou seja, não é uma conclusão de argumento, não existe em provas. O conhecimento científico, ele não é aplicável a diversas esferas da vida, como o amor, a esperança, a honra, a beleza, a virtude. São coisas que nós acreditamos fielmente, mas não podem ser provadas empiricamente num laboratório. Provar a existência de Deus empiricamente, realmente não faz muito sentido. Mas será que existem argumentos plausíveis para sua existência? Porque quando nós falamos sobre conhecer a Deus, nós não podemos simplesmente colocá-lo num tubo de ensaio ou numa mesa de laboratório para experimentá-lo. Não dá simplesmente para subir a um andar de cima, bater na porta, como a gente faria com o nosso vizinho. Porque se o mundo foi criado por alguém, esse alguém está para além do mundo. Provar a sua existência seria como pedir para um personagem de teatro provar a existência do autor daquela peça. Mas e se ao invés de nós tentarmos provar a existência de Deus, nós fomos por outro caminho, o caminho da inferência lógica? O caminho que muitos cientistas e filósofos têm feito. Ou seja, existem evidências que apontam para a existência de Deus, que trazem uma melhor resposta para a vida diante das outras hipóteses. Existe um tipo de argumento que é muito importante em ciência e também em filosofia, e diria até em teologia, que é chamado argumento abdutivo. Que é isso? É uma indução a melhor explicação. Dados os dados que eu tenho, a melhor explicação para esses dados é tal. Existem argumentos a favor de Deus, que sustentam a crença em Deus e que conferem mais sentido pra vida diante da descrença. E olha, eu te digo que você iria se surpreender com a quantidade de evidências que apontam para a existência de Deus.
[11:38]O nada não pode produzir algo. Essa é uma afirmação muito conhecida no meio da física. Tudo precisa vir de algo que já existia. Isso significa que é preciso haver um ser único, sem uma causa, que existia antes do nada, que teria sido o causador de todas as coisas. A ciência hoje em dia sabe muito bem como toda a matéria foi feita. Mas a grande pergunta é: como é que isso tudo começou e por que é que isso é assim da forma como é? Tudo que existe tem uma causa. Tudo que vem a existir, existe porque é causado por algo. O mundo vem a existir, logo, o mundo tem uma causa. Em elaborações disso, é o seguinte, a gente não pode ter um regresso é infinito, né? Então tem que ter uma causa primeira. É preciso um ser necessário, que começou esse processo. Então, William Lane Craig, Richard Swinburne e outros vão falar, ó, como, da onde que veio esse início? Quem causou isso? Então, se tudo passou a existir em algum momento, como a própria cosmologia diz que o Big Bang criou toda a matéria, o que existia antes disso tudo? Qual foi o fator causador do surgimento do universo? Claro que esse argumento não prova a existência de Deus. Muitos cientistas ateus buscam até hoje tentarem entender o que havia antes de tudo. Mas, é uma forte argumentação de que há para além do mundo natural, algum ser que criou o mundo natural. Quando nós olhamos para o início do universo, a existência de Deus faz muito mais sentido do que a inexistência. Outra evidência que aponta para a existência de Deus é o chamado ajuste fino do universo, ou princípio antrópico, que mostra que o universo parece estar finamente ajustado e regulado para que a vida seja possível. Existem conhecidas na natureza, apenas quatro forças fundamentais. Duas delas, elas estão assim no nível macroscópico, que são a força gravitacional e a força eletromagnética. Mas além dessas duas, tem outras duas forças, a força nuclear forte e a força nuclear fraca, que são forças intra-atômicas. Essas quatro forças funcionando em combinação, elas dão origem ao universo. Elas são, por assim dizer, uma espécie de fábrica do universo. Essas quatro forças, elas parecem que foram finamente ajustadas para que o universo viesse a ser complexo e que a vida humana fosse possível. Por quê? Se qualquer uma dessas variáveis fosse milimetricamente maior ou menor nas suas constantes, não teriam moléculas pesadas, não poderia existir nem carbono, nem oxigênio, nem vida. Então, olha que coisa impressionante. A estrutura do universo, as suas forças, os seus constituintes, elas foram milimetricamente calculados para que a vida humana fosse possível. Como você explica isso? Uma mera coincidência? Os ateus dizem que tudo isso surgiu aleatoriamente, foi espontâneo, foi uma causa aleatória. Mas quando nós calculamos a probabilidade de que o universo fosse tão perfeitamente ajustado para que a vida exista, nós chegamos a um número de 10 elevado a 100. Ou seja, é muito, mas muito, mas muito, mas muito improvável que todas essas forças fossem reguladas aleatoriamente. Seria mais fácil um caminhão cheio de ingredientes, como farinha, imagine só, um caminhão cheio de farinha, ovo, leite, e ele sofre um acidente, capota no meio da rua, pega fogo e quando os bombeiros chegam lá e abrem o caminhão, tem um bolo perfeitamente assado e decorado lá dentro. A probabilidade disso acontecer é muito maior do que a probabilidade do universo ser perfeitamente regulado para que a vida fosse possível. De todas as configurações possíveis, existia apenas uma, no meio de bilhões de trilhões para que a Terra estivesse apta a produzir a vida humana. Esse argumento prova a existência de Deus? Não. Mas ele é um fortíssimo argumento de que alguém teria organizado e planejado todo o universo. Esse argumento mostra que crer em Deus é sim, plausível e aponta para a sua existência. Para você ter uma ideia, esse argumento do princípio antrópico, do ajuste fino do universo, ele é tão forte, que muitos cientistas começaram a propor a teoria do multiverso, de que existem bilhões de trilhões de outros universos. E que na probabilidade dos trilhões de universos, um universo foi aquele que a probabilidade ajudou para que a vida fosse possível. Essa hipótese, digamos, ela é uma hipótese plausível do ponto de vista matemático, e a ciência, ela, de fato, deve investigar todas as possibilidades. O problema com a, com a hipótese do multiverso é justamente como é que isso seria comprovado. Ela requer a crença em tantos aspectos diferentes, ah, funcionando para que, para que isso fosse assim, que, digamos assim, é muito mais plausível você crer em Deus, uma inteligência que está por trás disso tudo, do que você crer em certas visões fantásticas que circulam por aí como se fossem ciência. Não crer na existência de Deus diante de um universo tão perfeitamente ajustado exige um salto de fé ainda maior. O argumento moral, também tem sido proposto como uma das principais evidências da existência de Deus. Todas as pessoas, em todos os lugares do mundo, possuem um sentimento daquilo que é certo e daquilo que é errado. Uma obrigação moral, da qual todas as pessoas deveriam obedecer e deveriam viver. Em primeiro lugar, a gente não tá afirmando que existe uma lista de certo e errado, uma lista moral que é idêntica para todas as pessoas, de todos os lugares, de todos os tempos. Isso seria, obviamente, falso. Mas o que existe é que todas as pessoas, de todos os lugares, de todos os tempos, elas têm um mapa moral ou uma intuição moral. Isso é impressionante. Mesmo que, como elas preencham essas intuições morais, os mapas morais, possam, possam assim, ter divergências, o que é impressionante é que pessoas de todos os lugares, de todos os tempos, têm uma vida moral, tem intuições morais. Na vida real nós acreditamos que existem algumas coisas que são erradas e que todas as pessoas deveriam concordar com isso. Se Deus não existe, as obrigações morais não passam de um processo biológico evolutivo. Dizer que as pessoas devem viver de uma maneira não faz sentido. Eu não tenho, por exemplo, autoridade para dizer que alguém não pode matar outra pessoa. Se Deus não existe, todas as coisas nos seriam permitidas. Pense, por exemplo, no holocausto da Segunda Guerra Mundial. Por que que o assassinato de milhões de judeus foi errado? Por que que isso chocou o mundo? Porque, veja bem, naquele tempo, a própria ciência dizia que aquilo era correto. Não existia nenhum argumento racional para dizer que a prática dos nazistas era errada. Afinal de contas, é a evolução das espécies, é a raça mais forte se sobressaindo sobre a raça mais fraca. É uma ciência para que a biologia humana seja melhor, ou mais perfeita. Só que quando o mundo descobriu o holocausto, todos ficaram chocados. Existia um sentimento no coração das pessoas de que aquilo era errado. Por que que aquilo era errado? Porque se Deus não existe, foi apenas o forte se sobressaindo sobre o mais fraco. Não existe nada de errado no holocausto. Quando nós pensamos nessa obrigação moral, ela faz muito mais sentido em um universo criado por um Deus pessoal. Uma outra variação desse argumento é o dos Direitos Humanos, por exemplo. O mundo diz que as pessoas possuem dignidade, que nós não podemos ferir a dignidade das pessoas, que todo ser humano possui direito à vida, à felicidade, à dignidade, que nós não podemos ter discriminação de raça ou discriminação de gênero. Mas pense bem, se Deus não existe, qual é a fonte desse argumento? Qual é a autoridade que nós temos para dizer como a outra pessoa deve viver e o que ela deve fazer, moralmente falando? Se a gente fala em Declaração Universal de Direitos Humanos, a gente não pode esquecer que ela tem um contexto sócio-religioso. Esse contexto sócio-religioso, demanda a existência de um Deus, no meu entender, não. Sozinho não. Mas o fato é que, com a existência de um Deus, os alicerces para essas conclusões morais, sofisticadas como as que a gente tem hoje, esses alicerces são sólidos. Sem a existência de um Deus, os alicerces para essas concepções morais são fluidos. Agora, tirou Deus a jogada. Direitos Humanos continua sendo possível? Sim, só que é muito mais fácil de desmontar. Esse é que é o ponto. Se Deus não existe, o que nós temos é apenas a força do nosso grito. Quem fala mais alto. Se Deus não existe, a sociedade evoluiu com o forte suplantando o mais fraco. Mais uma vez, essa não é uma prova da existência de Deus, mas nos mostra que um mundo onde os Direitos Humanos existem, faz muito mais sentido com a existência de Deus.
[21:10]Quando nós ouvimos algo assim, nós somos levados a um sentimento inescapável de que a vida não é um conto narrado por um idiota qualquer, cheia de som e fúria, sem sentido algum, sem significado algum. A beleza, as artes, elas nos enchem de esperança. Embora a gente não saiba explicar o porquê disso, a beleza tem sido também uma das evidências que nos apontam para a existência de Deus. O poeta americano, Ralph Waldo Emerson, disse: Nunca perca a oportunidade de ver algo belo, pois a beleza é a caligrafia de Deus. Muitas pessoas, desde da filosofia grega antiga, já tratavam a beleza como algo que é divino. Quando nós estamos diante de algo belo, seja uma obra de arte, seja a Capela Sistina, seja uma paisagem, essa beleza evoca dentro de nós o sentido de algo mais elevado. Agora, se Deus não existe e tudo é obra do acaso, por que encontramos tanta beleza e por que que a beleza fala tão profundamente conosco? O teólogo alemão, Paul Tillich, dizia algo muito interessante, que quando o ser humano é colocado frente a beleza, a uma obra de arte, a algo que evoca uma admiração muito grande, é como se algo acontecesse dentro daquela pessoa. Como se o infinito vibrasse. Então, a admiração da beleza, o fato de que a beleza fala conosco, que nós desejamos a beleza, desejamos a poesia, a vida e a verdade, isso tudo é um sinal de que nós desejamos algo que está fora da natureza e que traz sentido para nós. Como se fosse também algo perdido, uma saudade da beleza eterna que nós não conseguimos alcançar por nós mesmos. O Tim Keller ele disse que a beleza causa um efeito físico em nós que ideias por si só não costumam causar. Uma mescla de anseio e percepção de que a beleza não é tão permanente quanto deveria. Parece que a beleza, ela não é meramente um efeito estético pra gente sentir bem. Parece que a beleza, ela tem alguma ressonância com a realidade. É um fundamento da vida humana, a apreciação da beleza, mesmo que culturas diferentes discordem exatamente do que é o belo, de que toda cultura humana procura a beleza como algo a ser fundamentalmente incorporada na vida humana. O belo é onde eu quero habitar. O belo é aquilo que eu quero viver. Como dizia C.S. Lewis no peso da glória, quando eu vejo algo belo, eu não quero só contemplar, eu quero me fundir aquilo. Nós somos levados a um sentimento de que a beleza é real, de como o universo deveria ser. Um sentimento como se fosse uma saudade de algo que nós já vivemos. Talvez uma saudade do Éden. Se Deus não existe, e se tudo no mundo é realmente um aglomerado de átomos aleatório, sem sentido algum, então a beleza é um absurdo. O sentimento que nós temos do belo, do amor, do sentimento de alegria que nós temos quando observamos uma obra de arte, ele não faz sentido algum. Seria apenas algo biológico que nós adquirimos na evolução das espécies, que nos ajudou a sobreviver melhor. Inclusive, esse tem sido o argumento de muitos cientistas ateus. Eles dizem que esse sentimento que nós temos do belo, de perceber algo que é bonito, não passa de resultado da evolução das espécies. Que quando no passado nós encontrávamos uma natureza bonita ou um local bonito, nós saberíamos que ali haveria comida e nós sobreviveríamos. Mas isso não explica, por exemplo, por que é que nós achamos um deserto infértil tão bonito e tão belo? Por que que a beleza nos arrebata tanto? Se tudo não passa de uma evolução aleatória, a música é uma ilusão, não faz sentido nenhum. Assim como o próprio amor, o amor que você sente pela sua família, ou pelos seus filhos, pelo seu cônjuge, não passa de uma ilusão. São apenas reações químicas no nosso cérebro que nós herdamos dos nossos ancestrais para que nós pudéssemos sobreviver. Você até pode concordar com alguns ateus e dizer que realmente esses sentimentos são só reações químicas no nosso cérebro, são apenas ilusões. O problema é que na prática da vida, ninguém dá conta de viver desse jeito. Ninguém dá conta de viver imaginando que o amor é apenas uma ilusão. Ninguém dá conta de viver imaginando que a música, a arte é apenas uma ilusão. A existência de um belo torna Deus uma necessidade? Não, sozinho não. Mas a existência de um belo, aliado à existência de um moral, aliado às evidências naturais para a existência de Deus, você fala, é, parece que tem algo aí. No mínimo, eu tenho que considerar a hipótese. Tá legal. Todos esses argumentos são muito legais, muito interessantes, mas ainda existe algo que aflige o seu coração. E a questão do sofrimento.
[26:19]Por que as pessoas sofrem? Se Deus existe, por que que existe a dor no mundo? O sofrimento não seria uma evidência de que Deus não existe? O problema do mal representa um dos maiores desafios para essa conversa sobre os argumentos ou não da existência de Deus. Basicamente, aqueles que usam o problema do mal para dizer que Deus não existe, estão dizendo o seguinte: Se Deus é bom e se ele é todo-poderoso, ele deveria extinguir o mal. Por que que existem pessoas que sofrem, crianças que morrem, catástrofes e Deus simplesmente permite que essas coisas aconteçam? Mas será que o mal e o sofrimento são realmente provas da inexistência de Deus? Na verdade, esse raciocínio é uma falácia, porque o fato de eu não conseguir enxergar ou entender uma razão pela qual Deus permitiria o sofrimento, não significa que Deus não exista. Se a nossa mente não é capaz de entrar nas profundezas do universo e encontrar todas as respostas para todas as coisas, a gente não sai dizendo que essas coisas não existem. A própria ciência parte do princípio de que existem coisas que nós não entendemos ainda. A própria teoria da evolução das espécies, por exemplo, existem muitas lacunas, existem coisas ali que nós ainda não entendemos, que nós não temos resposta. E nem por isso os cientistas jogam a teoria no lixo, dizendo, nós não acreditamos mais porque existem coisas aí que a gente não consegue explicar. Então essa teoria não é verdadeira. A mesma coisa se aplica com a existência de Deus. O fato de nós não entendermos o porquê Deus permite o sofrimento, não anula a sua existência. Quando uma pessoa diz que se Deus existisse, ele não permitiria o mal, ele está dizendo simplesmente que se Deus fosse como eu, ele não permitiria aquilo que eu não permitiria. O Alvin Plantinga, ele fez uma ilustração muito interessante que eu gostaria de adaptar aqui para nossa realidade. Vocês estão vendo agora, um pouco do nosso estúdio, que nós fizemos especialmente para a gravação desse documentário. Se eu perguntar pra vocês o seguinte: existe aqui agora, nesse cenário onde estou, um cão São Bernardo? Sabe o cão São Bernardo, aquele que é grandão? Você pode dizer, existe no estúdio agora da Escola do Discípulo um cachorro São Bernardo. Se você não está enxergando nenhum grande cachorro agora aqui nesse estúdio, é muito plausível que você diga que não exista nenhum grande cachorro agora aqui no estúdio, né? Mas e se eu perguntar para você se você está enxergando algum pernilongo aqui no estúdio agora? Algum mosquito. Sabe aqueles mosquitinhos, não precisa nem ser pernilongo. Sabe aqueles mosquitinhos pequenininhos que ficam às vezes na banana, lá, pequenininho? Você está enxergando algum desses mosquitos agora aqui no estúdio? Eu acho que provavelmente não. Mas o fato de você não enxergar nenhum mosquito agora, te dá certeza absoluta de que não existe nenhum mosquito agora aqui no estúdio? Eu não posso afirmar esse tipo de coisa, afinal, pode ser que tenha, né? Eu não tô vendo, mas pode ser que tenha. A mesma coisa se aplica na questão do sofrimento. O fato de nós não entendermos ou não conseguirmos respostas para explicar o sofrimento, não faz com que Deus deixe de existir. C.S. Lewis, o famoso autor aí das Crônicas de Nárnia, ele era um ateu convicto. Depois ele se tornou um cristão, ele começou a crer em Deus. E uma das suas principais objeções era justamente a questão do sofrimento. Ele dizia que não podia acreditar em Deus porque existia sofrimento no mundo. Mas depois a mentalidade dele mudou. E aí, por incrível que pareça, o Lewis vai nos demonstrar que o sofrimento pode até mesmo ser uma evidência da existência de Deus. Porque afinal de contas, se Deus não existe, então de onde que veio esse nosso sentimento de justo e injusto? O que me dá direito de dizer que algo é ruim? O próprio C.S. Lewis, ele diz o seguinte: Meu argumento contra a existência de Deus era que o universo parecia muito cruel e injusto. No entanto, de onde tirei essa ideia de justo e injusto? Com o que eu comparava o universo quando o rotulava de injusto? Obviamente, eu podia desistir da ideia de justiça, dizendo que ela não passava de uma noção pessoal. Se o fizesse, porém, meu argumento contra a existência de Deus também iria por água abaixo. Pois ele dependia da afirmação de que o mundo era realmente injusto, não simplesmente de que as coisas não aconteciam para satisfazer a minha imaginação. Como consequência, o ateísmo acaba ficando simplista demais. O próprio C.S. Lewis reconheceu que se Deus não existe, por que que eu fico tão indignado com as injustiças do mundo? Por que que eu fico indignado com as coisas ruins? Essa não seria apenas a consequência natural da evolução das espécies, ou do forte se sobressaindo sobre o mais fraco, das causas naturais. Eu não teria por que me entristecer ou de ficar indignado com a injustiça. Se eu fico indignado com as injustiças, com o sofrimento, isso na verdade me aponta para algo que está para além de mim, que é verdadeiramente justo, que é verdadeiramente bom. Então, na verdade, a existência do sofrimento pode até mesmo apontar para a existência de Deus, por incrível que pareça. Além do mais, quando nós falamos do cristianismo, por exemplo, ele se torna muito mais surpreendente com a ideia de que Deus sofre junto conosco. Porque as escrituras revelam um Deus que veio até nós, se encarnou e sofreu junto conosco e sofreu por nós. Um Deus que entende o sofrimento e um Deus que está conosco no meio do sofrimento.
[31:27]Nós chegamos agora ao ponto crucial. E então, Deus existe? Ou pelo menos é plausível acreditar em Deus? Na medida em que um argumento moral para a existência de Deus, ele talvez não seja em si mesmo suficiente, o argumento estético para a existência de Deus, da existência de um belo. Quem colocou em nós a ideia de que uma coisa é bonita e outra é feia? Sozinho ele também é insuficiente. Mas quando você começa, e talvez essa seja a grande chave para coisa, quando você começa a trabalhar com esses argumentos simultaneamente.
[32:15]Quando você começa a observar todas essas coisas ao mesmo tempo, você começa a falar, pera aí. Você tem muitos indícios em conjunto para tentar imaginar a plausibilidade da existência de um transcendental. Da existência de algo que está além daquilo que é material. Essas coisas todas em conjunto, aí você começa a falar, não, no mínimo plausibilidade tem. Um dos filósofos contemporâneos mais importantes é o chamado Richard Swinburne. Grande filósofo, professor emérito de Oxford. Quem tiver a oportunidade de ler algumas das obras dele, que estão, inclusive, algumas publicadas em português, ele resume e traz muitos dos outros argumentos ao longo da história, daqueles que apontam evidências de Deus. Se há uma probabilidade grande, eu posso dizer que é racional acreditar em Deus. Não é irracional. Ah, é uma probabilidade grande de que Deus exista. Na verdade, ele vai defender que é uma probabilidade maior de que Deus exista do que Deus não exista. Realmente, todos os argumentos que nós apresentamos aqui não são fortes o suficiente para impor a crença a alguém. Para que alguém realmente comece a crer. Mas eles são fortes o suficiente para mostrar que a nossa crença é racional, é também intelectual. O que a gente quis mostrar aqui é que os argumentos fazem que a existência de Deus seja muito mais racional e exija um salto de fé menor do que não crer em Deus. E que não crer em Deus exige mais fé ainda do que o que nós temos hoje. No fim de tudo, crer em Deus não é um ato de fé. Não há como provar a sua existência. Mas o convite que eu faço para você hoje, caso exista dúvidas, caso você não creia em Deus, é que você possa duvidar das suas próprias dúvidas, que você veja que crer em Deus é plausível e também racional. Ou que pelo menos, entendendo a fé cristã, a gente possa viver em um ambiente mais pacífico, com o diálogo mais saudável. Mostrando que nós cremos e temos razão para nossa fé. Nós não estamos simplesmente dando um salto no escuro e acreditando em algo, dizendo, eu creio, eu creio, eu creio, fecho os meus olhos e eu creio, não. Existem bons argumentos que apontam para a existência de Deus. E o nosso convite, o meu convite é que nos próximos episódios, que durante essa série, você possa sinceramente meditar nessas coisas. E se abrir a essa possibilidade, se abrir talvez a essa fé, se questionar, duvidar das suas próprias dúvidas e começar a dar uma chance à fé cristã. E diante disso tudo, agora surge uma outra pergunta. Tá bom, Deus é plausível, ou pelo menos é plausível acreditar em Deus. Mas se Deus existe, por que então seria o Deus cristão? Por que o cristianismo seria verdadeiro e as outras religiões seriam falsas? Isso não faz com que o cristianismo seja injusto diante das outras religiões? Essa é a segunda pergunta que nós buscaremos responder no nosso segundo episódio. Muito bem, espero que você tenha gostado desse nosso primeiro episódio. Deixa aí o seu gostei ou o seu valeu demais, caso você queira contribuir com o nosso ministério. Porque nós tivemos um baita trabalho para colocar isso aqui gratuitamente no YouTube. Deixa nos comentários o que você achou, com encarecidamente, eu peço para que você comente também, caso você não creia, caso você não concorde com a gente, que você também comente de maneira respeitosa, porque nós queremos realmente dialogar e ouvir você. Que Deus abençoe e até o próximo episódio.



