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Amiga, Cuidado: Não é amor, é violência

Eu Quero Contar

16m 22s1,984 words~10 min read
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[0:00]Este episódio contém discussões sobre temas sensíveis e que podem ser difíceis para alguns ouvintes. Caso sinta que agora não seja o momento ideal para escutá-lo, saiba que está tudo bem. Sua saúde emocional é o mais importante. Estaremos aqui para quando quiser voltar.

[0:21]Você já parou para pensar em como uma vida pode mudar drasticamente? E se eu te dissesse que por trás de cada situação, existem histórias profundas que muitas vezes não conhecemos? Neste podcast, potencializamos vozes de mulheres corajosas que ousaram compartilhar suas vivências. Junte-se a nós para ouvir o relato daquelas que decidiram. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar. Eu quero contar.

[1:26]Um dia, por causa de um atraso do ônibus, ele falou que ia dar um tiro na minha testa. Ele estava totalmente descontrolado e para reverter a situação, eu tive que me controlar e fazer sexo com ele. A história que você vai ouvir faz parte dos 462 relatos que chegaram até a Júlia Poletini pela iniciativa Eu quero contar. São vozes de mulheres de várias partes do Brasil que mostraram problemas urgentes e que afetam todas nós. Meu papel daqui para frente é te acompanhar em cada reflexão. Vamos nessa? Começou de forma sutil e até carinhosa. Ele falava coisas do tipo: eu não acho que essa roupa fica bem em você. Por que é que você fica tanto tempo no celular? Eu não quero que você tenha rede social com homens curtindo sua foto. Quando eu discordava de algo, me chamava de burra, doente. Ouvintes, precisamos desde já reforçar que a maioria dos relacionamentos abusivos começam como relacionamentos que parecem normais. Digo parece, porque normalmente vem acompanhado de carinho e cuidados aparentemente inofensivos, mas que com o tempo revelam ser uma espécie de controle. Perceba como a nossa sobrevivente relatou a agressividade de seu companheiro. Abre aspas. Começou de forma sutil e até carinhosa. É isso. Poucos abusadores começam agredindo fisicamente ou usando xingamentos tão pesados. O que se observa aqui, na verdade, é uma escalada das violências. Para termos uma ideia, 37,5% das mulheres brasileiras viveram alguma situação de violência nos últimos meses. E 40% afirmaram que tenha sido de cônjuge, companheiro, namorado ou marido. Esses dados são do relatório visível e invisível de 2025, promovido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Percebam a gravidade desse número, ouvintes. Esses dados demonstram o quão assustador é o cenário da violência de gênero no Brasil. Pensando em como podemos estar atentas aos sinais, é importante entender que muitos abusadores se utilizam de uma linguagem passivo-agressiva, com bastante ironia, fazendo comentários maldosos de maneira sutil. Ou seja, estamos falando de frases como: eu só te falo isso porque eu me preocupo com você. Aquela roupa te deixa gorda. Tenho medo que esse novo trabalho te sobrecarregue. Fique em casa, é mais confortável. Eu só te fiz essa crítica porque eu quero o seu melhor, mas se te magou eu paro, já que você é tão sensível. Pode parecer que não, mas tudo isso são violências disfarçadas de cuidado. É difícil entender que possamos estar nessas situações, mas precisamos entender que a nossa autoestima, integridade e saúde mental tem muito valor. E que o que merecemos de verdade é amor e cuidado. Um dia, por causa de um atraso do ônibus, ele falou que ia dar um tiro na minha testa. Se eu tivesse fazendo algo errado, mas ele, ele, ele estava totalmente descontrolado. Para reverter a situação, eu tive que me controlar. E fazer sexo com ele. Sim, essa história é difícil de escutar. E por isso, ouvintes, relembramos o nosso aviso de gatilho. Se você não se sente bem, fique tranquilo para sair desse episódio. Se desejar continuar, estaremos juntas ouvindo e conversando sobre a história da nossa corajosa sobrevivente. Após esse trecho do relato, me dei conta de que a escalada da violência de uma linguagem passivo-agressiva para abusos físicos pode levar tempo, ou acontecer muito rápido. Perceba, passamos de forma sutil e até carinhosa, a ameaças de violência física como um tiro e o sexo como forma de tranquilizar a situação. E ouvintes, ouçam bem. O Código Penal define estupro como o ato de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal, a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Para explicar de outra forma, é quando uma pessoa é forçada a ter relações sexuais ou participar de atos sexuais sem consentimento, violando a nossa liberdade e integridade. Isso é crime. Para tentarmos ter algumas respostas do porquê convivemos com tanta violência, é preciso entender algo que a teórica e pesquisadora na área de saúde mental e gênero, Valeska Zanello nos alerta. Homens investem sobre mulheres, sobretudo pela vida da virilidade sexual e pelo lucro dos dispositivos amoroso e materno. Calma, vou te explicar direitinho o que ela quis dizer. Em outras palavras, o homem só fica em um relacionamento com uma mulher se para ele for conveniente. Se aparecer algo que ele ache melhor ou mais fácil, ele pode ir embora. Para isso, a Valesca dá o nome de dispositivo amoroso. Ela diz: o dispositivo amoroso é a definição de uma situação em que nós mulheres nos subjetivamos na relação com nós mesmas, mediadas pelo olhar do homem que nos escolhe. Essa frase mostra que muitas vezes nós mulheres colocamos nossa autoestima nas mãos dos homens. Isso significa que se eles nos escolhem e nos tratam bem, nos sentimos valorizadas. Mas se não fazem isso, acabamos nos sentindo inferiores. E a Valesca continua. É como se validássemos uma dinâmica em que eles têm o papel de serem avaliadores das mulheres. Quem está escolhendo é quem diz o que vale e o que não vale. Dá para perceber que do jeito que a nossa sociedade ensina a gente a amar, os homens acabam ficando numa posição de mais poder dentro dos relacionamentos. E isso não é por acaso. Esse modelo de amor faz a gente acreditar que eles é que decidem o nosso valor. O problema é que essa lógica trava qualquer mudança, tanto para nós, quanto para eles. Os homens deixam de aprender a lidar de verdade com as próprias emoções e nós ficamos sempre correndo atrás de aprovação. No fim das contas, essa dinâmica só aumenta a desigualdade e faz muitas mulheres sofrerem em silêncio. É duro ver como essa dinâmica acaba gerando tanta desigualdade nas relações. Em outra ocasião, devido a uma ligação de um amigo de trabalho, ele me colocou no carro, me levou a uma rua com pouco movimento, e queria que eu confessasse que o estava traindo. Como não havia o que confessar, ele me bateu no carro mesmo. Quando eu consegui destravar a porta e correr, passei por pessoas na calçada, pedi ajuda e ninguém fez nada. Ele me pegou.

[9:47]Me jogou do carro e saiu em disparada. Quando eu consegui, enfim, terminar com ele, foi um ano de perseguição e ameaça. Podemos pensar, quem vai ajudar uma mulher com os nervos à flor da pele, fugindo do próprio parceiro? Sempre ouvimos que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. O problema é que na maioria esmagadora das situações, alguém vai bater na mulher com algo mais letal que uma colher. É inevitável, mais uma vez, trazer dados para mostrar esse horror que a sobrevivente relata. Uma pesquisa do Datafolha sobre feminicídios em São Paulo identificou que 75% dos casos foram cometidos por homens que não aceitavam o fim do relacionamento conjugal ou que relataram ciúmes de suas parceiras ou ex-parceiras. Exatamente como essa história se apresenta para nós. Será que não estamos falhando enquanto sociedade? Será que a premissa de não se envolver nos problemas dos casais é realmente válida dentro da realidade de abusos e agressões que vivemos hoje? Tentei o suicídio. E hoje, tomo remédios controlados devido à depressão. Às vezes ele ainda me procura.

[11:26]Eu tenho medo.

[11:32]Quanto sofrimento um relato pode conter. Eu sei, mas vamos respirar, porque é muito triste ouvir o quão difícil foi para nossa sobrevivente passar por esse relacionamento. Mas encarar essa realidade é importante para que possamos combater a violência contra as mulheres. Pensar na relação entre os afetos e o gênero parece ser uma das maneiras possíveis de interpretar o fenômeno da violência. Citando novamente a pesquisadora Valesca Zanello, em seu texto sexualidade e os dispositivos de gênero no comportamento suicida. Ela relata que já na década de 90 havia o interesse na relação entre o suicídio e gênero, a partir de uma observação de que a frequência de suicídio é maior entre homens, enquanto o número de tentativas é superior entre as mulheres. E o contexto maior que leva os homens a cometerem o suicídio é o fim do proveito do dispositivo amoroso das mulheres. Ou seja, quando não encontram mais nada que eles possam se beneficiar na relação. Nesse caso, ouvintes, quando o homem deixa de tirar proveito da situação, ele também para de enxergar a mulher como alguém útil, que está ali para servir. Esse relato nos lembra que o fim de uma relação não significa necessariamente o fim da violência. As marcas deixadas são profundas e podem gerar um sofrimento emocional intenso. Muitas vezes, essas mulheres acabam vivendo um isolamento que não deveria ser enfrentado sozinhas. Por isso, a presença de alguém de fora, como amigos, familiares e profissionais da saúde, pode fazer toda a diferença. E ouvintes, é importante reforçar o valor das redes de apoio e acolhimento, sempre caminhando ao lado do cuidado com a saúde mental. Só com apoio, escuta e proteção, podemos pouco a pouco enfraquecer e romper os ciclos da violência de gênero. Se você estiver passando por um momento difícil, quando a dor pesa demais, pode parecer que não existe saída, mas saiba que você não precisa enfrentar isso sozinha. Falar com alguém pode aliviar um pouco esse peso e abrir espaço para um cuidado urgente e necessário. Você pode ligar para o CVV, Centro de Valorização da Vida, 188, que atende 24 horas por dia com escuta acolhedora, anônima e gratuita. E se essa angústia estiver relacionada a situações de violência, lembre-se de que o 180 é o canal de apoio para mulheres em situação de violência. Eles podem orientar, acolher e ajudar você a encontrar proteção. Você não está sozinha, há pessoas prontas para ouvir você agora, sem julgamento, com cuidado e respeito. Busque ajuda. Sua vida importa. Queridos ouvintes, chegamos ao fim do episódio, nos colocando em profunda vontade de acolher a todos e todas que já passaram por algum tipo de abuso ou violência. Sabemos da urgência em termos mais trabalhos, incentivos, metodologias e pesquisas que nos direcionem para o entendimento profundo sobre as razões dos índices de violência contra a mulher serem tão altos e exponenciais. Esse podcast é uma tentativa de resposta a tal urgência. Bom, foi ótimo ter você aqui para ouvir esse relato tão importante e a partir dele, repensar a nossa estrutura de sociedade. Espero que a gente se veja de novo no próximo episódio. Até lá. Esse podcast é realizado pela iniciativa Eu quero contar. Nos acompanhe pelo Instagram e LinkedIn @euquerocontar. A Lei Maria da Penha prevê cinco tipos de violência contra a mulher: física, sexual, moral, psicológica e patrimonial. As violências moral e psicológica são muito sutis, às vezes até silenciosas. Caso você saiba de alguém que esteja sofrendo violência no relacionamento, denuncie anonimamente, ligando no 180. Equipe voluntária: roteiro, Marina Melo e Talita Raíssa. Análise de conteúdo, Manuela Alessia e Beatriz Serrano. Vozes de Carla Martins e Marina Melo. Edição, Camila Anselmo. Direção criativa, Gabriela Tutchevsky e Bárbara Rodrigues. Eu quero contar.

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