[0:00]Existem um problema estrutural no Brasil que a gente insiste em ignorar e não é de hoje, gente. Não começou agora, tá? Não começou em 2022 com aquela eleição super apertada. Isso vem lá de trás, ó, desde a redemocratização, lá do fim da ditadura militar, quando o país voltou a ter eleições diretas. E é claro, o povo, com toda a razão, passou a depositar uma enorme carga de esperança no voto. Só que essa esperança, gente, ela foi canalizada quase que exclusivamente para o executivo, como se tudo fosse resolver através deste voto. E aí, o que que aconteceu? A gente criou uma distorção política gigantesca, que hoje cobra o seu preço de forma escancarada. A gente tá vendo aí. Bom, o brasileiro médio, ele acompanha a eleição presidencial, como se fosse uma final de Copa do Mundo, né? Ele sabe tudo do candidato, acompanha debate, discute na família, briga no grupo de WhatsApp e tudo mais. Veste camisa, compra narrativa, se envolve emocionalmente, mas quando chega a eleição ali pra deputado federal, deputado estadual, senador ou vereador, vira ali um grande, ah, tanto faz, né? O cara tá lá votando, pô, em quem eu vou votar? Ele acha um santinho daquele no chão, ah, vou votar nesse cara aqui. Então, as pessoas muitas vezes vota de qualquer jeito. Ela escolhe pelo nome, sei lá, mais engraçado, pelo número mais fácil de lembrar, né? Por indicação de alguém, ou simplesmente repete o voto automático ali sem ter a menor noção de quem aquele sujeito é, né? O que ele defende? Qual é o seu histórico? E aí depois a gente fica se perguntando, ué, mas por que que o presidente não consegue fazer isso? Mas por que que o presidente não consegue fazer aquilo? Sabe por quê? Porque não existe, gente, o governo forte, sem uma base legislativa forte. Não existe presidente, por mais habilidoso que seja, que consiga entregar tudo que a gente quer, com um congresso que é um congresso majoritariamente contrário a ele. 2022 foi uma eleição duríssima, polarizada, tensa, decidida ali no detalhe. Teve fechamento de estrada aqui no Nordeste, enfim, Bolsonaro com a máquina na mão e ainda assim perdeu. E ainda bem, né? Só que enquanto a galera tava focada nisso, o outro lado jogou o jogo completo. Enquanto uma parte da esquerda tava concentrada em garantir o executivo e que bom que garantimos, a direita e a extrema-direita tava organizando ali candidaturas para o legislativo, com estratégia, com financiamento, capilaridade, com narrativa. E adivinha, eles conseguiram abocanhar o legislativo. 75% da Câmara no, e 80% do Senado. Resultado: elegemos um presidente com muita dificuldade, mas entregamos para ele um congresso extremamente hostil e sabotador. E aí começa aquele ciclo vicioso. O governo precisa fazer o quê? Negociar tudo, negociar tudo, ceder aqui, recuar ali, fazer concessão, segurar avanço, né? Administrar crises. E quem olha de fora, muitas vezes acha que, ah, mas é falta de vontade política desse cara, mas não é, gente. Na verdade é a correlação de forças que é totalmente desfavorável. Política é força, política é número, é voto dentro do parlamento. Se você não tem força de voto suficiente no congresso, você não governa, simples assim, você não aprova nada. Não importa o quanto o presidente seja progressista, bem-intencionado ou popular, ele vira refém. Ele vira refém ali de emenda, refém de chantagem, né? Refém de pauta bomba, refém dessa coja de bandidos. Ah, Adriano, mas o Lula vem entregando, vem, o Lula entrega bastante coisa apesar desse cenário, sabe por quê? Porque ele é muito preparado, ele sabe dialogar com quem tá do outro lado, ele sabe negociar. Mas veja, é, a correlação de forças é totalmente desfavorável. E aí, gente, entra um erro gigantesco da esquerda brasileira. Essa romantização absurda do executivo, como se ele fosse o centro de tudo, e uma negligência quase criminosa com o legislativo. Isso não é só culpa do eleitor. Não, não, não é. É também de quem faz política, de quem comunica política, de quem organiza a campanha, como eu disse, eu não tô me eximindo. Eu devia falar mais disso aqui. Eu devia, eu também erro, tá? Quantos influenciadores políticos, quantos militantes, né? Quantos canais, quantas lideranças gastam energia, explicando a importância de eleger um deputado? Eu mesmo, falo muito pouco disso, eu sou um dos mais errados. Quantas pessoas sabem o nome dos deputados em que votaram? Pouquíssima gente, pouquíssimas. Aí depois não adianta esbravejar, ficar indignado, chamar todo mundo de vendido, de corrupto, de inimigo do povo, porque no frigir dos ovos, quem colocou essas pessoas lá, foi o próprio eleitor. Muitas vezes, claro, por desinformação, por falta de atenção, por ser cooptado mesmo, por discurso aí de direita, de extrema direita, por achar que esse voto não é tão importante, só que é imundo, gente. É imundo, e talvez seja até mais importante que o voto no executivo em um casos. Porque pensa comigo, um presidente, ele tem um mandato de 4 anos, pode até ser reeleito, como o Lula vai ser agora, mas tá limitado institucionalmente. Já um deputado, ele pode se reeleger aí ad infinitum. Pode construir base, pode ocupar espaços chaves, pode influenciar diretamente a elaboração das leis. Pode travar, pode destravar pautas, dependendo da, da liderança dele lá nas bancadas, mas enfim. É muito importante, gente. É muito importante que vocês votem também deputados e senadores de esquerda. Então quando a gente negligencia o legislativo, a gente na prática tá entregando o poder para o campo adversário. Mesmo quando ganha o executivo, o Lula ganhou, mas ele tem 75% da Câmara e 80% do Senado contra ele. E isso cria um cenário de esquizofrenia política. O povo elege um projeto de país numa eleição majoritária, mas esse projeto fica engessado, por quê? Porque não tem sustentação institucional. E aí surge um outro fenômeno que é muito perigoso, da frustração. Porque a pessoa vota acreditando em quê? Acreditando em mudança, né? Mas a mudança, ela não vem muitas vezes na velocidade que ele gostaria e nem na profundidade que ele esperava. E sem entender o papel do congresso, ele começa a culpar quem tá lá na cadeira de presidente, como se fosse incompetência, como se fosse traição, né? Quando na verdade é limitação realmente da correlação de forças. Então o que que precisa mudar? A consciência política. A gente precisa começar a tratar a eleição legislativa com a mesma seriedade, com a mesma importância que trata a eleição presidencial. Precisa pesquisar candidato, precisa entender posicionamento, olhar histórico, ver como ele votou, né? Acompanhar o mandato dele, precisa cobrar, precisa fiscalizar, sim, precisa lembrar em quem você votou há 4 anos atrás. É isso, gente. E mais do que isso também, eu diria, tá? Precisa construir estratégia coletiva. Não adianta só eleger um presidente alinhadinho ali à esquerda, se você não constrói maioria parlamentar. Política é jogo de médio e longo prazo, é você ocupar espaço, né? É você disputar narrativa, é você formar quadros e fortalecer a base. Sem isso, a gente vai continuar repetindo o mesmo ciclo. Vitória difícil no executivo, frustração no governo, desgaste político, crescimento da oposição e risco constante de retrocesso. O Brasil de hoje, gente, é uma sociedade majoritariamente conservadora em vários aspectos. Principalmente, tá? Quando entram temas ali ligados a costumes e religião. Esse conservadorismo, quando não é acompanhado ali de informação política ali mais ampla, o que que acaba acontecendo? Acaba sendo facilmente capturado por discursos mais simplistas, né? Baseados ali em medo, moralismo, soluções fáceis para problemas complexos. Ou seja, exatamente o que a extrema-direita faz. A extrema-direita acaba cooptando essa galera. E é justamente aí que eles crescem no legislativo. Eles conseguem se conectar com esse sentimento difuso da população. Eles traduzem isso na campanha, em mobilização, em voto organizado. Quanto isso, muitas vezes a gente, ah, eu diria que falta essa mesma capilaridade, falta disputar esse eleitor no cotidiano. Falta traduzir proposta concreta na linguagem que as pessoas entendem. Porque assim, gente, quando a gente fala do trabalhador, né? A galera que pega ônibus lotado, que ganha pouco, vive com dívida, com medo do futuro. Essa pessoa, ela não tá preocupada com teoria política. Ela quer a coisa básica, ela tá preocupada com o básico, salário digno, estabilidade, acesso à saúde, educação, segurança, tempo de vida, qualidade, qualidade de vida. Ela quer parar de viver no sufoco. E é justamente por isso que entender o papel do legislativo é tão decisivo. Porque essas condições de vida, elas não são definidas só pelo presidente. Elas passam por leis trabalhistas, por orçamento público, elas passam por políticas sociais, por reformas que precisam ser aprovadas, ó, lá no Congresso. E quem vota essas coisas são os deputados e senadores, ou seja, que hoje são inimigos do povo. Então a gente precisa mudar esse cenário, eleger amigos do povo. Então o que realmente precisa ser fortalecido aqui é a consciência de que o voto no legislativo não é secundário, ele é estruturante. Se você quer um país, presta atenção, você que caiu nesse vídeo, de repente paraquedas, você quer um país com mais proteção ao trabalho, com mais políticas públicas, com mais presença do estado em áreas essenciais, você precisa entender que é a esquerda que vai te proporcionar isso. É a esquerda. Não adianta votar no Lula pra, pra, pra presidente, e aí na hora de votar para deputado, você achar lá um santinho no chão do Zézinho da Milícia do seu bairro e votar nele. Porque o Zézinho da Milícia do seu bairro, ele não quer o mesmo que você quer. E aí a gente volta para aquele ponto. O executivo pode até propor, ele pode até tentar liderar, pode articular, mas quem viabiliza ou bloqueia é o Congresso. Sem um alinhamento mínimo, o governo, gente, o governo entra numa espécie de um modo de sobrevivência política, negociando o tempo todo, reduzindo as ambições, administrando o conflito, e isso é lógico que vai impactar diretamente o que chega na vida real das pessoas. Então, o nosso voto, gente, não pode ser um voto aleatório, não pode. Isso é para você, de novo, você caiu de paraquedas nesse vídeo, não conhece o canal, continuou até aqui. Seja bem-vindo. Isso é para você, seu voto não pode ser aleatório, tipo, votar num presidente de esquerda, como o Lula, e num deputado de direita ou de centro, ou num senador de extrema direita. Tem que alinhar o voto, meu querido. Presidente de esquerda e todo o resto de esquerda também. Aí sim, você pode cobrar, porque o Lula com uma correlação de forças mais favorável, melhor do que essa, pode ter certeza que ele vai entregar muito mais coisas do que ele já consegue agora com o congresso 80% contrário a ele. Você sabe o que é isso? Você trabalhar, você governar um país, com o seu congresso quase que 80% contra você. Olha, é porque o Lula é muito, muito preparado, é muito, muito capaz, porque se fosse outro, não conseguiria entregar nada, mas o Lula ainda entrega muita coisa. Imagina, se a gente der pra ele um congresso melhor do que esse.

A SOLUÇÃO PARA O BRASIL É TIRAR ELES DE LÁ
Reflexões Contemporâneas
12m 39s1,867 words~10 min read
Auto-Generated
Watch on YouTube
Share
MORE TRANSCRIPTS


