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Caso Raul Amaro: Depoimento do médico Luiz Tenório

Comissão Nacional da Verdade

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[0:07]Eu sou médico, meu nome é Luís Roberto Tenório, me formei em 1968 na antiga UERJ, hoje UERJ. E depois de formado, eu tive uma prisão em 1969, por causa da minha participação no movimento estudantil. E depois disso, a minha atividade política era um pouco como médico, prestando assistência a pessoas que estavam procuradas pela ditadura militar. Pessoas não só passavam mal e iam ao meu consultório, como pessoas também que se feriam em ações de combate contra a ditadura. E fruto disso, um grupo de médicos foi preso em 1972. Eu fui um deles, junto com outros colegas, Adão Pereira Nunes, Almir do Tom, enfim, um grupo enorme. E fui levado para o DOI-CODI, na Barão de Mesquita. Fui sequestrado no consultório, e do consultório fui direto para a Barão de Mesquita.

[1:21]E seria desnecessário dizer o que é que aconteceu em termos de tortura, de todo tipo de de maus-tratos, de de barbaridades.

[1:37]E depois de algum tempo, eu, ouvindo uma sessão de tortura, eu vim muito mal, muito, muito debilitado, inclusive com uma perfuração do tímpano. Eu tive meu tímpano direito perfurado. E a partir daí eu comecei a ter uma piora do do do meu estado de saúde. E eu dividia a cela lá no DOI-CODI com um com um outro preso político de nome Otoniel, que era um funcionário do Ministério da Fazenda de Pernambuco, que estava preso também lá, não sei bem o motivo da prisão dele. E ele, muito preocupado com o agravamento do meu quadro, febando em febre, já meio falando coisas desconexas, ele ficou, ele começou a gritar que precisava de médico, precisava de médico, precisava E foi, e foi trazido um médico para me atender.

[2:38]E e esse médico era o Ricardo Faiad, que foi meu colega de turma. Durante os seis anos nós convivemos na mesma turma na Faculdade de Ciências Médicas da UERJ. E durante todos esses seis anos a gente tinha as divergências políticas do movimento estudantil, eu pela esquerda e ele como pessoa de direita. E quando eu vi o Ricardo Faiad, eu fiquei um pouco com algum tipo de esperança que ele pudesse pelo menos avisar a minha família onde eu estava, porque já estava há alguns dias sem em saber quanto tempo eu estava preso. E ele simplesmente, chamou o torturador e falou para o torturador que eu ainda poderia dar informações, que eu poderia e que não tinha, não era um caso grave, que pudesse continuar no interrogatório e tal, não sei o quê. O próprio torturador chegou para mim e falou: "Olha, quem tem um colega desse não precisa ter inimigos." É, o torturador e nesse dia, não sei se por que motivo eu não fui mais torturado. No dia seguinte foi um outro médico, eh, porque eu continuava com febre, continuava com muita dor de cabeça e que passou um remédio paliativo e que eu, a partir daí, comecei a ter melhoras no meu quadro clínico. Quando eu saí do DOI-CODI, depois de uns 20 dias, eu fui para o Batalhão de Guarda, em São Cristóvão, e lá em tive, fiquei numa, numa cela com o Otoniel, que era esse, não era uma cela, era um quarto no Batalhão de Guarda, em que tinham mais três presos políticos, Otoniel, o Príncipe Las Casas, que teve preso conosco também naquela ocasião, e o Vitorino, que eu não sei bem o nome, mas eu depois li que ele morreu vítima de Eu não entendi o nome do segundo. Las Casas. Príncipe, é.

[4:50]Eh, depois eu fiquei sabendo que ele tinha, ele era funcionário de uma agência, o Príncipe Las Casas era funcionário de uma agência de automóveis e tinha emprestado alguns automóveis lá para algumas ações armadas na época e tal. Por isso era o motivo dele estar preso. O Otoniel depois me disse que tinha sido preso porque também encontraram um cheque dele no, num aparelho que que caiu, enfim. E depois conversando com as pessoas, todas, porque eu atendi essas pessoas no meu consultório, pessoas procuradas. E a, na época, foi presa também a Helenal foi preso um jornalista chamado Ramayana, que era o pessoal que era ligado nessa, nessa época, ao PCBR. E, e essas pessoas todas, depois conversando comigo, todas elas, eh, falaram que, de fato, tinha sido de uma forma ou de outra, visto o, o Ricardo Faiad, eh, exercendo esse papel de saber, eh, se eles continuariam com resistência à, à tortura ou não. E depois disso eu tive a oportunidade também de conversar com um grande brasileiro, que já morreu, um grande médico, que foi o Doutor Adão Pereira Nunes, que também relatou que foi atendido, eh, pelo Ricardo Faiad para saber se se deveria continuar ou não. E o próprio Adão me falou que pela idade dele pouparam ele um pouco de disso. Isso. Essa foi a minha, a minha convivência com Ricardo, a partir daí. Eh, e e depois disso, houve um episódio, eh, no início do governo, eh, no final do governo Itamar Franco, eu estava em casa, já já tinha havido anistia e tal. Eu vi uma nota no jornal que ele estava para ser nomeado chefe do, da, diretor médico do Exército. E nessa ocasião eu falei com, procurei a Cecília Coimbra para, para Flora Abreu, várias pessoas, e falou assim, é um absurdo. Porque esse sujeito me torturou, esse sujeito de uma forma ou de outra, ele não, ele não, ele não me torturou, mas ele que dizia se eu, se eu deveria continuar na tortura ou não, continuar na tortura. E conversando com os outros presos políticos naquela ocasião, todos eles relatavam que ele exercia esse papel. Eu, eu posso até ver quem for as pessoas que tiveram presas naquela ocasião que podem dar esse depoimento. Eu já cito algumas, esse jornalista Ramayana, hoje ele está no na região norte, nesse movimento do Santo Daime. É, a Heliana, infelizmente morreu já, mas Otoniel deve estar em Pernambuco. E eu pedi para meu advogado levantar quem eram as pessoas que estavam nessa, nessa ocasião presas junto comigo que poderiam também dar esse depoimento. Mas quando eu soube disso, pelo jornal, que ele ia ser nomeado, nós fomos a Brasília. Já era o governo, o ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, e a Cecília Coimbra e a Flora conseguiram audiência, eh, a pedido, inclusive, do Conselho Federal de Medicina com o presidente Fernando Henrique Cardoso, que evidentemente botou, eh, botou para falar com o Zé Gregori. E lá nós relatamos essa situação do papel que o Ricardo Faiad exercia e que era um absurdo que um governo democrata indicasse ele para chefe do, o Zé Gregori pediu uma semana e uma semana depois ele ligou falando que de fato, eh, eles tinham informações da presença do, do, do comportamento do Faiad, eh, e que ele ia, ia ser colocado na para a reserva, não sei, reforma, não sei bem como é que era o torno.

[8:52]E a partir daí, eh, eh, todas as informações que a gente tem, era que ele estava morando em Brasília. Entramos com uma ação no Conselho Regional de Medicina, ele foi caçado pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, recorreu ao Conselho Federal de Medicina, foi caçado no Conselho Federal de Medicina. E mesmo com essas duas caçações, o Exército, eh, o mantinha como médico, não reconhecendo a caçação dele como médico para o Exército na época. Então, ele estava impedido de exercer a medicina, eh, não podia ter consultório, não podia ter paciente, mas continuava exercendo a medicina dentro da, dentro do Exército, né, na instituição Exército. É um pouco isso, eu, eu acho que teria muito mais, mas eu acho que hoje é um dia importante que a gente apresse esses depoimentos por causa do dia da, da, da necessidade que vocês têm da nota.

[9:59]Só só uma pergunta, por favor, doutor Luiz Alberto. O senhor ficou sabendo de alguém que tenha morrido também? Alguém que ele confirmou que podia continuar ser torturado e que tenha morrido, não? Não, eu não tenho essa informação. Eu tenho informação de pessoas que que que que foram foram, ele acompanhou o, a tortura. Eu conversei um pouco com o Cid Benjamin, que, que, que, que também teve com ele lá na no DOI-CODI. E e, e é isso, enfim, eu não tenho, eh, em relação a outros médicos, a gente poderia falar talvez em outro momento, inclusive na questão do, do, do, do, do, do Hospital Central do Exército, naquela ocasião. Não, mas pode falar, pode falar. Não, o Hospital Central do Exército, a experiência, eh, o o conhecimento que eu tenho é que lá também existia tortura. Eh, eu, eu tive um calouro meu, que formou dois anos depois de mim, o Cláudio Campos, que hoje é psiquiatra. Cláudio Campos foi preso, eh, no início da década de 70, e ele foi violentamente torturado no DOI-CODI, violentamente torturado. E ele como tinha um problema de, eh, ligados a, a, a, a digeremia e tal, entrou no DOI-CODI e só dizia o nome dele. Não dizia mais nada no seu nome dele. E as pessoas, porque ele estava no estado, eh, complicado de cabeça. E as pessoas continuaram torturando ele, torturando ele, torturando ele, a um ponto de ele fazer um quadro de insuficiência renal aguda, pneumonia, ia morrendo no DOI-CODI, e acompanhado, acompanhado por médicos. Não sei se nessa ocasião seria o Faiad, mas acompanhado por médico, ele me disse isso. E até que um médico do DOI-CODI falou: "Olha, vai morrer, transfira ele para o Hospital Central do Exército." Ele foi transferido para o Hospital Central do Exército e lá não recebia nenhum tipo de tratamento dos médicos do hospital, proibidos de tratá-lo. Ele estava lá para morrer no hospital. A sorte dele é que tinha um colega dele da faculdade que avisou ao professor Piquet Carneiro, Américo Piquet Carneiro, que era o diretor da Faculdade de Medicina, um ótimo sujeito, um figura fantástico, que que muito ligado à Igreja Católica que acionou na época o Dom Eugênio Sales, e acionou uma série de pessoas e conseguiu entrar no, no Hospital Central do Exército para ver o Cláudio Campos. E a partir daí ele conseguiu a transferência do Cláudio Campos, que estava sem tratamento, que é uma forma de tortura, né? Uma pessoa que está em insuficiência renal, pneumonia, infecção, fazendo quadro de sepsemia e a ordem é não tratar. Ele conseguiu tirar o Cláudio Campos e levou para o nosso hospital, que é o Hospital Pedro Ernesto, e a partir daí, paulatinamente, o Cláudio foi melhorando, melhorando, melhorando, melhorando, saiu do, está vivo hoje, é um psiquiatra, um grande colega nosso. Então, eh, eh, essa questão do, do médico tem um outro lado que também, era que muitos colegas falavam que o Doutor Ricardo Faiad, quando tinha alguma ação armada que tinha feridos e não tinha sido preso, ele corria os hospitais das principais emergências, Souza Aguiar, Miguel Couto, eh, Salgado Filho, eh, Carlos Chagas, etc., para saber se tinha chegado alguém ferido de bala lá e tal, para saber se tinha alguém na, na, na sala de emergência ferido com tais, tais ferimentos. Isso vários colegas na época falaram isso. Pra, pra repressão e para procurar essas pessoas. É, para a repressão, então, porque é, o grande problema das pessoas que se feriam em ação de combate era que eles não tinham, não podiam ir para o hospital público, porque se eles fossem para o hospital público seriam presos. Então, nós tínhamos um esquema médico de apoio. E esse esquema médico nós tínhamos uma, alugamos uma casa, fizemos um pequeno centro cirúrgico e começamos a atender esse pessoal em, em, na, em bom sucesso, ali na Rua Dark de Matos. E ali foi que a gente, enfim, tratou algumas pessoas. Esse esquema foi completamente desbaratado pela polícia, porque uma, a gente tratava pessoas de todas as organizações. Então, a gente era o mais vulnerável possível, porque nós estávamos na legalidade, nós não, nós não estávamos clandestinos. E até que uma das pessoas não resistiu à tortura, não, não, não estou culpando ninguém, falando tortura e abriu o esquema médico, todos nós fomos presos. Então, foi, acabamos todos sendo absolvidos, né, depois de algum tempo, o processo correu e nós todos fomos absolvidos, nós, médicos. É um pouco isso. E outra coisa que era importante era, era também o papel do médico no Instituto Médico Legal, né? Na época, eu conhecia alguns médicos legistas, que eram pessoas bem comprometidas com o regime militar, e que eram médicos do Instituto Médico Legal. E todas as vezes que a gente indagava, a Cecília Coimbra passou alguns atestados para a gente verificar o que é que estava, toda vez que a gente indagava, eh, como é que era aquela, aquela, aquele, aquele laudo da na necrópsia, eh, ele sempre falava que ele não tinha culpa nenhuma porque a rotina, o protocolo do Instituto Médico Legal era que o médico, o legista, eh, assinava, mas sempre tinha que ter uma segunda assinatura. E a segunda assinatura, eh, quem assinava pela segunda vez não era a pessoa que tinha feito a necrópsia. Então ficava nesse nesse jogo de empurra. O, o Dário Chibata em São Paulo disse isso à Comissão da Verdade. Eu tinha um, uma pessoa que dava plantão comigo no, no Ministério da Saúde da Penha, no posto de Primeira Agência da Penha, que era o Doutor Janini, que tinha sido meu professor, inclusive, na Faculdade de Medicina, que era do Instituto Médico Legal e tinha denúncias muito sérias que, tinha denúncias muito sérias que ele participava disso. E quando eu perguntava para ele sobre a participação, ele falava: "Eu não, não, não, não fiz essa necrópsia, quem fez foi fulano de tal, e eu apenas era o segundo a assinar." Sempre eles eram sempre os segundos a assinar, nunca aparecia o primeiro a assinar. Entende? Isso daí ficou sem apuração, porque, né? Queria fazer uma uma última pergunta, da minha parte, pelo menos a última, porque nós temos que sair para fazer. Mas queria aproveitar o seu depoimento, não exatamente sobre, eh, o acompanhamento médico das torturas, mas é se você tem notícia de que havia uma casa clandestina em Jacarepaguá, para onde eram levados os militantes, que eram presos. Uma casa clandestina que nós estamos procurando, eh, assim como teve a casa da morte em Petrópolis, essas casas clandestinas. Você, no período da sua prisão, você ouviu falar dessa casa em Jacarepaguá?

[17:33]Não, não tenho conhecimento disso. Não tem notícia, né? Eu saí do do DOI-CODI, fui para o Batalhão de Guarda ali na Vila Pedro Segundo. Lá fiquei, sei lá, alguns meses. Vocês querem fazer mais alguma pergunta? Não? É só agradecer. Se essas pessoas, entre esses mortos que foram atestados como tendo morrido de outras coisas, o senhor sabe, cita o nome de alguém que o seu, o Faiad deu um laudo errado, ou? Não, esses, esses laudos me foram entregues pela Cecília para, para que eu pudesse, tentasse ajudar nessa coisa. Eh, eh, porque eu sendo da UERJ, o diretor do Instituto Médico Legal era médico, e era diretor da Faculdade de Direito da UERJ, onde eu era professor. Então, que era o Doutor Nilson Santana. Era o diretor do Instituto Médico Legal, era o diretor da Faculdade de Direito da UERJ, e era a pessoa que era meu colega de de de de universidade, né? Eh, e ele sempre se negou a falar sobre isso, falando que que que que nós todos, eh, estávamos em campos opostos. Olha, então nós queremos agradecer muito a sua participação. Esses depoimentos ficaram registrados e guardados não só para o trabalho da Comissão da Verdade, mas para todos os historiadores, todos os estudantes, todos os pesquisadores que virão depois, com certeza, além de ficarem aqui no Arquivo Nacional, muitos, eh, eh, muitos outros centros, por exemplo, o próprio Ministério Público já nos pediu também uma cópia desses documentos, de modo que eles serão utilizados de formas diversas, mas, eh, vale a pena prestar esse depoimento, com a independência do sofrimento, dos traumas que existem e que são revividos nesse momento, mas eu lhe digo que é um trabalho muito importante para, para o nosso futuro, para o nosso presente, para o nosso futuro. Obrigado. Eu que agradeço. Eu me emociono muito, estou à disposição.

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