[0:00]Nível 1: o favor inocente. Você tem 19 anos, trabalha de estoquista num supermercado, pega ônibus lotado todo dia e seu salário acaba no dia 10. Você juntou mil reais suados na caixinha do Nubank. Um dia, o rapaz do açougue do supermercado chega desesperado. A filha dele tá doente, ele precisa comprar remédio, mas é meio de mês e o nome dele está sujo. Ele te pede duzentos reais emprestados e jura que te devolve trezentos no próximo pagamento. Você empresta. No dia do pagamento, o dinheiro tá na sua mão. Você ganhou cem reais sem fazer esforço, sem suar carregando caixa. A semente foi plantada na sua cabeça. Você pensa: eu ajudei um amigo e ainda saí no lucro! Todo mundo ganha! Ele conta para a menina do caixa que te pede cinquenta para pagar oitenta no dia do adiantamento. Você não sabe, mas a armadilha acabou de fechar no seu pé. Nível dois: o salvador da rua. A notícia corre boca a boca no bairro. Você agora tem mais de cinco mil girando. Você empresta para a dona Cleusa do salão de beleza pagar a conta de luz, pro cara do carrinho de churros comprar o gás e até para o cara que te implicava na escola. Você cobra vinte por cento de juros ao mês, é mais que o banco. Mas você não pede serasa, não pede fiador. Você só pede a palavra. Toda sexta-feira você passa recolhendo o dinheiro. Cinquenta de um, cem de outro, um. O dinheiro entra limpo. Você compra roupas melhores, troca de celular, larga o emprego no supermercado, e quando você passa na rua, as pessoas te cumprimentam com um sorriso nervoso. Você se sente um pequeno empresário, um investidor. Você ainda acha que é um cara bom ajudando quem o sistema rejeitou. Nível três: o primeiro calote. Agora você tem vinte e três anos e o dinheiro na rua já passou de trinta mil reais. Mas a matemática da rua não perdoa. João, o mecânico do bairro, te deve quatro mil e começa a te evitar. Não atende o celular, fecha a oficina mais cedo. Você percebe que se deixar passar, o bairro inteiro vai saber que você é frouxo. E o medo é a sua única garantia. Você vai na oficina com dois amigos maiores que você. Você não grita. Você fala baixo com a voz gelada que você copiou dos filmes. Você leva as ferramentas dele de garantia. As mesmas ferramentas que ele usa para sustentar a família. Ele chora, te chama de covarde, aquilo te embrulha o estômago, mas você engole a seco. Quando você chega em casa com as ferramentas, a sua empatia morre um pouco. O dinheiro não aceita sentimentos. E se você quiser continuar com seu empreendimento, tem que levar isso a sério. Nível quatro: a profissionalização. Você, aos vinte e seis anos, não é mais o garoto do supermercado. Você tem um caderno de capa preta que vale mais que a sua vida. Nele, estão anotados os nomes, as datas e os juros compostos. Os vinte por cento viraram juros diários para quem atrasa. Você não suja mais as mãos. Você contratou um cobrador, um ex-presidiário que anda de moto e não tem pena de ninguém. Agora você retém cartões do Bolsa Família com a senha colada atrás. Pega documento de moto, segura cheques em branco, tudo para sair por cima. O lucro é absurdo. Você compra um Corolla zero, aluga uma casa de meio milhão e todo fim de semana viaja para algum lugar diferente. Sua família pergunta no que você trabalha. Você diz que trabalha com finanças. Essa é uma mentira que você conta para a sua mãe e para o espelho toda manhã. Nível 5: A linha de sangue. O jogo ficou grande. Você empresta para viciado em jogo de azar, para dono de loja falida e até para policial endividado. Luiz, um cara que tentou abrir uma pizzaria, te dá um desfalque de cento e vinte mil reais. Não dá para pegar ferramentas dessa vez. Seu cobrador vai até a casa do cara. Você diz: dá só um susto nele. O susto vira um braço quebrado e um cachorro morto atirados no quintal. A esposa do Luiz liga para você chorando, desesperada, implorando pela vida do marido. Você desliga o telefone na cara dela e sente as mãos tremerem. Você cruzou a linha, não tem mais volta. Você virou o monstro que a sua mãe te ensinou a ter medo. O bairro não te respeita mais, o bairro te odeia. Nível seis: A lavanderia e a paranoia. Você tem trinta e cinco anos. Você abriu uma agência de carros usados, é só fachada para lavar o dinheiro sujo de juros extorsivos. Você movimenta milhões, compra apartamento em bairro nobre, bebe whisky importado, mas a sua vida é uma prisão invisível. Você não consegue dormir no escuro. Até comprou uma Glock 9mm no mercado paralelo e ela anda na sua cintura até para ir na padaria. Você olha no retrovisor dez vezes antes de virar a rua. Você sabe que tem pais de família que se mataram porque não aguentaram a sua pressão. Você sabe que tem gente rezando todo dia para você levar um tiro. A paranoia consome a sua alma. Cada moto que passa devagar do seu lado, faz seu coração parar. Os anos passam. O dinheiro comprou tudo, menos a sua paz. Você tem juiz no bolso, tem delegado que almoça com você e te avisa de operações. E agora você tem um grupo de quase vinte milicianos que fazem as cobranças e dão aquele bom e velho susto nos devedores. Você virou intocável para o sistema. Mas por dentro, você é um homem oco. Sua primeira esposa te largou porque não aguentava as ameaças anônimas. Seus filhos estudam em colégio caro, mas morrem de vergonha de você, porque os pais dos amigos sabem o que você faz. Você olha para as suas mãos no volante do seu Porsche e não vê sucesso. Você vê famílias destruídas, comércios falidos, sangue que ninguém consegue lavar. Você é um parasita. E no fundo, quando a insônia bate às três da manhã, você sabe que realmente é um verme. Sua família se afastou, seus amigos sumiram. Seu nome circula em grupos: não pega dinheiro com ele, perigoso, cuidado. Você virou o que mais temia: o homem que todos odeiam, mas todos procuram quando estão desesperados. Se você quer ver outras histórias desse tipo, ou outros caminhos que começam comuns e terminam longe demais, me diz aqui nos comentários. Qual o próximo mundo você quer entrar, porque a próxima história pode ser exatamente a que você escolher. Não se esqueça de se inscrever no canal e deixar um gostei nesse vídeo. Fique com Deus e até a próxima.
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