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MATEMÁTICA | TEATRO | CSI MATEMÁTICA: Cálculo Sob Investigação

CSI MATEMÁTICA: Cálculo Sob Investigação

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[1:34]Avó, avó, nem vais acreditar! Calma, Bernardo, não me deitas tudo ao chão. E fala mais devagar, que queres que eu te ouça em pé? Conta-me lá o que é que se passou. Hoje, na sala de aula, o professor de matemática fez duas filas. Uma para os espertos e outra para os burros, e eu fui o primeiro da fila dos burros. Que fixe, meu, dá cá mais cinco. Ai, que o meu menino ainda há de ser doutor. Foi isso que te deixou tão animado? Sim, avó. Fui o primeiro. Pois, estou a perceber. Senta-te aqui ao pé de mim. Deixa-me contar-te uma coisa. Josefina, sim, vai preparar um lanche para o rapaz. Diz, avó. Bernardo, penso que percebeste mal as coisas. Não, avó, foi mesmo o primeiro. Achas que te estou a mentir? Não, Bernardo, que disparate, eu sei que não és um mentiroso, mas o teu entusiasmo não tem razão de ser. Não tem, avó? Não tem. Podes ouvir-me um bocadinho? Não me deixas acabar de falar. Não entendes o que eu digo, pode ser? Pode, avó, desculpa. Diz-me lá aquilo, então, que eu não entendi. Bernardo, quando o professor fez duas filas, ele quis distinguir os alunos mais espertos daqueles que não aprendem, que não se esforçam e que não estão atentos nas aulas. Por isso, os apelidou de burros. E o que quer isto dizer, Bernardo? Que não era o que eu pensava. Exato. Tu foste colocado na pior fila. E isso não é motivo de orgulho ou satisfação. Quer sejas colocado em primeiro ou em último da fila. Entendes, Bernardo? Entendo. Fui colocado na fila dos piores. Sinto-me humilhado. Isto quer dizer que tens de estudar mais. A matemática é uma disciplina de trabalho, de concentração. Não podes brincar.

[3:41]Acabou. Não quero ouvir mais falar em matemática. Não me importa o que os outros digam, ou nas filas é que me metam. Acabou. A partir deste dia, a matemática deixou de existir para mim. Não preciso dela, nem dos problemas que me traz. Não sei, nem quero saber mais da matemática.

[5:16]Bom dia a todos, eu sou a Beatriz e sou a vossa nova professora de matemática. Muitos de vós, e pelo que já percebi, não dão grande importância a estas aulas. Muitos até se questionam qual é a aplicação da matemática. Importa-se? Desculpa, Beatriz. Para que serve, se nos dias de hoje, basta comprar uma máquina de calcular, ou se o computador nos dá todas as respostas? Mas não, a matemática é tudo. E com o tempo, vão aprender isso e arrependerem-se de a ter ignorado. Estejam atentos. A vida é matemática. Sem ela nada existia. Ó, doutora, não me diga que a matemática está em todo o lado. Cala-te, Bernardo! Lá estás tu com as tuas observações parvas. Vê lá se cresces. Estás a caladinha, marrona, que a conversa não é contigo. Sim, ó caixa de óculos, vira-te mas é para a frente. Meninos, vamos lá acalmar-se, façam favor. Sim, Bernardo, a matemática está em todo o lado. Menos na tua cabeça. Mas sim, a matemática está em todo o lado. Quê? Em todo o lado? Sim, em todo o lado. Até no quintal da tua avó. Ah, doutora. A minha avó nem tem quintal.

[6:44]Não ligo, professora. Com o tempo habitua-se a estes três patetas. Meu caro Bernardo e companhia, a educação não está em casa. Um aluno tão bom como tu, a todas as disciplinas e tão mal a matemática.

[7:05]Nem queria acreditar quando me disseram isto. Fiquei surpreendida, sabes? E o teu antigo professor também. Disse-me que não te conseguia fazer prender a atenção. Talvez tirado mais companhias, disse ele. Pois bem. Como não gosto de ter ninguém satisfeito na minha turma, vou lançar-vos um desafio. Tens uma semana para me mostrar aonde a matemática não existe. Se conseguires, dispenso-te das aulas até ao final do ano. O que me dizes, Bernardo? É tão simples quanto isto. Vai ser canja para ti, Bernardo. Ya, meu, mostra lá a nova doutora quem é que manda aqui na turma. E já que aqui a rapaziada também está tão animada com a ideia, alargos também o desafio. O que me dizem? Mostrem-me lá aonde a matemática não existe, e eu dispenso-vos aos três até ao final do ano. Está-se, doutora. Amanhã já trazemos isso. Que fixe. Isto é que vai ser "Dolce fare niente".

[9:18]Olha quem são eles aqui à frente! Bernardo e companhia. Não digam que os lugares lá atrás já estavam ocupados. Não, senhora doutora. A partir de hoje, este será o meu lugar. O meu também. Até tu, Luísa? Hum. Alguma coisa se passou. Eu agora também não arredou o pé daqui, senhora doutora, porque estive em casa da nossa avó e vi aquele senhor pregado no sinal mais, e com um ar de sofrimento, eu nunca mais vou gozar com a matemática. A sério? Muito nos dizem, mas querem dizer-nos algo mais? Algo relacionado com a matemática. Ou não? Não, não, não, espera. Não me digam que é encontraram no quintal da avó do Bernardo.

[10:06]Desculpa, Bernardo, a tua avó não tem quintal. Não brinque, doutora. Também sei reconhecer quando perco ou erro. Estamos aqui sentados hoje porque temos algo a dizer-lhe. Muito bem, venham lá, então, essa novidade. Não é novidade, pelo menos para si. A matemática está mesmo em todo o lado. Tinha razão. Perdemos o desafio. Mas sabe o que mais? Estamos entusiasmados com isso. Sim, senhora doutora, é verdade. Ah ah ah. Vieram mesmo que acreditemos que, pela primeira vez, os três taralhocos da turma fizeram o trabalho de casa que a doutora de matemática vos mandou. Há de ser tão verdade como eu chamar-me Carlota. Calma, Maria. Vamos ouvir o que os teus colegas têm para nos contar. Vá, contem-nos, pois estamos curiosos. Como o descobriram isso? Quais foram os indícios que vos levaram a essa verdade inquestionável? Para falar a verdade, foi assim que acabou a aula. Quando saí, a minha avó estava à minha espera.

[11:11]Quando entrei no carro, reparei que o cinto estava torcido. E pensei em voz alta: «Mal, mal. Ainda agora a minha viagem começou e já cá está a maldita matemática outra vez. A famosa fita de Moebius. Deve-se por o cinto se desgastar de um lado e do outro. A minha avó não percebeu. Eu expliquei-lhe que a fita de Moebius é uma superfície não orientável. Ou seja, se podemos caminhar sobre ela, quando chegarmos ao ponto de partida, estamos numa imagem refletida da superfície. As suas aplicações vão desde a física à biomedicina. Mas claro, a minha avó estava atenta à estrada e nem ouviu o que eu disse. Esta coincidência fez-me procurar e pensar ainda mais. Então, enquanto ia a caminho de casa, olhava para um lado e para o outro, para dentro e para fora do carro, e lá estava a maldita matemática. Em tudo o que havia sido construído pelo homem. Números, círculos, polígonos, segmentos de reta, padrões, simetrias, sólidos. Todas aquelas balelas que eu lia nos livros de matemática e que devorava às escondidas. Ah, então o nosso amigo Bernardo interessava-se pela matemática. E eu a pensar que não queria saber disto para nada. Isso é outra história, doutora. Mas continuando, em relação ao desafio que propôs, pensei, isto não vai ser assim tão fácil. Vai demorar mais do que eu imaginava. Tentei com as letras, mas não resultou. Lembrei-me do método de... Do método de Gardner, em que ao após riscar-mos todas as letras com simetria vertical, obtemos uma aproximação ao número PI. Maldita matemática! Muito bem, uma boa associação. No dia seguinte, encontrei-me com a Rita e com a Luísa e contei-lhes a minha experiência matemática. E foi aí que pensei que, certamente, seria fácil provar a não existência da matemática na natureza, visto que não foi feita pelo homem. Fomos até à casa do Bernardo, sentámos-nos à frente do computador e pesquisámos no Google. E, para o nosso espanto, lá estava a matemática no Google, se pensarmos que um Google é uma unidade seguida de 100 zeros. Com isto, e durante dois dias, lemos tudo, mas tudo mesmo que conseguimos relacionado com a matemática. Pesquisamos milhares e milhares de páginas na net, e não, colegas, não jogámos uma única vez Fortnite, juro-vos. Ok, ok, eu joguei, mas foram só 10 minutinhos. 20, vá. Os resultados foram incríveis. Praticamente tudo o que existe, segue os mesmos padrões geométricos. A concha de um náutilo. A distribuição das sementes de um girassol. O corpo humano. A formação das nuvens de um furacão e até as disposições das estrelas de uma galáxia. Tudo leva até à mesma sequência de números de Fibonacci. 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21. Cada elemento, a partir do terceiro, é obtido somando-se os dois anteriores. É a mesma que define a proporção áurea, e que representa a mais agradável proporção entre dois segmentos ou duas medidas, em que o valor aproximado é de 1,618. Este número irracional é considerado por muitos o símbolo da harmonia. Podemos encontrá-lo na Grande Pirâmide de Gizé e no Partenon de Atenas. Parece que o autor, ao terminar a sua obra, quis deixar a sua assinatura em cada obra criativa. Como tínhamos passado tanto tempo na net, decidimos fazer uma pausa e relaxar. E sentei-me a tocar no piano de cauda da minha avó.

[15:07]Suspiramos fundo. Ah, finalmente longe da matemática. Mas não, estávamos enganados. O formato do piano de cauda tinha a ver com logaritmos. Observámos o teclado do piano durante alguns segundos, e lá estava. Uma oitava tem duas teclas pretas, três teclas pretas. Dois mais três, cinco. Teclas brancas são oito. Oito mais cinco, 13. Dois, três, cinco, oito, 13. A sequência de Fibonacci novamente. E pensei, meu Deus. Será que a doutora de matemática tinha mesmo razão e o raio da matemática está mesmo em todo o lado? Ah, Deus é isso. A matemática não tem nada a ver com Deus. Bora lá investigar a Bíblia.

[16:00]E fomos até a uma pesquisa rápida no Google. E lá estava. Primeiro livro de Reis, 7, versículo 23: fez mais o mar de fundição de 10 côvados, de uma borda até à outra borda, redondo ao redor e de cinco côvados de alto e um cordão de 30 côvados o cingia ao redor. A primeira referência ao valor de PI aparece na Bíblia. Esta é a nossa história, doutora. Afinal, tinha mesmo razão. A matemática está em todo o lado. Rendemo-nos perante tais evidências. A doutora tem aqui três alunos atentos e empenhados. Que esta seja uma lição para todos nós. Está na altura de aprendermos. Sim, meninos, parabéns pelas vossas conclusões. Certamente que aprendemos todos uma lição.

[33:53]Bernardo, e com o tempo, Maria tornou-se a melhor amiga de Bernardo. Infelizmente, a avó de Bernardo falecera há algumas semanas.

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