[0:03]Um Brasil poliglota que mistura etnias e culturas. Na Amazônia, as tribos indígenas resistem à invasão cultural do homem branco e lutam para a preservação da tradição. Os repórteres Marcelo Canelas e Lúcio Alves percorrem a maior floresta do mundo e revelam a força dos povos da Amazônia.
[0:35]A Torre de Babel fica na Amazônia. Eu falo tucano. Eu falo piratapuia. Eu falo toyuca. Quantas culturas?
[0:49]Cada etnia tem sua própria língua, sua sua própria cultura. Estamos no noroeste do estado do Amazonas, na região conhecida como cabeça do cachorro. Aqui vivem 23 povos indígenas e existem ainda 18 línguas vivas, faladas correntemente até no rádio. Aliás, 19, porque essa aí é o Iengatu. O idioma inventado pelos jesuítas no século 18, com base na língua dos Tupinambás para evangelizar os índios. O Iengatu é um dos quatro idiomas oficiais de São Gabriel da Cachoeira, o único município quadrilíngue do Brasil.
[1:36]Não há no país nenhum outro lugar com tantos poliglotas por metro quadrado. Quantas línguas falam o índio baniua Luiz da Silva? Uma, baniua. Duas, Tucano. Três, o Anano. Quatro, o Bube. Cinco, Kuripaco. Seis, Uerequena. Sete, Nengatu. Oito, espanhol.
[2:21]E ele ia esquecendo mais uma. E tá faltando o português. É português. É, não pode falar português porque não sei.
[2:37]Quando aprendeu português com os padres, o Tucano Lauriano Maia achou que podia esquecer o idioma de sua tribo. Poxa, e agora? Como é que a gente vai ficar sem nada, sem cultura, sem mito, sem história? Onde então guardar a língua que explica os mitos do povo? Nem papel nem lápis. Nada, nada, não tinha nada. Nossa ponta de lápis, aqui. O Tucano. Ah, o Tucano. O Tucano. Lauriano então conheceu o Jotsson, um adolescente cheio de perguntas. Qual é a minha etnia? Onde que eu pertenço, onde que nós surgimos? Então resolveram juntos explicar a origem do mundo pelo mito Tucano da criação. E salvar ao mesmo tempo língua e cultura num livro de verdade. Naquela época não existia água, não existia árvores, não existia terra. De acordo com o mito Tucano, onde hoje é a Baía de Guanabara, Deus criou uma cobra canoa. No ventre dela nasceu a humanidade. Dentro, dentro do ventre dessa cobra, haviam vários grupos étnicos, né? que iam subindo. Eles foram, né, fazendo trajeto a, no litoral brasileiro, né? E chegando perto da Ilha de Marajó, né, eles vieram, entraram, né, no Rio Amazonas. Então eles vieram subindo até chegar no Rio Uapé, né, na Cachoeira de Panuré. como o índio, o negro, o branco. É lá que surgiram. O livro todo escrito em tucano foi impresso numa gráfica de São Paulo. Enquanto que o índio estiver vivo, né, a cultura não vai acabar. Porque vai estar dentro de nós mesmo.
[4:38]Amanhã vamos mostrar um objeto que é um símbolo de sabedoria entre os povos da Amazônia. Um banco de madeira é o símbolo espiritual de uma tribo lá na Amazônia. O objeto sagrado é talhado no tronco de uma árvore rara, difícil de ser encontrada até mesmo na floresta, né? E os repórteres Marcelo Canelas e Lúcio Alves mostram agora como a arte religiosa se mantém viva na cultura dos índios tucanos. O bastão de ritmo golpeia o chão.
[5:15]A dança do Capu Ayá reproduz a narrativa mítica da criação do mundo. Foi com um bastão desses que Deus criou a terra no espaço vazio. Mas na mitologia dos índios tucanos, um banquinho de madeira também faz parte do elenco de objetos sagrados. A simbologia tucana, o banco, é para nós, para ser o símbolo dos tucanos, ele, ele dá o poder de autoridade. Dá o poder de um grande, grande pensador, e ter uma grande responsabilidade. Os tucanos dizem que Deus estava sentado num banco igualzinho a esse quando resolveu criar o homem. Só que o banco de Amanco Yecan, o avô do universo em tucano, era de quartzo e foi feito num piscar de olhos celestiais. Fazer um desses, mesmo uma imagem de Deus, dá um trabalão danado. A começar pela procura da madeira, nem sempre disponível perto de casa. Estamos navegando no Rio Tiquié, no noroeste do estado do Amazonas.
[6:21]Já era. Tá bem logo ali. Os índios estão à procura de uma parente da seringueira. E ela está no meio da mata, assim, longe do rio? Esse é um pouco difícil, né? Porque, em tempos atrás, ele foi muito atacado, né, no tempo de borracha, assim. Ah, sim, sim. Tem esse esse pé aqui, né? Isso. É a soveira, árvore de madeira macia. O manejo é rigoroso e tem autorização da FUNAI e do Ibama. A gente coloca, se ela está crescendo ou não, se ela está está está em tempo de frutificação, de floração. Entendi. Então vocês fazem um mapeamento na mata de onde estão as árvores, né? E qual é que é a capacidade produtiva delas? É, o objetivo é essa, né? Daqui a pouco a soveira será retalhada. Essa aqui, por exemplo, quantos bancos você acha que dá para fazer com ela? 20 bancos pequenos, né? De 30 cm. Então vai render bastante isso aqui? Vai.
[7:36]Artesanato fino com um trambolho barulhento. Como se a motosserra fosse um formão, os bloquinhos de madeira vão sendo retirados um a um.
[7:59]O artesanato que faz dos tucanos os grandes mestres do entalhe do Alto Rio Negro é feito a machadadas. Os banquinhos são esculpidos nos blocos de madeira maciça. Mestre Celestino vai fazendo o Pamari Rori, o delicado desenho que reproduz no assento, a pelagem dos animais da floresta. É um dia inteiro para fazer um banco.
[8:34]Celestino vem de uma linhagem de artesãos tucanos. A família dele faz bancos há incontáveis gerações. O meu pai, ele aprendeu com o pai dele, né? Você aprendeu com o seu pai? Já eu aprendi com o meu pai. E o seu filho aprendeu com você? É, meu filho aprende comigo.
[8:54]O pai de Celestino, Aprígio, diz em tucano que o banco de Deus torna um homem sábio. O homem que senta pensa. Ainda não dá para ganhar dinheiro, embora os bancos tucanos já tenham sido até vendidos em shoppings de decoração de São Paulo. Mas os índios pensam em incrementar a produção. Nós temos que buscar nossa autonomia, né? Essa autonomia tem que partir da gente. Nós temos que trabalhar, é, produzir, vender e ter nossas coisas.
[9:41]Os brancos são os invasores e os índios, os donos da terra. Esse é o ponto de partida para um choque de culturas lá na Amazônia. Os repórteres Marcelo Canelas e Lúcio Alves contam agora uma história de conflitos e amizades no meio da floresta.
[10:06]Os militares fazem de tudo para agradar. Os índios se desdobram em presentes e mesuras. Mas um abismo cultural impede o entendimento. Ou porque os índios parecem insensíveis. Não expressam, é, nada, nenhum sentimento. Eles não se apegam muito, é, a esse lado sentimental. Ou porque os brancos parecem superiores. Eles não aceitam, porque pensam que eles são melhores e pensam que eles sabem mais. Ou porque um e outro nem sempre são o que parecem. Até você descobrir, é, que você está ofendendo, que você está fazendo alguma coisa que, que está desagradando. Você já fez, já terminou de fazer. Talvez o grande símbolo da incompreensão mútua e da difícil relação entre brancos e índios seja esta pedreira aqui. Ela foi dinamitada pelos militares que queriam uma matéria-prima para construção da pista do aeroporto de Uarettê. Só que sem saber, eles mandaram pelos ares a pedra sagrada dos índios Tariano. Os índios ficaram furiosos. Primeiro porque o aeroporto está no caminho da roça. Construíram um aeroporto grande aqui, para quê? E depois porque a aeronáutica, a responsável pela obra, até consultou alguns líderes indígenas e evitou alguns locais sagrados. Mas não todos. A questão toda é que nós não somos uma única tribo, né? Nós somos várias tribos e cada uma delas tem o seu modo de compreender cada local desses. Prós militares entenderem isso deve ser complicado, né? Complicadíssimo. Chegou peixe novo, turubi em R$ 7. É difícil se entrosar. Mas é do costume deles, né? Eles têm um, a gente tem outros, né? Mesmo depois de 36 anos de convivência diária na feira de São Gabriel da Cachoeira. É o caso do cearense José Feitosa. Eles acham que a gente veio para cá para enricar, para tomar o que é deles. Feitosa já desistiu de se acostumar. Eles ficam para lá, a gente para cá e vai levando. Com este outro nordestino não foi bem assim. Dentro de mim eu via que eu com ela nós ia ter um futuro e construiu uma família, né? Mal conheceu a índia Clara, o paraibano Vicente foi pedir a mão dela. Você tem certeza que quer casar com minha filha? Essa índia aqui é braba. A bronca da sogra deu em casório. Pronto, Santo remédio. E a família foi crescendo, com filhos e filhas, com genro vindo do sul, netas mestiças. Dá um cheiro no vovô, dá um beijo no vovô. Pronto, né? E a ideia de que o Brasil é vocacionado para a mistura. Isso que é o bonito, né? Tem uma diversidade grande de de raças, de etnias. Que se o mundo fosse todo igualzinho não seria bonito. Bonito é o diferente. Se a gente consegue tolerar a diferença e consegue conviver bem, né? Todo mundo tem a ganhar. Para o alemão Peter, o país assim era coisa de cinema. Como o que ele viu no filme Iracema, que passou na TV alemã. Aí eu vi esse mato, e essa floresta tudo, aí eu gostei. A as indígenas, a floresta, os rios, os lagos. Viver no Brasil virou ideia fixa. Importância na cabeça, ninguém me tirou. Nem a minha mãe, nem o meu pai, nem ninguém. Largar emprego, família, mudar radicalmente de vida. Mas quem disse que ele estranhou? Logo fez amizades e algo mais. Ela estava lá com uma amiga dela. Aí eu sentei numa mesa ao lado, né? Aí estava olhando. Danusa se apaixonou pelo gringo que gostava de índio. Sempre apoioi os índios, né? E eu sou uma índia e tenho orgulho de ser índio. O marceneiro Peter casou e quis casa que ele mesmo fez. Ninguém se lembra se ela é índia, se ele é alemão. Em São Gabriel da Cachoeira todos sabem. Nesta casa vivem um homem e uma mulher. Isso é felicidade. Um tem que respeitar a cultura do outro. Esse apaixonado e vai.



