[0:00]Muitas igrejas possuem a prática de disciplinar publicamente pessoas em pecado. Você cometeu um pecado, você cometeu um erro, logo você vai ser exposto na frente de todo mundo. E um texto muito utilizado para basear isso é um texto de Paulo em que ele ordena que todos aqueles que estão em pecado sejam expostos publicamente. O texto parece nos indicar que pode ser qualquer um da congregação que esteja em pecado contínuo ou presbíteros que estejam pecando. Primeira Timóteo 5:20 diz exatamente o seguinte: Quanto aos que vivem no pecado, repreenda-os na presença de todos, para que também os demais temam. A grande questão aqui é: quem são os que vivem em pecado? Se refere aos presbíteros, isso é, os presbíteros que vivem em pecado ou se refere a qualquer um da igreja que esteja pecando? É isso mesmo que diz o texto? Ou o texto diz outra coisa? A quem Paulo estaria se referindo em Primeira Timóteo 5:20?
[0:56]Pra gente discutir um pouco essa questão de expor as pessoas publicamente, a gente tem que olhar um pouco para o grego, do que significa os que vivem em pecado. Os que vivem em pecado, aqui no grego, é uma palavra só: hamartanontas. Hamarta é uma palavra que você conhece, se você conhece aí um pouco de grego bíblico, você sabe que tá ligado à palavra pecado. Você deve lembrar de hamartia. Essa palavra aparece aqui como um particípio precedido pelo artigo tus. Segundo os comentaristas, se um particípio é precedido por um artigo, ele é adjetival. Ou seja, funciona como um modificador atributivo. Passa a significar uma atribuição, algo que caracteriza aquele indivíduo. Ou então, como um substantivo, como a própria forma de descrever aquele personagem. A gente sabe que vai ter uma função de adjetivo se ele tem uma relação com outro nome no mesmo caso, gênero e número. Então, eu tenho aqui um substantivo, tenho pessoa, e então quando o participio aparece ali do lado, você está adjetivando. Ou ele pode aparecer sozinho, sem modificar nenhum outro nominal, e aí ele seria por si só um substantivo. Algumas pessoas olham para esse texto e, muito claramente, já atribuem ele aos presbíteros. Ora, Paulo está falando sobre presbíteros quando fala sobre os que pecam, então, certamente está falando sobre presbíteros que vivem em pecado. No entanto, tem uma questão gramatical aqui que nos impede de dizer isso de forma tão direta. Por mais que eu acredite que essa seja realmente a melhor interpretação. Mas o ponto é que, gramaticalmente, Paulo não está fazendo uma relação direta entre os que pecam e os presbíteros. Deixa eu explicar isso olhando um pouco para o grego aqui do texto. No nosso texto, presbíteros está no caso nominativo. Portanto, os que pecam, aqui no grego, não estaria como modificador atributivo de presbíteros. Isso não quer dizer que a palavra não possa se referir a presbíteros, mas somente que não há uma direta relação gramatical aqui. Ou seja, gramaticalmente, nós não temos estabelecido de cara, quem são esses os que pecam. Porque se houvesse aqui uma relação gramatical fácil, já matava a questão, já acabou, não tem que apelar para mais nada para contexto. A gramática já solucionaria o nosso problema. Agora, não pense que a questão gramatical resolve todas as questões interpretativas. Às vezes, a gente, com um pouquinho só de grego, acha que a gramática é tudo, que a gramática resolve todas as questões. Mas não é isso. A gente não olha só para a gramática para saber exatamente o sentido das relações sintáticas e lógicas dentro de uma passagem. Se a gramática não resolve o nosso problema, temos que olhar para a lógica e para o contexto do que está sendo estabelecido aqui. Como o presbítero aqui no grego é o referente mais próximo, logo, logicamente, contextualmente, é mais provável que o verso 20 esteja referindo também aos presbíteros. É por isso que há essa ambiguidade a quem Paulo se refere aqui. Alguns comentaristas, como John Stott, como Thomas Lea, como Hayne Griffin e o próprio Gordon Fee, defendem que, apesar de não haver uma relação direta de atribuição, gramaticalmente aqui, por causa da diferença dos casos, nominativo e acusativo aqui, o referente mais próximo é os presbíteros. Por isso, Paulo ainda estaria falando deles. Lee e Griffin dizem que, apesar de não haver menção direta aos presbíteros no versículo, é uma dedução muito natural pelo contexto que ele lida com presbíteros e que presbíteros que pecassem era preocupação de Paulo. O Gordon Fee simplesmente presume que Paulo continua a se referindo aos presbíteros e que nos versos 19 e 20, ele dá dois direcionamentos. O primeiro é que nenhuma acusação, sem suporte de outros, deveria ser feita contra um presbítero. O segundo é que eles deveriam ser repreendidos em público, isto é, diante da congregação. A lógica do Gordon Fee para concluir que o verso 20 se refere aos presbíteros, parece ser a seguinte: Primeiro, Paulo fala daqueles que merecem dupla honra (v.17-18); Em segundo lugar, ele fala que as denúncias contra os presbíteros não podem ser isoladas, mas devem ser feitas com mais de uma testemunha. Em terceiro lugar, considerando que o depoimento das testemunhas é verdadeiro, os presbíteros que pecam (μαρτάνοντες) devem ser repreendidos diante da congregação. Se seguimos essa lógica do Gordon Fee, nós vemos que ele trabalha com os opostos. Os presbíteros que trabalham bem e por isso são dignos de dupla honra, e os presbíteros que pecam e por isso devem ser repreendidos diante da congregação. Os comentaristas Kent Hughes e Bryan Chappell seguem essa lógica porque afirmam que havia líderes em Éfeso que eram dignos de dupla honra porque faziam o seu trabalho com integridade. Infelizmente, havia outros que estavam falhando, e assim, Paulo trata da questão da disciplina a tais líderes. Towner também concorda que Paulo está se referindo aos presbíteros aqui quando ele diz que a implicação é que, de fato, havia um problema vigente na comunidade envolvendo presbíteros que pecam. E sugere que a denúncia feita por mais de uma pessoa não surtiu o efeito de arrependimento, tendo chegado ao ponto da repreensão pública. Ele diz que, apesar da identificação precisa dos atos que se constituem como pecado, nesse caso, seja possível, a linguagem de Paulo categoriza o comportamento em termos de descrença e rebelião contra Deus. Ou seja, segundo esses teólogos, Paulo não se referiu a um grupo de pecadores em geral na igreja que vivem em seu pecado, mas ainda se refere aos presbíteros. Agora, por mais convincente que seja essa posição, nem todos os teólogos seguem exatamente a mesma perspectiva. E alguns argumentam, com base em uma leitura diferente da estrutura aqui do texto, que Paulo está fazendo uma divisão entre presbíteros e os pecadores. De que ele tratou de presbíteros antes, agora ele está tratando de uma outra comunidade cristão de forma geral que são pecadores. Essa, por exemplo, é a posição do Raymond Collins, que diz que Paulo não está se referindo aos presbíteros mais, mas agora a um grupo de pessoas na comunidade que está vivendo em pecado. Para ele, depois de ter algo a dizer sobre homens e mulheres idosos, então homens e mulheres jovens, viúvas e então presbíteros, agora ele está tratando de um outro grupo na igreja que seriam os pecadores. Por isso, Timóteo deveria ter grande responsabilidade com aqueles que continuam em pecado na comunidade. Uma vez que esse grupo continua em pecado, ele deve ser levado diante da comunidade para que outros temam a Deus e evitem pecar da mesma forma. Para Collins, tão grande é o peso do pecado que ele convoca o Pai, Cristo e os anjos para que o julgamento seja feito sem parcialidade ou discriminação e que Timóteo não deveria ter pressa em impor as mãos sobre alguém. Impor a mão aqui significaria, pelo menos, duas coisas: ou a ordenação de presbíteros, ou a readmissão de pecadores. O Collins mostra que o gesto simboliza uma transferência de poder como parte de um ritual de ordenação. No Novo Testamento, o gesto pode simbolizar cura, bênçãos, confirmação com o dom do Espírito Santo, ou mesmo o comissionamento para alguma função na igreja. Assim, ele vai dizer que os argumentos em favor da imposição de mãos como um ritual de comissionamento, é o fato dessa perícope tratar do direito dos presbíteros. Aqui, no caso, Timóteo era o líder da comunidade, e ele tinha responsabilidade com esses pecadores arrependidos que receberiam imposição de mãos. Ele não deveria impor as mãos precipitadamente para que não participasse dos pecados dos outros. A imposição de mãos aqui, então, seria um simbolismo de perdão e reconciliação similar à imposição de mãos para cura ou batismo. Ele vai dizer que no mundo judaico, doença era geralmente vista como punição de Deus. A imposição de mãos conferiria cura e simbolizaria o perdão. O batismo cristão, com a imposição de mãos, era o batismo para a remissão de pecados. No contexto, então, a imposição de mãos, que aparece no versículo 22, é um gesto de perdão e reconciliação. Por isso que, a partir daí, Paulo faz uma pequena digressão para se dirigir a Timóteo, que deveria cuidar de si, tanto espiritualmente, quanto fisicamente. E nos versos 24 e 25, volta a tratar dos pecados e das boas obras. Paulo compara um com outro, dizendo que há boas obras e há pecados que se fazem evidentes enquanto outros se revelam posteriormente. Essa revelação pode ser tanto diante de Deus, na volta de Cristo, quanto ainda em vida. Ou ainda as duas coisas, porque elas não são necessariamente mutuamente excludentes. Isso é, alguns pecados podem ser escondidos por um tempo e se tornarem evidentes em vida depois de um tempo. E mesmo assim, ainda haver pecados escondidos que somente serão revelados diante de Cristo. A mesma coisa pode ser dita sobre as boas obras. Algumas logo se veem, enquanto outras não poderão ficar escondidas, seja em vida, seja aquelas só se revelarão diante de Cristo. Claro que nem todos vão concordar com essa leitura e vão argumentar que, na verdade, o que você tem é Paulo falando sobre impor as mãos de presbítero, seja para restabelecê-los ao presbitério, seja como uma cautela inicial. Olha, cuidado com os homens pecadores, gente que você vai acabar tendo que repreender em público quando você ordenar o ministério anteriormente. Enquanto Collins interpreta que Paulo está retomando o argumento para o grupo dos que pecam como uma advertência de que não adianta esconder os pecados. Gordon Fee argumenta que Paulo agora retorna a questão dos pecados dos presbíteros e de não se apressar em impor as mãos. No caso, ambos os argumentos se enlaçam ao grau de convencimento e nenhum dos apresentados fere necessariamente algum princípio bíblico. No entanto, os versos 24 e 25 parecem reforçar que, no verso 20, Paulo ainda esteja se referindo aos presbíteros por causa da seguinte lógica: V.17 - Presbíteros que presidem bem; (a) v.20 - Presbíteros que pecam; (b) v.24 - Pecados; (b') v.25 - Boas obras. (a') Ou seja, os versos 24 e 25 retomam o comportamento dos presbíteros em 17 e em 20. É claro que também pode-se argumentar, seguindo Collins, que 24 e 25 tratam de pecados e de boas obras em geral. Mas eu acho que a estrutura que a gente sugere aqui parece ser mais coesa na argumentação de Paulo, porque ele é claro quando fala tratando com as viúvas mais velhas e as mais novas. Ele também é claro no tratamento dos jovens, sejam homens ou mulheres. E no capítulo 6, ele nomeia claramente como os servos devem se portar diante dos seus senhores. Quer ele tenha senhores crentes ou senhores descrentes. Portanto, seria estranho que Paulo não deixasse claro que está falando especificamente de um grupo dentro da igreja que estivesse em pecado, se ele tivesse lidando com um grupo diferente dentro da igreja que está vivendo em pecado, diferente do grupo que ele está falando agora. Me parece confuso que Paulo misture esse grupo aqui no meio dos presbíteros se não fosse o mesmo grupo dos presbíteros. Em segundo lugar, Paulo vem tratando de grupos específicos dentro da igreja, e em 6.1-2 também. Seria no mínimo estranho que em 5:20-25 ele falasse de um grupo que não é exatamente específico, isso é, aqueles que pecam. Que grupo é esse? Ele fala de jovens, de senhoras, de adultos e tal, e do nada, aqueles que pecam, é muito genérico. Se de fato Paulo quisesse trabalhar aqueles que pecam, isso é uma generalização de todos aqueles que fazem parte da igreja em algum nível, os senhores, senhoras, moças, rapazes, os servos, ele teria que deixar isso um pouco mais explícito. Seria mais lógico que o trecho de 5:20-25 viesse depois de 6:1-2, então, porque serviria como um arremate para todos aqueles que fazem parte da congregação: senhores, senhoras, rapazes, moços, presbíteros, os servos, e então os dentro desses que estão em pecado. Agora, talvez haja um ponto bíblico a ser considerado aí. Se todos aqueles que pecam devem ser trazidos à frente, a gente tem que calibrar isso bem com Mateus capítulo 18. Onde o irmão pega em pecado, quando você arrepende, aquele pecado fica restrito entre você e aquele irmão. Se ele não te escutou, você vai chamar uma ou duas pessoas, um pouco mais de pessoas para poder conversar e então aquilo se expõe um pouco mais. É apenas em caso de pecado não arrependido, quando você chama ao arrependimento e a pessoa não se arrepende, aí sim você chama a igreja e expõe a igreja. Se nós não estamos falando de presbíteros, estamos falando de membros comuns, é importante lembrar que a exposição dos pecados de membros comuns só acontece depois de chamadas constantes, frequentes, repetidas ao arrependimento que não acontecem, que não são acatadas e aí sim há uma exposição pública. Não faz sentido que pessoas comuns sejam expostas na igreja por qualquer pecado, porque senão qual é a função da igreja? Nós vamos pecar com frequência. A igreja está ali para nos exortar e nos corrigir. Se nós formos expostos em cada pecado que cometemos, e aí tem que estar expondo a igreja inteira o tempo inteiro que estamos pecando o tempo inteiro. O que é que é exposto? É o pecado não arrependido depois de constantes chamados ao arrependimento. Então, se você vai ler Primeira Timóteo aqui como falando de cristãos comuns, você tem que calibrar isso com Mateus 18. São questões comuns. Mas em que momento do chamado arrependimento? É apenas depois de serem chamados constantemente para largarem o seu pecado. Porque senão, a gente vai criar um ambiente altamente abusivo nas nossas comunidades, expondo pessoas o tempo inteiro sem nenhuma necessidade. Agora, se você interpreta como falando de presbíteros, a gente tem uma coisa um pouco diferente, onde o pecado dos presbíteros, quando é um pecado que realmente ele desqualifica para o presbitério, ou um pecado não arrependido, isso certamente tem que ser exposto, o que é a cultura contrária ao que a gente encontra em muitas igrejas por aí. Onde pastores têm outras famílias, têm outros filhos, adulteram, roubam, não, vamos proteger a igreja. Vamos proteger a igreja, não vamos contar. Vamos proteger a igreja e ninguém vai saber. Proteger a igreja é ser aberto sobre a vida moral daqueles que lideram a igreja. Não contar para a igreja os pecados dos pastores não é proteger a igreja, é proteger os pastores. Proteger a igreja é deixar aberta, certo, a vida moral daqueles que se tornaram inaptos ao ministério por causa de uma vida de pecado. É por isso que eu sigo entendendo que 5:20-25 se refere inteiramente aos presbíteros e a forma como os que presidem bem e os que pecam devem ser tratados. Ao dar dupla honra aos que presidem bem, haveria encorajamento tanto para os que já presidem, para que eles presidem ainda melhor, quanto para despertar a congregação que outros venham a se tornar presbíteros. Por outro lado, a repreensão pública, sem parcialidade, sem discriminação, serviria como um alerta para todos, e para despertar o temor do Senhor em toda a congregação. Uma vez que presbíteros devem ser modelos, o seu bom trabalho deve ser honrado como um comportamento a ser copiado e o seu pecado tratado para que nenhum outro membro peque igual. Diante dos falsos mestres e da falsa doutrina que surgiram e, em contraposição, a boa doutrina que Timóteo aprendeu e deveria ensinar, a honra para os bons presbíteros e a disciplina para os presbíteros pecadores é imprescindível para manter a santidade da igreja. Um falso mestre poderia se passar por um presbítero e influenciar que outros sigam suas falsas doutrinas e imitem seus pecados. Por isso era, e ainda é fundamental, que presbíteros que pecam sejam trazidos à frente da congregação para que haja temor a Deus, porque o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Essa é a exortação final de Salomão sobre como viver a vida debaixo do sol. Não é para expormos todo mundo que cometeu algum pecado, ou que está em pecado, mas existe exposição para aqueles que estão vivendo sem arrependimento, para aqueles que são em posição e liderança porque representam de fato o povo de Deus. Não faz sentido que presbíteros em pecado tenham seus pecados escondidos, conservados pela igreja. Eles precisam ser expostos, o pecado da liderança tem que ser posto a público para que o povo de Deus se proteja do mal. E você, o que é que pensa disso? Não deixe de comentar aqui embaixo pra gente continuar essa discussão. 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