[0:00]E hoje aqui no estúdio recebo o professor e historiador Leandro Carnal. E nós vamos falar sobre ética no ambiente de trabalho. Seja muito bem-vindo ao nosso programa. Muito obrigado. Bom, primeiramente eu gostaria de começar a nossa entrevista com o senhor explicando o que é ética. Bem, ética faz parte da filosofia, uma parte que estuda valores, valores que permitam a convivência harmônica, a busca entre o bom e o belo, a busca da vida política, ou seja, como diz Aristóteles, a vida na polis. Ou seja, ela rege a capacidade que eu tenho de estabelecer sociabilidade, sociedade, relações sem a destruição do outro, sem a invasão do espaço do outro e sem a imposição dos meus valores sobre o outro. E por que se preocupar em aplicar a ética também no ambiente profissional? O ambiente profissional é um ambiente por excelência ético. Naturalmente, também a ética na família, a ética na grande convivência política. Mas o ambiente profissional é o ambiente mais claro, onde as pessoas estão sem terem a mesma intimidade familiar e o mesmo distanciamento da grande política. Logo, é no ambiente de trabalho que eu exerço algo acima da afetividade da família e abaixo do grande distanciamento político. Talvez seja o grande ambiente do exercício da diferença, da alteridade, o grande exercício da ética é o ambiente de trabalho. E quais são os principais mandamentos da ética profissional? Toda a ética se baseia no respeito ao espaço do outro. O primeiro passo da ética, a gente chama de pequena ética, etiqueta, ou seja, da convivência cotidiana com o espaço do outro. Etiqueta não diz respeito às regras sociais de garfos e facas. Etiqueta diz respeito à convivência do respeito ao outro, por exemplo, sempre enfatizo em falas que a multiplicação de quatro expressões, por favor, com licença, me desculpe, muito obrigado, são os primeiros passos da ética. Depois a compreensão no ambiente de trabalho, que a hierarquia existe, mas ela significa trabalho. Hierarquia não é, você sabe com quem está falando, mas hierarquia significa, cada um tem funções, tem delimitações e, independente da minha posição no organograma do poder, todos somos iguais perante a lei e isonômicos quanto à dignidade e capazes do exercício da convivência. Então, você é minha superiora, eu sou o seu funcionário, eu sou seu subordinado, ambos somos humanos, ambos somos iguais perante a lei, ainda que nós tenhamos funções e atributos diferentes. Então, o primeiro mandamento da ética no ambiente de trabalho, além da etiqueta, é a convivência com o poder, que é a serviço de alguém e não o poder para humilhar, para oprimir ou para estabelecer uma diferença que não seja aquela da própria dedicação ao trabalho. E quais seriam exemplos da falta de ética no ambiente profissional? Já que nós temos a convivência da diversidade, por exemplo, a diversidade de gêneros, masculino e feminino, a diversidade de formações, a diversidade de origens sociais, a primeira questão é do respeito. Então, quando eu utilizo o meu poder ou minha função para exercer algum tipo de invasão do espaço alheio. Por isso que nós, educados em uma sociedade tradicional, educados em uma sociedade em que houve invasão desse espaço, com uma tradição escravista e uma tradição machista, dentro da nossa evolução histórica, é preciso ter muito cuidado nessa convivência. Ou seja, entender que o espaço de trabalho não tem a intimidade da família. Logo, eu não posso tratar as pessoas como se fossem íntimos familiares, parentes que estão juntos há 30 anos. Entender que diferenças de gênero ou de hierarquia são diferenças de serviços, entender que as pessoas têm que ser tratadas por aquela regra de ouro presente na moral das religiões e na filosofia, fazer ao outro o que você quer que faça a você mesmo. E, principalmente, a capacidade de entender o outro como um ser autônomo, digno, que pode estar me servindo, mas não está subordinado na sua dignidade, apenas na entrega e no serviço. É possível a gente fazer uma autorreflexão de como lidamos com a ética no nosso dia a dia e, de repente, corrigir pontos que evidenciam a falta dela? Sem sombra de dúvida, nós somos perfectíveis e não somos perfeitos. Logo, todo instante eu tenho que fazer uma reflexão sobre como eu estou exercendo a ética. A ética só existe se ela for cultivada como uma capacidade de aperfeiçoamento. Ninguém nasce perfeito ético, como Aristóteles diz no início do seu trabalho, Ética Nicômaco, todos nascemos sem ética, todos podemos aprimorar. Por isso é necessário um código de ética, é necessária a atividade do debate e é necessária a atividade da avaliação da ética no sentido de que o ser humano é perfectível, como eu disse, não perfeito, e pode ser sempre avaliado, melhorado através do estudo, de palestras, de reflexões e de debates. Todos estamos envolvidos na capacidade de melhoria nas nossas relações. Como a nossa tendência, segundo alguns, não todos, é o egoísmo e valorizar em primeiro lugar a mim mesmo, eu tenho que violentar essa natureza e tenho que produzir a sensibilidade ética, que é a sensibilidade ao outro, que vai fazer uma negociação positiva entre o meu bem e o bem alheio para a produção do bem comum. A ética rege esses três polos, o eu, o tu e o nós. E o nós só existe através do debate, da melhoria e da crítica permanente. Qual que é a relação entre ética e assédio moral? Bom, os dois assédios principais em ambiente de trabalho, o assédio sexual, no sentido da utilização da diferença de gênero para exercer o poder e o assédio moral, ou seja, da utilização do poder para humilhação ou para pressão além do que é necessário, são dois desvios éticos graves.
[6:15]Entender que pode haver demanda, entender que pode haver pedido de trabalho, mas ele nunca passará pela sedução ou pelo exercício de poder que ignore a especificidade da outra pessoa é muito importante. É muito comum na nossa tradição escravista, de 318 anos, a grande questão de lembrar que o trabalho é visto como um exercício de poder e não como um exercício de serviço. Ou seja, que eu estou coordenador, eu estou chefe, eu estou presidente, significa que eu sirvo a mais pessoas, não que eu Leandro seja presidente. Eu apenas estou em uma república como a nossa, isonômica, baseada em uma Constituição de um Estado democrático de direito, todos nós temos funções e nenhuma é diferente do outro na sua dignidade. Esse exercício permanente contraria a nossa formação histórica, contraria a nossa tradição, contraria o fato de que nós fomos uma colônia, um império, uma república marcada pela desigualdade e pela opressão de alguns grupos. Então, cabe especialmente à área jurídica, especialmente à área que trabalha com o direito, especialmente à área de tribunais, esse exercício constante, muito bom de aperfeiçoar como ser humano, como servidor público e como uma pessoa integrada em uma república democrática de direito. E como é que você acha que empregado e empregador podem tornar um ambiente de trabalho mais saudável e ético? Bem, primeiro lugar, nós temos que fazer coisas como estão sendo feitas aqui. Trazer para eventos, debates, entrevistas, questões. Nós temos que refletir sobre o nosso código de ética. Temos que trabalhar questões e demonstrar que o ser humano pode ser aperfeiçoado, que tudo o que for humano pode ser transformado. Tudo aquilo que for próprio do ser humano pode ser melhorado e, infelizmente, também piorado. Ora, não é da natureza, não é o argumento sociológico, sempre foi assim ou histórico, mas é o do meu exercício humano, perfectível, aperfeiçoável, que eu posso constantemente produzir algo melhor. Por isso que nós temos pessoas mais éticas e menos éticas. Por isso que nós temos instituições mais éticas e menos éticas, porque há um esforço pessoal. Ética é um esforço de cultivo diário, como se fosse a metáfora que eu já usei em palestra, um Bonsai. Eu tenho que cortar uma folhinha, inclinar para a luz, orientar uma raiz. Não é simplesmente dizer, agora o Tribunal é ético porque tem um código, é um exercício constante, diário, cotidiano e uma meta a ser atingida. Nunca seremos integralmente éticos, mas nós podemos melhorar a partir do ponto que nós estamos. Bom, Leandro, muito obrigada pela entrevista e por ter aceitado o nosso convite. Eu que agradeço esse convite tão honroso e tão gentil, obrigado.



