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Ep. 03 da série 'ECONOMIA BRASILEIRA : 1888 – 1929 – Brasil dos brasileiros

Louise Sottomaior

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[0:20]Entre três séculos como colônia, o Brasil viveu três ciclos econômicos: do Pau-Brasil, do açúcar e do ouro.
[0:20]Como os anteriores, era voltado à exportação e produzido em latifúndios com mão de obra escrava.
[0:20]Com a abolição, os libertos foram abandonados à própria sorte, e as fazendas perderam trabalhadores, e o Império ficava sem apoio.
[0:52]Não é à toa que a, o Império, cai menos de dois anos depois da, da abolição da escravatura.
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[0:20]Entre três séculos como colônia, o Brasil viveu três ciclos econômicos: do Pau-Brasil, do açúcar e do ouro. Durante o Império, começou o ciclo do café. Como os anteriores, era voltado à exportação e produzido em latifúndios com mão de obra escrava. Com a abolição, os libertos foram abandonados à própria sorte, e as fazendas perderam trabalhadores, e o Império ficava sem apoio.

[0:52]Não é à toa que a, o Império, cai menos de dois anos depois da, da abolição da escravatura. Quando a, a Coroa brasileira, a princesa Isabel, Dom Pedro II, se tornaram abolicionista, os barões do café se sentiram traídos e migraram para o movimento republicano. E começa então todo um movimento de defesa da República, porque era um pacto. Os barões do café apoiavam o trono, e o trono não abolia a escravidão. Com um golpe militar, em 1889, o Império se transformou na República dos Estados Unidos do Brasil. E as primeiras eleições no país escolheram o Congresso que redigiria a nossa Constituição. O clima era de euforia em prol da modernidade. No começo a República trouxe muitos sonhos, muitas ambições. Os propagandistas republicanos prometiam ampliar o direito do voto, prometiam, eh, educação para todos, separação Igreja e Estado. É, o fim dos privilégios da nobreza, transformações muito grandes na realidade brasileira. Os projetos não são mais os projetos de uma grande elite escravista. Na verdade, agora, com a ascensão de novos grupos cafeeiros, que percebem que a questão da mão de obra, ela precisa ser alterada, novos projetos passam a aparecer. Mas era necessário muito mais do que projetos naquele Brasil. Nós tínhamos um pequeno núcleo de, eh, militares com a cabeça modernizante, num país de miseráveis e analfabetos. Calcula-se que ao final do Império a alfabetização tinha chegado a 12% das pessoas, e não havia uma universidade no Brasil. É um grande país atrasado, cheio de gente analfabeta e pobre. Era um país da monocultura e do latifúndio. E um ex-país da escravidão. O Brasil foi o último país do mundo ocidental a abolir a escravatura. Os escravos foram libertados, mas abandonados à própria sorte. Então, era preciso mudar tudo. E as reformas vieram. Menos de três meses, a República promoveu uma mudança institucional violentíssima. O Judiciário foi reorganizado, o Poder Moderador, que era o poder privado do rei, extinto, o Estado criou a legislação civil. Talvez o primeiro grande pacotão da República brasileira foi esse, que é de 17 de janeiro de 1890. Em um dia só que o Rui Barbosa, que era o ministro da Fazenda, publicou quatro decretos. O Rui Barbosa busca uma política de industrialização bastante bem-sucedida nos seus primeiros meses. Aqui no início gerou muito progresso, muita atividade, a bolsa, é, explodiu do lado bom. Representou uma liberação de capitais, uma grande expansão do sistema financeiro, a criação de condições para ampliação do crédito, o surgimento artificial, digamos assim, do mercado de capitais.

[5:07]O PIB caiu cerca de 7% ao ano, em meio a uma grande crise bancária. O período todo da segunda metade da década de 90 é um período de crise e, é, resolução de problemas de bancos e empresas quebradas. O velho Banco do Brasil Caput, quebrou. Essas crises rapidamente, eh, fizeram frustrar os, os sonhos maravilhosos represados durante tanto tempo pelo Império. As promessas de liberdades civis feitas pela República não aconteceram. Ela promete mudanças, promete incorporação da sociedade civil no processo decisório, isso não acontece. É uma República autoritária. Então, essa é uma República que promete muito e cumpre pouco.

[6:00]O Brasil, ele optou pela desigualdade, ele escolheu a desigualdade. Um país que já tinha uma desigualdade brutal porque vinha da escravidão, tomou decisões que não eram nada no sentido oposto, de, de diminuir a desigualdade, muito pelo contrário. Não houve mudança significativa na, no regime de, de concentração da propriedade, o Brasil não fez a reforma agrária na época que devia fazer. Ao final de um processo de 300 anos de escravidão, eh, não ouviu nenhum dos conselheiros da República, que disseram: vamos fazer, vamos educar, vamos dar educação aos filhos dos escravos.

[6:38]Então, o analfabetismo continuou tão grande quanto era no Império. É um país populoso, mas de uma mão de obra de uma educação, de nível de educação péssimo. Agricultura de baixa produtividade, eh, e não tinha indústria em quase todo o território nacional. E em pequenos grupos que dominavam a economia. E quando o poder volta às mãos dos civis, a chamada Política do Café com Leite. São os mesmos fazendeiros, os antigos barões do café que mandavam na monarquia que passam a mandar na República. Nessa evolução do, do café com leite, Minas e São Paulo, as elites cafeicultoras assumem o comando da política econômica, é quase que o controle do projeto de país para o futuro. Então, o problema com a falta de mão de obra começa a ser solucionado. O setor da cafeicultura fluminense e paulista tratou de, eh, resolver esse problema pela opção do trabalho, do imigrante. Aquela sociedade escravista vai deixando o lugar para uma nova sociedade que se levanta nesse período. Então, deixamos de ter uma economia com mão de obra escrava para ser uma economia com mão de obra pobre. Você tinha tanto um café produzido por meeiros, aonde o trabalhador recebia uma fração do valor da produção, e não um salário fixo. Como você tinha um café de assalariados, que era o café do Oeste paulista, é assim que funcionou a coisa. Havia essa possibilidade do subsídio do imigrante, com a concessão de passagem, a possibilidade de pequenos empréstimos, enfim. Realmente era uma oportunidade grande para eles. E o Brasil importa quantidades monumentais de imigrantes. E não é por acaso que o grande território de chegada dos imigrantes é São Paulo, onde estava a indústria do, a produção de café.

[8:41]O impacto dos imigrantes para o desenvolvimento da economia foi, foi muito grande porque todos vinham com algum dinheiro, com alguma economia. Conseguiram ao longo do tempo obter terras. Isso foi no fim do século XIX, foi quando o meu bisavô veio também da Itália para cá. Todo o interior de São Paulo, nessa época, teve um crescimento muito grande. Sem sombra de dúvida, a qualificação do trabalho, da mão de obra dos imigrantes era muito superior ao dos escravos, né? A economia começou a ficar mais eficiente. Uma grande maioria dos que puderam sair do campo para as cidades em formação, trataram de fazer isso. A gente também, com iniciativa, ele começa a, a ver oportunidade em que os outros não viam. E se transformar em comerciantes, em trabalhadores e depois de industriais nas cidades. No início do século XX, as cidades brasileiras se modernizavam. Surgiram bondes, carros particulares e até os primeiros aviões.

[9:50]Além disso, a economia estava mais ajustada. O Joaquim Murtinho fez talvez o primeiro grande plano de estabilização da economia que arrumou, vamos dizer, essa confusão toda que foi criada nos primeiros anos da República. O Brasil já vinha realizando um, um lento processo de industrialização. Especialmente no estado de São Paulo, boa parte dela associada à riqueza gerada pelo café. Como o café estava se desenvolvendo muito, não é, surgiu um mercado interno importante aqui em São Paulo e no Brasil, e graças a isso, então, ah, foi possível se, se, se começar a industrializar o Brasil. Ainda assim, era o café que mandava no país. O café era o rei da economia, era, era o campeão, eh, de geração de renda. E mais do que isso, a renda que possibilitaria as importações brasileiras, que são gastas pelo Estado, ou nas importações de produtos, ou no próprio financiamento do Estado. No Dr. Gudan tinha inventado uma frase que era correta: no Brasil, café é câmbio. 60% da renda era formada pelas rendas alfandegárias de importação e exportação. Isso quer dizer que a exportação, ela é fundamental porque ela gera divisas, que são ou gastas pelo Estado ou nas importações de produtos, ou no próprio financiamento do Estado. Por isso, busca-se ao longo da Primeira República, justamente garantir que o café permaneça com o papel importante no mercado exterior, que o preço não caia. Há uma sucessão de planos de valorização do café em detrimento a outros produtos. O Brasil passou a recorrer mais a empréstimos dos bancos ingleses, particularmente os empréstimos associados à defesa do preço do café. Embora Henry Ford, nos Estados Unidos, já tivesse criado a linha de montagem, o Reino Unido continuava sendo a maior potência mundial e ampliava suas colônias na África e na Ásia. E muito mais poderosas e aí então tiveram condições de reduzir a condição de colônia os países da Ásia e da África. Além dos capitais e dos produtos europeus, a arte e a cultura do velho continente também influenciavam todo o mundo. Era a Belle Époque. Então, construção de grandes prédios, de grandes teatros, era um Brasil que caminhava para uma urbanização, que caminhava para a incorporação de padrões econômicos modernos para eles. É um período onde o mundo progride muito, eh, e progride de um jeito contemporâneo, através do que a gente hoje chamaria de globalização, mas que na época era um arremedo disso. Chegando a um ápice em 1914, a Belle Époque, aonde a sensação de progresso talvez tenha sido a maior de todos os tempos. E o grande motor desse progresso foi o comércio e a inovação. Com a globalização, ocorreria também um horror global, a Primeira Guerra de proporção mundial. Como batalhas na Europa poderiam afetar a economia brasileira.

[13:30]A Primeira Guerra Mundial ocorreu, como se sabe, entre 1914 e 1918. A primeira guerra, realmente, eh, mundial, interrompeu a, o fluxo de, de mercadorias importantes para o Brasil. Os preços subiram, não havia garantia de regularidade de entrega. E criou um ambiente para a industrialização. Foi um paraíso para os industriais que substituíam importações. Tanto que alguns estudiosos localizam na Primeira Guerra Mundial o primeiro grande ciclo de industrialização do Brasil. O crescimento da indústria no Brasil, neste período, se deu alguma coisa como 8,5% ou 8% ao ano durante 40 anos, que é um ritmo chinês. Digamos que o símbolo disso era o conde Francisco Matarazzo.

[14:30]Era uma época em que o Brasil importava até arroz e banha de porco. Grande parte do que era importado podia ser substituído de forma competitiva porque tivesse o mínimo de condições e talento para fazê-lo. E Matarazzo percebeu isso. Francisco Matarazzo chega ao Brasil em 1881, começou com venda de banha, né? E foi ampliando suas atividades para outros campos. Ele morre com 82 anos e tinha mais de 400 empresas. Era a quinta fortuna do planeta e o italiano mais rico do mundo. O mundo que mudava muito. No início da Guerra, a Alemanha expandiu seus territórios. Quando ela terminou, surgiram diversos países. Em 1917, revolucionários russos derrubaram o Czar e o país se transformou na União Soviética Comunista. E com o final da guerra, os Estados Unidos se tornaram o principal provedor de produtos e capitais para a reconstrução da economia europeia. A Primeira Guerra transformou o mundo. O mundo antes de 1914 era um mundo muito mais organizado. E aonde ainda se sustentava a ideia do ouro como uma moeda. E como ele é destruído, é, a visão da economia global em 1918, fim da Primeira Guerra, é que tínhamos o caos. A Primeira Guerra Mundial gerou desequilíbrios enormes e você teve várias hiperinflações, uma famosa até na Alemanha. Não se consegue depois de fim da Primeira Guerra, recuperar o mesmo nível de dinamismo que a economia global teve naquele momento. E foi também quando terminou o padrão ouro. O padrão ouro foi, é um, foi um, um regime de, de monetário que, ah, perdurou, ah, de uma maneira quase ininterrupta do século XIX até a Primeira Guerra Mundial. A virtude, vamos dizer assim, estava na ideia de que a moeda era o ouro.

[16:48]E que todos os países deviam ter moedas conversíveis em ouro, que o ouro é estável, né? O único bem real você consegue ter expressão financeira. E os Bancos Centrais, os governos se comprometiam a trocar aquela quantidade de moeda por aquele ouro, né, que estava guardado em seus cofres. Então, ele tirava esse ouro, que era lastro da moeda dele e, deveria pagar, entregar para um, para os seus parceiros internacionais. Era fácil fazer a relação entre uma moeda e outra através da quantidade de metal e a partir daí você tinha, eh, eh, essas taxas de câmbio entre os, os, os países. Essa história do ouro como moeda, na medida que o mundo vai ficando maior e mais sofisticado, vai se tornando uma dor de cabeça imensa. Em moeda, a questão da confiança é fundamental. No caso de uma moeda internacional, tem a ver com, com o, primeiro, confiança nas instituições daquele país emissor daquela moeda. A moeda é uma instituição social. Ela começa dependendo da confiança que você tem, você também vai aceitar porque sabe que o outro vai aceitar. Que você, de fato, tinha confiança que aquele papel tinha um lastro, um cofre em algum banco. O fato de um pedaço de papel poder valer muita coisa, é, depende das, de convenções dos homens, depende de, de uma certa mágica, não, nós todos aceitamos. Até a Primeira Guerra Mundial, a Libra Esterlina reinava sozinha, era, Por quê? Porque a, a Grã-Bretanha era a grande potência política e militar. E econômica também na época. Tinha um grande Império, mas também era, era um país que tinha uma tradição de gestão monetária, era um país que cuja moeda tinha uma grande credibilidade, né? No final da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos era, é o grande credor líquido tanto da Inglaterra quanto da França, não é, que eram países vencedores do ponto de vista da guerra, mas perdedores do ponto de vista, eh, econômico. Então o dólar se tornou a moeda internacional, assim como a Libra Esterlina o foi no período, ah, do pré-guerra.

[19:11]Terminada a guerra, começam os anos 20, também o, os anos de expansão do capitalismo e tudo, né? Nos anos 20, em particular, são alguns períodos particularmente prósperos ou ricos, que dão a impressão do país, do país é mais dinâmico talvez economicamente do que ele realmente era. Na década de 20, tivemos o surgimento do Tenentismo, com militares questionando o poder das oligarquias rurais, e a Coluna Prestes. Uma marcha em que, por três anos, 1.500 homens andaram 25 mil quilômetros em 11 Estados, pregando reformas políticas e sociais. Às vezes, as pessoas se enganam por conta da vitalidade cultural brasileira, o desempenho econômico nesses 40 anos da Primeira República foi muito ruim. Ligeiramente melhor do que o Império, mas ainda muito ruim. Todo esse século da independência até ali, foi um século aonde nós começamos atrás dos Estados Unidos, da Argentina, da Europa, muito atrás, e acabamos mais atrasados ainda. Eh, portanto, do ponto de vista econômico, é um período de frustração. Claro que teve muito progresso, institucional, é, cultural, e, e do ponto de vista da economia, foram colocadas as bases para o que veio a seguir. É, arrumamos o sistema bancário, organizamos um pouco mais o mercado de capitais, é, a economia diversificou um pouco, é, relativamente ao café. Mas faltou a faísca e a faísca talvez tenha vindo com a urgência criada pela Grande Depressão, pela crise de 29. Em 29, explode a crise de 29, a crise do capitalismo mundial.

[21:07]O que efetivamente ocorre é que a bolsa de Nova York em 1929, ela quebra. Isso quer dizer, os seus, as suas ações, elas começam a cair de maneira muito violenta, e com isso vários negócios que dependiam dos valores pautados pela Bolsa começam a ter um, né, um, um cenário de crise.

[21:39]O Banco Central Americano reagiu muito mal. Em vez de, eh, salvar os bancos e evitar a crise sistêmica, resolveu assumir uma posição radical de não colocar um tostão em nenhum banco para não ajudar ninguém. Coisa que muita gente fala que devia ter sido feita em 2008. Pois é, então, isto gerou, eh, uma crise que foi se aprofundando em um pânico bancário. Os bancos foram morrendo, um um atrás do outro e, numa escala global, inusitada. Em questão de um ano a dois, quebraram cerca de 10 mil bancos nos Estados Unidos. Houve uma contração violenta do crédito, a atividade econômica diminuiu também dramaticamente. Dos Estados Unidos, essa crise vai se espraiando para todas as outras economias que dependiam dos Estados Unidos. Causando uma contração monetária global, sem precedente, em escala mundial. O comércio internacional foi reduzido a 1/3 em dois anos e os efeitos reais sobre o emprego foram também avassaladores. Você teve um aumento muito grande no desemprego. E o mundo inteiro sofreu dramaticamente. Ela ocorre num momento de extrema vulnerabilidade em vários países que tinham, vinham fazendo sacrifícios imensos para manter-se no padrão ouro, como a própria Inglaterra. E a coisa foi ficando pior. A crise de 29, como não é só o Brasil, para o Brasil foi uma tragédia. Porque os países exportadores pararam de importar os produtos brasileiros. Os preços do café declinaram, eh, e a atividade agrícola então, ela declina. E o café, essencial à economia brasileira, o rei da economia brasileira, entra numa crise sem paralelo. Excesso de produção, preços, eh, excessivamente baixos. O que valia 200, passou a valer 20. O preço já não pagava sequer o saco. Porque enterrar ele destruía a terra, você tinha que queimar. Queimamos 40 milhões de sacas de café. Então, a crise do café, ela secou o balanço de pagamento porque a receita de divisas caiu brutalmente.

[24:13]A nossa capacidade de compra tornou-se mínima. Esse foi o momento de de grandes mudanças da estrutura do capital no país. A oligarquia do café, um produto nessa, nessa situação, e quase todos de, de pires na mão, não tinha mais também o poder político que, né, que, que havia anteriormente. Chegamos em 30, um país muito pobre, tinha educação, uma população de gente pobre, analfabeta, com poucas oportunidades. Não tinha nada que favorecesse o empreendedorismo, eh, não tinha sistema financeiro. Era um país pobre, primitivo e despreparado para o crescimento. O que seria do Brasil com sua economia quebrada, com a economia mundial em frangalhos e sem esperanças de se renovar?

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