[0:00]Os doces brasileiros são doces demais? E por que os brasileiros em geral gostam tanto de açúcar? Morango do Amor não tá sozinho. Nos últimos anos, o Brasil teve ondas de paleta mexicana, de brigadeiro gourmet, de bolo de pote, de ovo de Páscoa recheado. Afinal, o que isso revela sobre a relação do Brasil com o açúcar? Eu sou o André Biernath, da BBC News Brasil, e neste vídeo vou te explicar por que os doces brasileiros são tão doces. Bom, a primeira coisa que a gente precisa responder é se a doceria tradicional brasileira, de fato, usa mais açúcar do que o resto do mundo. E fazer uma comparação como essa é difícil, mas algumas receitas indicam que a resposta é sim, a gente costuma mesmo caprichar no açúcar. É o caso do nosso querido bolo de cenoura com chocolate versus o Carrot Cake inglês. A massa do bolo brasileiro costuma levar duas xícaras, ou cerca de 400 gramas de açúcar. Já a receita inglesa pede uma xícara, ou 200 g desse ingrediente. Uma coisa parecida acontece entre o pudim de leite brasileiro e o flan de caramelo francês, ou entre o nosso doce de leite e o dulce de leche argentino. Geralmente, as receitas brasileiras levam 50% a mais de açúcar do que as versões parecidas, disponíveis em outros países. E aqui a gente não pode esquecer de um dos grandes patrimônios brasileiros, o brigadeiro, cuja receita leva uma lata inteira de leite condensado. Só para você ter ideia, 100 g de leite condensado carregam em média 55 g de açúcar. E eu resolvi trazer alguns brigadeiros e oferecer para os meus colegas estrangeiros do serviço mundial da BBC, para ver o que eles acham dessa nossa iguaria.
[1:35]Hum, é bom. É muito... Qual é a palavra? Denso.
[1:47]É um pouco grudento, né? Hum, é duro. Hum, é doce. Mas de onde vem essa necessidade de botar tanto açúcar nos doces? Isso tem a ver diretamente com as nossas raízes portuguesas. Essa história começa bem antes da chegada dos primeiros europeus ao Brasil, a partir de 1500. A cana-de-açúcar, que é riquíssima em carboidratos e de onde boa parte do açúcar é extraído, é originária da Papua Nova Guiné, na Oceania. A estimativa dos pesquisadores é de que ela tenha sido domesticada pelos seres humanos há cerca de 10 mil anos. Aos poucos, a cana se espalhou pela Polinésia, pela Ásia e pelo Mediterrâneo. Mas, durante muitos séculos, a oferta de açúcar era bem limitada e ficava restrita às farmácias, onde ele era usado na formulação de remédios ou como um tônico para dar energia. Essa história começou a mudar a partir dos séculos 14 e 15, quando Portugal investiu nas primeiras grandes plantações de cana-de-açúcar na ilha da Madeira. Algumas décadas depois, esse modelo seria replicado numa escala ainda maior no Brasil. O açúcar se tornou a grande commodity da então colônia portuguesa, que dependia da mão de obra dos escravizados nas lavouras e nos engenhos. No livro História da Alimentação no Brasil, Luiz da Câmara Cascudo calcula que os 66 engenhos de Pernambuco produziram quase 3 mil toneladas de açúcar entre 1583 e 1585. E ainda que boa parte dessa produção fosse exportada para a Europa, a facilidade no acesso ao açúcar no Brasil influenciou diretamente as receitas de bolos e sobremesas, além das conservas e compotas com frutas. Gradativamente, o açúcar vai entrando como um elemento da dieta. Então, os fios de ovos, pão de ló com aquele recheio de ovos e tudo aquilo que ainda encontramos na doceria portuguesa. Então, a doceria brasileira vai ser uma herdeira dessa doceria portuguesa. O que, claro, também teve influência dos africanos e dos indígenas, que, de acordo com a pesquisa de Câmara Cascudo, preferiam o gosto que vinha direto da cana, de frutas como o cupuaçu, o açaí, o guaraná e o caju, ou dos favos de mel das abelhas. Mesmo agora, séculos depois, o Brasil continua sendo o maior exportador de açúcar do mundo. A partir do século 20, a relação do brasileiro com o açúcar ganhou um novo capítulo com a chegada dos produtos industrializados. E o maior símbolo dessa transformação é justamente ele: o leite condensado, que virou figurinha carimbada em muitas receitas. Por exemplo, o pudim, o brigadeiro, os mousses, o pavê e agora morango do amor. O leite condensado, ele acho que ele junta num produto só, vários atributos que o brasileiro ama. Porque a gente gosta de coisas doces, bem doces, a gente gosta de doces molhadinhos. O leite condensado, ele é isso, ele é úmido, ele é doce e ele traz textura. E ele é neutro, porque a base láctea permite esses acréscimos do pistache, do chocolate, do morango, vários, do limão, maracujá. Então, coco, café, laranja, você abre um leque de receitas de saborização enorme com uma facilidade de uso imensa. Disponível nas prateleiras dos mercados há mais de 100 anos, esse produto está na casa de 94% dos brasileiros, que consomem em média 6,5 kg de leite condensado por ano. Algumas das maiores fabricantes calculam que o leite condensado é parte de cerca de 60% das receitas de sobremesas feitas no Brasil. Os dados da unipresença desse ingrediente nas receitas de doces brasileiros não encontram qualquer paralelo em nenhum outro país, mesmo que o leite condensado seja vendido em várias partes do mundo. Em muitos países, é mais comum a adição de leite, gemas e açúcar de forma separada nas receitas de doces e sobremesas. E olha que curioso, as primeiras campanhas de marketing promoviam o leite condensado como um alimento para bebês e crianças, uma espécie de substituto do leite tradicional e das fórmulas infantis. Uma campanha de uma marca famosa dizia para as mães: Senhora, não se aflija com a falta de leite. Há um bom substituto, o único substituto no qual você deve ter total confiança. Claro que não existe nenhuma evidência científica que suporte essas afirmações, e hoje o consumo de açúcar é desaconselhado antes dos dois anos de idade. A BBC News Brasil entrou em contato com a Nestlé, que fabrica a principal marca de leite condensado no mercado, para que ela pudesse comentar o assunto. Mas não foram enviadas respostas até a gravação desse vídeo. O leite condensado ganhou de vez o coração do brasileiro com o lançamento de fascículos de receitas, ou com instruções de preparo de sobremesas nos próprios rótulos, que eram colecionados pelas donas de casa. Segundo pesquisadores, essas campanhas acertaram ao mirar exatamente nas principais dores dos consumidores e ofereceram uma solução prática, confiável e barata para preparar alimentos ligados ao conforto e ao bem-estar das reuniões de família. E assim, o pudim de leite virou símbolo daquele almoço de domingo e o brigadeiro se tornou uma referência de comida afetiva para nós. Gilberto Freyre tem essa frase no livro dele que eu amo. Ele fala que no Brasil, o doce visita, o doce agradece, o doce das condolências, o doce celebra, o doce tem um papel social. Né? Então, quando nasce alguém, lá, nasceu o seu sobrinho. Você vai visitar a criança, você não leva um leitão a pururuca. Você leva um docinho, né? O doce tem uma função social de trazer, de ser a recompensa, de ser a gratidão, de ele simboliza muito afeto. O antropólogo Gilberto Freyre, citado pela Débora, escreveu livros inteiros sobre a importância desse ingrediente para a formação da identidade nacional. É o caso da obra Açúcar, uma sociologia do doce, em que ele defende que, sem o açúcar, não é possível compreender o homem do Nordeste. É interessante pensar no impacto que essas latinhas tiveram em outros setores da vida pública, como a política. O próprio nome de um dos doces mais populares do Brasil, teve origem nas eleições de 1945, quando o Brigadeiro Eduardo Gomes candidatou-se à presidência da República. Vale lembrar aqui que, no contexto militar, o brigadeiro é uma das mais altas patentes da Força Aérea Brasileira. Os apoiadores de Eduardo Gomes criaram um slogan: Vote no Brigadeiro, que é bonito e solteiro, e distribuíram um novo doce que recebeu o mesmo nome em festas e eventos de campanha. Anos depois, o leite condensado voltou à cena política como o ex-presidente Jair Bolsonaro, que compartilhou um monte de vídeos comendo esse ingrediente num pedaço de pão. Ah, e não podemos esquecer que o século 20 também foi marcado pela popularização de outros produtos que deixaram a mesa do brasileiro ainda mais açucarada, como os refrigerantes e as bolachas recheadas. E isso nos leva ao quarto ponto dessa discussão: Será que a quantidade de açúcar que o brasileiro come passou do ponto? O Ministério da Saúde calcula que a cada dia o brasileiro consome 18 colheres de chá de açúcar, o que corresponde mais ou menos a 80 g. Isso significa que nós consumimos 50% a mais do que o limite máximo estabelecido pelo OMS, que é de 12 colheres ou 50 g por dia. O que coloca os brasileiros como um dos líderes do ranking mundial de consumo de açúcar, ao lado de Estados Unidos, Rússia e México. Só para você ter ideia, chegamos a devorar até o triplo de açúcar do que um chinês, um japonês. Nos anos 30, um brasileiro comia ao redor de 15 kg de açúcar por ano. Esse número pulou para 50 kg nos anos 90, e segundo as estatísticas da OMS, está em 65 kg atualmente. Algo parecido aconteceu em todo o mundo, com algumas variações. Estima-se que o consumo médio de açúcar cresceu mais de 100 vezes de 1850 até os dias de hoje. Estudos apontam que cerca de 60% dessa ingestão vem de açúcares que são adicionados pela própria pessoa a alimentos ou bebidas. O restante está presente em produtos processados ou ultraprocessados. Para fechar, quais os efeitos disso na saúde? Segundo o Ministério da Saúde, esse excesso está relacionado a uma série de doenças crônicas, que cresceram no Brasil nas últimas décadas, como diabetes tipo 2 e a obesidade. Um ponto bem importante do alto consumo de açúcar é o ganho de peso. E aí se a gente pensa, né, na questão da obesidade que cresce no Brasil e no mundo, a obesidade, ela é um problema em si, ela está relacionada a infinitas doenças, né? Diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer. Bom, com isso eu fico por aqui. Espero que você tenha gostado desse vídeo, porque como diria Chico Buarque, ele foi feito com açúcar e com afeto. A palavra-chave aqui é moderação, pensar em maneiras de reduzir o consumo de açúcar em cada receita e apreciar os diferentes sabores dos alimentos, que muitas vezes acabam até escondidos ou anulados pelo excesso de doçura. Isso é uma coisa interessante do nosso paladar tanto pro sal, quanto pro açúcar, que a gente vai modulando, se você não faz a redução zero de uma vez e vai reduzindo aos poucos, o seu paladar vai se acostumando até o ponto que você consegue parar de consumir ou de fato consumir, consumir pouco. Bom, com isso eu fico por aqui. Espero que você tenha gostado desse vídeo, porque como diria Chico Buarque, ele foi feito com açúcar e com afeto. Não se esqueça de seguir a BBC News Brasil nas redes sociais, no YouTube e no WhatsApp. Um abraço e até a próxima.



