[0:00]O ano é 1914. E a Europa vivia uma época de ouro. Nunca seus habitantes haviam desfrutado de tanta prosperidade, tanto otimismo nas artes, na cultura, na economia, tudo. Era chamada Belle Époque, a Bela Época. Nada parecia indicar ao jovem europeu, como o mundo daquela época, que esse mundo maravilhoso estava à beira do colapso. Era o ano de 1914 e era o fim da Belle Époque, com a eclosão da mais brutal guerra já travada pelo ser humano até então, a Primeira Guerra Mundial.
[0:46]Mas esse terrível conflito não surgiu do nada. Nós temos que entendê-lo a partir dos seus antecedentes que remontam ao século XIX. Para começar, nós temos ali um período no final do século XIX, início do século XX, conhecido como paz armada. Isso porque as potências europeias estavam preparadíssimas para uma guerra, armadas até os dentes, apesar do período de paz que vinha desde a Guerra da Crimeia em 1853. O segundo ponto é a política de alianças. As potências europeias, se sentindo inseguras, olha a questão da tensão no ar já. Estavam fazendo alianças com outras potências para poder se proteger. Nós tínhamos de um lado a Tríplice Aliança na virada do século XIX para o XX, formado por Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha. E do outro lado, nós tínhamos a Tríplice Entente, formado por França, Rússia e Reino Unido. O problema dessa política de alianças e da própria paz armada é que aquilo se tornou um barril de pólvora. Todos estavam muito bem preparados para a guerra e qualquer um poderia tragar os outros membros da Europa para esse conflito e é o que aconteceu em 1914.
[2:16]Foram um conjunto de causas. A primeira, o imperialismo. Esse movimento de busca de colônias pelas potências industrializadas europeias na África e na Ásia, que intensificou muito a rivalidade entre essas potências e acirrou os conflitos europeus. Outra causa foi o aprofundamento do nacionalismo exacerbado dos europeus no século XIX. Esse sentimento nacionalista, romântico, ele desembocou na xenofobia, no belicismo, no militarismo e em si foi mais uma das causas da eclosão desse terrível conflito. E havia também uma série de rivalidades entre as potências europeias, rivalidades nacionais. Havia rivalidade entre França e Alemanha, entre Inglaterra e Alemanha, Reino Unido, né, para ser mais exato, e também entre Rússia e Império Austro-Húngaro, entre outras rivalidades que deram forma à guerra. A primeira que eu queria destacar é a rivalidade crescente entre França e Alemanha, que vinha do século XIX, mas que tinha tido um ponto importante para sua materialização, a guerra franco-prussiana de 1871, uma guerra entre a Prússia e a França para a formação da Alemanha em torno da Prússia. A França sai derrotada, os franceses passam a sonhar com um revanchismo francês, passam a sonhar em dar o troco na Alemanha. E mais do que isso, os alemães haviam anexado duas regiões ali fronteiriças com a França, Alsácia e Lorena, que eram riquíssimas em minérios, importantes para essa fase da industrialização dos dois países. Então, o desejo de retomar Alsácia e Lorena para os franceses e também de dar o troco, o revanchismo francês, foi um dos pontos que vai desembocar ali na Primeira Guerra Mundial. Outra rivalidade importantíssima para entender a guerra é aquela que foi se desenvolvendo entre a Alemanha e o Reino Unido. Essa rivalidade se deu principalmente por razões econômicas e militares navais. Do ponto de vista econômico, os alemães estavam se desenvolvendo muito do ponto de vista industrial, ameaçando a supremacia industrial britânica. Vamos nos lembrar que a Inglaterra foi o primeiro país industrializado do mundo, é lá que aconteceu a Revolução Industrial, a primeira, né? Só que na virada do século XIX para o XX, a Alemanha ultrapassou a produção industrial britânica. Um outro ponto ainda mais sensível para os britânicos é que os alemães começaram a ameaçar a supremacia naval britânica. Há mais de um século, a Inglaterra era chamada de a Senhora dos Mares, por conta do poder bélico da sua marinha real britânica. Os alemães passaram a ter uma política deliberada na virada do século XIX para o XX, de criar uma marinha mais poderosa do que a britânica, o que colocou esses dois países em rota de colisão. E uma terceira rivalidade que eu queria destacar é aquela entre a Rússia e o Império Austro-Húngaro, um império que não existe mais, um dos impérios que deixou de existir depois da Primeira Guerra Mundial. Esses dois impérios estavam disputando os espólios do Império Turco-Otomano na península balcânica. O Império Turco-Otomano já não vinha bem das pernas há um bom tempo, isso se transformou num problema de acomodação entre os países europeus querendo os seus espólios ali na península balcânica desde o século XIX. Então, o expansionismo austro-húngaro vai disputar espaço com o expansionismo russo.
[6:19]Nesse contexto surge até um movimento pan-eslavista ali dos nos balcãs, dos sérvios, dos croatas, dos eslovenos, que eram mais favoráveis a uma expansão da Rússia do que do Império Austro-Húngaro. Mas não é o que aconteceu. Quem começou a expandir naquela região foi o Império Austro-Húngaro, com a anexação, por exemplo, da Bósnia, o que vai, inclusive, desencadear o conflito. Vai ser o estopim. Se a situação na Europa já não estivesse terrivelmente tensa por conta do imperialismo, por conta da política de alianças, por conta das rivalidades nacionais, o que aconteceu no dia 28 de junho de 1914, que foi um assassinato político, teria sido resolvido por meios diplomáticos. Mas não foi o que aconteceu. Esse assassinato desembocou numa série de eventos que levaram à guerra. É o atentado de Sarajevo, Sarajevo, capital da Bósnia, onde o herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Ferdinando, fazia uma visita com sua esposa à capital da Bósnia. E um pan-eslavista fanático, um radical de 18 anos, chamado Gavrilo Princip, decidiu assassiná-lo. Porque via a expansão do Império Austríaco ali sobre a Bósnia, sobre os Balcãs, como algo que limitaria a união entre todos os povos eslavos, e ele era um estudante pan-eslavista. Ele sonhava com a união entre os povos eslavos e decidiu assassinar o Arquiduque. A reação da Áustria-Hungria foi de dar um ultimato à Sérvia, a terra do Gavrilo Princip. Era um ultimato que apenas era um pretexto para o início de uma invasão. Com a invasão da Sérvia pela Áustria-Hungria, a Sérvia pede socorro para a Rússia, que era sua aliada. A Rússia declara guerra à Áustria-Hungria, mas a Áustria-Hungria era aliada, naquela política de alianças da Alemanha, e a Alemanha declara guerra à Rússia. A Rússia, por sua vez, tinha como duas grandes aliadas na Tríplice Entente, a França e o Reino Unido, que por si já tinham motivos para declarar guerra à Alemanha e é o que fizeram. Pronto, nós temos aí os dois lados do conflito já. De um lado nós temos as potências centrais, porque a Itália, a princípio não entrou na guerra. Então nós temos a Áustria-Hungria e a Alemanha, e do outro lado, nós temos a Tríplice Entente, com Rússia, França e Reino Unido. O início do conflito foi marcado por cargas pesadas de infantaria e ações determinadas dos exércitos de resolver logo a guerra. Mas rapidamente eles perceberam que pesadas baixas estavam trazendo pequenos avanços territoriais e todos os exércitos, então, entraram numa estratégia defensiva. E cavaram buracos para se proteger dos tiros, as famosas trincheiras que iam do Mar do Norte até a fronteira Suíça. E esse foi o maciço da guerra, as pestilentas e terríveis trincheiras. Essas trincheiras eram verdadeiras máquinas de moer gente. A situação pestilenta, improvisada, possivelmente morreram mais pessoas por conta da situação das trincheiras do que nos combates, tá? E essas trincheiras marcaram a maior parte do conflito no lado ocidental. É o período da guerra de trincheiras que vai de 1915 até 1918. Lembrando que do lado oriental, ali o conflito com a Rússia, não é marcado pelas trincheiras, ali a guerra sempre foi de movimento. Um ano decisivo para esse conflito foi 1917. Em 1917, os dois lados ali no ocidente estavam muito parelhos, a guerra avançava pouco, as pessoas morriam muito por conta da situação das trincheiras, apesar da falta de combates que levassem a algum avanço significativo desses exércitos. É quando nós temos a entrada dos Estados Unidos na guerra e a saída da Rússia. Isso mudou o conflito completamente. Do lado da Rússia, a Rússia colapsou. As instituições econômicas ultrapassadas da Rússia, as instituições políticas retrógradas daquele país, o quizarismo, não suportaram as pressões de uma guerra moderna e longa e o regime colapsou. E isso antecipou a chegada ao poder dos socialistas marxistas, primeiro os mencheviques, depois os bolcheviques, é a famosa Revolução Russa. Os socialistas no poder, na Rússia, não tinham interesse em manter a Rússia na guerra. É aí que eles rapidamente organizam um tratado para tirar a Rússia da guerra, é quando Lenin assina ali o tratado de Brest Litovsk com os alemães, um tratado muito penoso para com os russos, diga-se, retirando a Rússia da guerra. Do outro lado, nós temos a entrada dos Estados Unidos na guerra. Os Estados Unidos entraram, primeiro para proteger os seus investimentos, eles estavam financiando os aliados na guerra, o lado ali da Entente. Por outro lado, para proteger a sua posição geoestratégica também, porque uma vitória alemã faria com que a situação de segurança dos Estados Unidos, o próprio Atlântico não fosse mais tão seguro. Então, os Estados Unidos acabam entrando no conflito em 1917 e isso foi decisivo. Um país extremamente pujante economicamente, nessa, nessa época era a maior potência industrial do mundo, já, com 1 milhão de soldados novos, bem treinados, bem equipados, descansados. Foi demais para a Alemanha, rapidamente os alemães vão negociar uma rendição. É o fim do conflito. Para definir os termos do fim desse conflito, foi organizado uma grande conferência de paz em Paris em 1919. É a Conferência de Paz de Paris de 1919, em que nós tínhamos ali dois lados claros na conferência. De um lado, os Estados Unidos da América, com seu presidente Woodrow Wilson e suas 14 propostas para uma paz duradoura, os famosos 14 pontos de Wilson. Do outro lado, nós temos as potências europeias vencedoras, França e Reino Unido com propostas muito diferentes daquelas do presidente norte-americano. Entre as 14 propostas do presidente Wilson, ele defendeu a liberdade dos mares, o que desagradou a potência naval, Inglaterra. Ele defendeu a liberdade de comércio, essa proposta do Wilson desagradava as potências europeias dessa época que estavam uma situação desvantajosa, né, destruídas pelo conflito para comercializar livremente, concorrer com os produtos norte-americanos. Outra proposta do Wilson foi de uma paz sem vencedores, isto é, nós vencemos os alemães, mas não vamos tratá-lo como tradicionalmente eram tratados os derrotados. Não vamos impor sanções nem represálias, vamos incluí-lo na comunidade internacional para evitar uma nova guerra. Essa proposta do Wilson foi recusada pelas potências europeias, Inglaterra e França, que chegaram a um tratado que é o Tratado de Versalhes, que é um tratado punitivo para com a Alemanha, que é um tratado que tem cláusula de culpa de guerra, dizendo que a Alemanha era a única culpada pela guerra. E o congresso norte-americano não aceitou esses termos e não ratificou o Tratado de Versalhes. Os Estados Unidos preferiram assinar um tratado separado com a Alemanha. Agora, uma coisa curiosa aconteceu. Uma das 14 propostas do presidente norte-americano, Woodrow Wilson, era a criação de uma sociedade de nações. Uma liga que reunisse representantes de todas as nações. Essa liga foi criada, as potências europeias aceitaram essa proposta do Woodrow Wilson, com algumas modificações. Mas o Congresso norte-americano não. E o Congresso dos Estados Unidos não ratificou a entrada dos Estados Unidos nessa liga, que tinha sido proposta, ironicamente, pelo presidente dos Estados Unidos. Agora, a pior notícia. Apesar de tudo isso, todas essas mortes, toda essa destruição, A Primeira Guerra Mundial não solucionou os problemas que ela veio para solucionar. E alguns problemas, inclusive, foram aprofundados por ela. É por isso que 20 anos depois, nós teríamos uma segunda guerra, ainda mais brutal que a primeira. A Segunda Guerra Mundial.



