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Só você é dona da sua história | Giovanna Heliodoro | TEDxSaoPaulo

TEDx Talks

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[0:09]Olá. Meu nome é Giovanna Heliodoro. Eu sei que pode parecer egocêntrico da minha parte vir aqui para poder compartilhar com vocês a minha história. Mas é porque eu acredito muito na possibilidade de você se identificarem por meio da minha história ou não. Mas que através dela a gente possa reconstruir algo. Você possa reconstruir algo sobre a sua vivência. Eu devo confessar que eu nunca acreditei muito na palavra desconstrução. Eu acho que nenhum ser humano é desconstruído suficientemente e ninguém nunca vai ser capaz de se desconstruir de fato. Eu acredito mais na palavra reconstrução, sabe? Eu acho que a gente sempre tá se reconstruindo cada vez mais. É difícil você esquecer aquela vivência escrota, sabe? Aquele momento que de alguma forma você já foi preconceituoso, reproduziu alguma fobia, algo do tipo que te incomoda hoje. Isso não vai sair da sua cabeça, isso está aqui. Ainda que você queira apagar, continua tudo aí. Então, não precisa de negar a sua história. É sobre isso que eu vou falar. E tudo começa quando eu, uma filha de um relacionamento interracial, uma mulher negra e um homem branco, resolvem ter filhos. As tentativas foram várias, né, e não deu muito certo. Meus pais perderam duas crianças antes de me ter. Eles criaram muita expectativa com a minha chegada. Eu sou filha única, então sempre houve uma espera pela minha chegada, pelo momento em que eu ia me apresentar para o mundo. E foi assim que eu me apresentei, né? Eu era o primeiro neto da minha família. O primeiro neto. Isso tem um peso também, né? E eu vou te explicar porque, na verdade, eu sou a Giovana, mas nem sempre eu fui a Giovana. Nem sempre eu fui lida enquanto uma mulher. Em um outro momento da minha vida, eu fui o primeiro neto que os meus avós sempre esperaram. E numa lógica toda machista estrutural, isso era muito importante para uma família, né? O primeiro omenzinho. Pois é. Eu sempre entendi que eu tinha que entregar algo para os meus familiares. E eles me ensinaram que a herança que podiam me dar era educação. Minha mãe sempre me falou: estuda, estuda muito, porque a única coisa que eu tenho para poder deixar para você nesse mundo é a educação. E foi assim que eu fui me dedicando, fui me esforçando cada vez mais e mais. Chegou um momento, inclusive, que eu quando criança, me lembro que eu quis, enquanto a minha mãe estava fora de casa, vestir as roupas dela. Tava só eu ali, era uma criança meio perdida em tudo que estava acontecendo, sem entender nada, mas eu coloquei as roupas da minha mãe e naquele devaneio todo eu fui girando, fui me sentindo, fui me compreendendo e tava gostando daquilo. Mas, de repente, para minha surpresa, minha mãe chegou. Minha mãe chegou e se deparou comigo, uma criança vestida com as roupas dela. Roupas de mulher. E aí, nesse mesmo momento, ela me disse que era para mim prometer para ela que nunca mais na minha vida eu ia colocar roupa de mulher. E chorando eu disse: Sim, eu te prometo, eu juro que nunca mais eu vou fazer isso. E sem entender nada, eu fui seguindo, fui seguindo e dentro da escola eu percebi que ali era um dos ambientes onde eu mais era violentada. Ainda que a educação fosse o que eu pudesse me entregar, me dedicar e fosse herança que eu tinha, eu sabia que era muito difícil me manter dentro daquele ambiente educacional. Eu sempre era a última a ser escolhida para um trabalho, eu sempre era a última a ser escolhida na aula de educação física. Eu sempre era preterida e literalmente, eu sofri muito. Eu sofri muito no sentido de LGBTfobia, de racismo, assim como qualquer criança LGBTQA+, negra, dentro das suas diversas vivências. E nesse momento todo, eu me lembro exatamente de um momento em que eu conheci uma professora. E do nada, ela me acusou de algo que eu não tinha feito. Ela jurou para toda a turma, na frente de todo mundo, e falou: Você não pode fazer isso. Você está errada, você está errada e você não devia ter feito isso. Você sabe que isso é errado e você é culpada, você bateu nele, você pegou as coisas dele. E eu não tinha pegado nada. E eu fui seguindo, fui seguindo e cada vez mais tendo mais medo de me encontrar comigo mesma. E, justamente por isso, o espelho sempre foi um ambiente de trauma. Eu sempre tive medo de ver o meu reflexo, não era nem por uma questão física, sabe? Era de menos isso, era mais por uma questão interna, porque me doía saber que tinha um problema que eu precisava de resolver comigo mesma. E como um menininho ali naquele contexto, eu me vi totalmente desamparada, tentando me encontrar, tentando de alguma forma me identificar com o que estava posto para mim. E foi assim, nesse momento todo de caos, que eu tive que fazer uma decisão, que era de entrar dentro de uma universidade. Eu tinha que dar continuidade a esse processo de herança que eu falei lá atrás, né? E foi aí que eu pensei que talvez eu devia fazer história. Eu sempre me interessei sobre a possibilidade de reescrever a minha própria história. E por que não fazer uma graduação de história para poder contar a história dos meus e das minhas através da minha narrativa, da minha perspectiva? E foi assim que eu me deparei com o curso de história, mas nada foi muito fácil porque eu ainda estava com muitos dilemas internos e por meio desses dilemas todos eu precisei de seguir, me esforçando e me esforçando até que eu entendi com o meu envolvimento também com a arte, de que tinha um problema ali, né? Que eu usava da arte, assim como também do curso de história, como uma desculpa para poder ser quem eu realmente era. Então eu colocava aquelas roupas, ditas femininas, eu pintava as minhas unhas, eu me maquiava, me arrumava toda e sempre falava: calma aí mãe, calma aí pai, tá tudo tranquilo. Isso é só coisa do teatro, tá tudo bem, fica calmo, é só uma personagem, tá tudo bem, é só um jeito. Só que não era só uma personagem, era um dilema que eu tava enfrentando comigo mesma, até que chegou um momento que eu precisei de passar para uma transição não mais só interna, mas um processo de transição para o mundo. Onde eu disse para o mundo que sim, eu sou uma travesti negra. E esse processo não foi fácil, né? A universidade não está preparada para receber corpos como a minha. Atualmente no Brasil, a gente tem 0,2% de travestis e transexuais cursando o ensino superior. O que diz que eu era uma exceção. E justamente por eu ser uma exceção, eu precisei de educar as pessoas que estavam ao meu entorno e o ambiente que eu tava integrando ali, né? E eu me lembro que eu precisava de dizer para o meu professor, né? Esse não é o meu nome que tá na chamada. Vem cá, um minutinho, professor. Você poderia, na hora de fazer a chamada, me chamar de Giovana, por favor? E de idas e vindas eu consegui trocar o meu nome na chamada, usar o meu nome social dentro da universidade, mas não foi fácil, porque se não bastasse só a chamada, eu ainda tinha que lidar com outros dilemas, que eram os olhares, todas as relações conturbadas de transicionar dentro do ambiente universitário. Então, meu processo de transição, ele foi muito complexo e muito mais complexo ainda, enquanto eu ia fazer as minhas necessidades básicas, como ir ao banheiro. Eu não ia nem no banheiro feminino nem no banheiro masculino. E eu lembro que a minha melhor amiga, os meus melhores amigos da universidade, falavam: Amiga, por que você tem medo de ir no banheiro feminino ou no... Eu falava, por conta dos olhares, pela forma como eu sou recebida, as pessoas me tratam mal, as pessoas me julgam. E houve uma vez até que dentro desse próprio banheiro me perguntaram: Esse é o banheiro feminino? E eu perguntei, eu respondi, sim, esse é o banheiro feminino, porque não seria? Ah, eu só queria saber se era o feminino mesmo. E justamente por isso eu comecei a usar o banheiro para pessoas com deficiência. Essa foi a solução que eu encontrei um tempo atrás, né? Era uma tentativa de ter um espaço só para mim ali, porque eu não tava nem no banheiro masculino, nem no banheiro feminino, mas eu tava ali no banheiro com pessoas com deficiência achando que eu tava ali enfrentando os meus problemas e fazendo as minhas necessidades tranquilamente. Mas era uma mera ilusão para mim. Muitas desses problemas só foram se agravando, se agravando e eu precisei de escolher dentro da universidade uma escola para que eu pudesse lecionar, para que eu pudesse ser professora, para que eu pudesse dar aula para alguém. E foi aí que eu escolhi justamente voltar naquela escola que eu falei antes. A escola onde aquela professora apontou para mim, me falou: olha, você fez isso, você é culpada. Aquela mesma escola onde me disseram que eu era um viadinho, que eu era uma pessoa suja, que eu não devia estar ali. Nessa mesma escola eu voltei, só que agora como professora. E nessa escola onde eu voltei como professora, logo de cara ali, né, na sala dos professores, eu encontrei com aquela professora que eu disse anteriormente. Aquela mesma professora que antes me ameaçou, me fez mal, me deixou várias mágoas, marcou a minha história. Agora eu precisei de deparar com ela. Enquanto eu vi ela, eu dei um bom dia, bom dia, tudo bem? E depois do bom dia eu falei com ela, prazer, eu sou Giovana. Ela: Ah, prazer. Ela até então não lembrava de mim, não me conhecia, e passou pela minha memória, será que eu conto para ela o que aconteceu? Eu falei assim: Não, eu não vou contar para ela não. Eu vou simplesmente seguir tudo e e vou continuar aqui dando a minha aula, no meu espaço, e falei assim, apenas: Eu já estudei aqui, sabia? E ela: Ah, que ótimo, você já estudou aqui. Eu falei: Sim, eu vou ali dar minha aula. E eu continuei, né? E fui seguindo, seguindo, seguindo até o momento que eu precisei cada vez mais amadurecer. E quando se trata de amadurecimento, eu lembro que o início de tudo vem lá da minha família, né? E eu precisava também de reeducar os meus familiares, as pessoas que estavam à minha volta. Assim como eu passei pela experiência de reeducar as pessoas dentro do ambiente educacional onde eu estudava, eu precisava também de reeducar os meus pais, as pessoas que estavam à minha volta. E foi necessário muita paciência, né? Para poder explicar para minha mãe o que era ser uma pessoa trans, o que é ser uma pessoa travesti, o que é ser eu. Foi preciso muita paciência, mas houve muita compreensão. Eu confesso que não foi nada fácil, né? A minha família por um momento me fez entender que talvez eu pudesse ser rejeitada, mas hoje eu entendo que de alguma forma eu sou amada. E, justamente por isso, eu também sou uma exceção, né? Porque nesse país que mais mata travestis e transexuais em todo mundo, ter o apoio da família é algo sobrenatural. Mas tinha um detalhe aí, né? Eu não tinha me resolvido ainda com o meu pai. O meu pai foi uma pessoa que me marcou muito e eu entendi nesse ano que eu precisava de resolver a minha história com ele. Eu precisava de dar um passo atrás para poder dizer para ele que eu entendia ele. Eu entendi o fato dele ainda não conseguir me chamar pelo meu nome. E ele olhando para mim me disse assim: Eu te amo, eu te amo e eu te respeito e sempre que eu puder te oferecer algo para o mundo, eu vou lhe oferecer. E nesse ano a gente se reencontrou e hoje eu venho reestabelecendo e reescrevendo a minha história cada vez mais. Justamente por isso eu acredito na reconstrução, né? Eu não me desconstruí e acho que ninguém um dia suficientemente vai se desconstruir de tudo. E eu acredito que, na verdade, eu acabei aprendendo a lidar melhor com a minha história. Hoje eu resolvo o meu presente lidando com tudo aquilo que eu precisei de vivenciar no meu passado, todas as opressões, todos os dilemas, todas as dores. Eu aprendi a lidar com isso e a partir do momento que eu aprendi a lidar com isso, eu entendi que o melhor de tudo era a possibilidade de se resolver com a sua própria história. Lembrando que você é protagonista dela e só você pode dizer sobre ela, só você pode construir as memórias que você quer compartilhar com o mundo. E aí cabia a você construir alguns apagamentos históricos, algumas lembranças, alguns suportes de memória e a partir de todos esses suportes, você constrói uma narrativa única que ela é só sua e só você detém ela. E hoje eu me sinto melhor porque eu consegui lidar com uma nova Giovana, uma Giovana que cada vez mais tá tentando se reconstruir, se reapresentar não para o mundo, mas para si mesma, tentando entender que a cada dia eu posso me modificar. E eu acredito que talvez a mensagem que eu queira deixar aqui que você também pode lidar melhor com o seu presente a partir das suas memórias do passado e as suas perspectivas que estão por vir no futuro, pois só você é quem é detentor da sua própria história. Hoje eu tenho mais vontade de ser eu no mundo. E eu queria dizer para você que você pode também aprender a lidar com a sua própria história e se apropriar dela através do seu passado, do seu presente e da sua perspectiva de futuro. Muito obrigada.

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