[0:13]Memorial do Convento, Capítulo 19. Memorial do Convento, publicado em 1982, é um dos romances mais importantes de José Saramago. A obra combina a realidade histórica com elementos ficcionais e fantásticos, tratando da construção do convento de Mafra no século XVIII. durante o reinado de Dom João V. Agora passamos a falar um pouco mais sobre José Saramago. José de Sousa Saramago nasceu dia 16 de novembro de 1922, foi um escritor e jornalista português, vencedor dos prémios de renome, como o Prémio Nobel de Literatura em 1998 e o Prémio Camões em 1995. Faleceu a 18 de junho de 2010 com 87 anos.
[1:11]Agora passemos à contextualidade do capítulo. O capítulo 19 de Memorial do Convento insere-se na parte central da narrativa, num momento em que a construção do convento de Mafra já está em pleno andamento. A obra, que cruza o quotidiano do povo português com a vida da corte no reinado de Dom João V, mostra aqui de forma muito concreta o contraste entre o luxo da monarquia e o esforço da população. Neste capítulo específico, Saramago relata o transporte de uma gigantesca pedra desde a pedreira de Pero Pinheiro até Mafra, destinado à construção do convento. A pedra não é apenas um elemento físico da obra, mas um símbolo do sacrifício coletivo do povo português, que com grande esforço e união, consegue mover algo aparentemente impossível, sem a ajuda dos poderosos. A narrativa segue as personagens principais, especialmente Baltazar Sete-Sóis, que participa ativamente na tarefa, destacando-se pelo seu papel de líder prático entre os trabalhadores. Este momento reforça o tom crítico da obra em relação ao poder absolutista e à exploração do povo, ao mesmo tempo que exalta a solidariedade, a resistência e a dignidade popular. O episódio ocorre depois do início da construção do convento e antes dos desfechos mais intensos da vida de Baltasar e Blimunda, funcionando como uma espécie de "epopeia popular", onde o verdadeiro heroísmo vem das mãos calejadas do povo. Agora passemos ao espaço e ao tempo cronológico. A narrativa decorre entre Mafra e Pero Pinheiro, numa viagem de ida e volta em busca da pedra para a construção do convento.
[2:51]Mafra é o espaço da megalomania do rei, onde vivem muitos trabalhadores que vieram das suas terras de origem para trabalhar na construção do convento. Este capítulo decorre em Julho de 1725. Falando agora das personagens, Baltasar Sete-Sóis era maneta devido à guerra, trabalhador e boeiro devido à sua nova profissão. Simboliza também os humildes e os marginalizados.
[3:20]Blimunda Sete-Luas consegue ver o interior das pessoas, capta a vontade das pessoas e representa a esperança e persistência. Dom João V, era um rei absolutista e poderoso, uma figura caricatural e crítica. Desejava ter um herdeiro para herdar o seu trono, símbolo da opressão e desigualdade. Passando ao povo, era uma personagem coletiva, explorado e oprimido. Contraste com a nobreza e o clero. Símbolo da resistência e dignidade. Força motriz do progresso silenciado pela história oficial. Dentro do povo, também destaca-se um homem chamado Francisco Marques, nascido em Cheleiros, homem de família, trabalhador, e, neste capítulo, representa todos os que morreram em nome da megalomania do rei. Outras personagens: José Pequeno, Manuel Milho, Tadeu e Isidro. Então, agora vou começar com a apresentação do capítulo 19. Antes da partida. "Terra solta, pedrisco, calhau que a pólvora ou o alvião arrancaram ao pedernal profundo, esse pouco o transportam por mão de homem os carrinhos, enchendo o vale com pó que se vai arrasando do monte ou extraindo dos novos caboucos." Aqui, este excerto faz uma descrição do quão movimentada era o espaço da construção do Convento de Mafra. Agora vou ver o excerto. Tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes da vida, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados".
[5:44]Aqui, este excerto representa a valorização que o povo teve para a construção do convento e o quão foram explorados. Assim, pela esta enumeração, também podemos reparar que era uma grande quantidade de pessoas para fazer a construção do convento. Agora, partida para Pero Pinheiro. "O cortejo de Lázaros e Quasímodos está a sair da vila de Mafra, ainda de madrugada, o que lhes vale é que de noite todos os gatos são pardos e vultos todos os homens." Neste excerto, podemos realçar que o dom de Blimunda mostrou que a vontade dos homens não era de estar lá. O tempo cronológico era Julho. "Soltos de carga, apenas jungidos aos pares, vão desconfiados da fartura e quase sentem inveja dos manos que vêm puxando os carros dos petrechos, é como estar na engorda antes do matadouro." Neste excerto, temos uma personificação, pois os bois não sentem inveja dos outros bois, na verdade, quem está desconfiado e com inveja são os homens. Isso é uma atitude humana. "Os homens, já se disse, vão devagar, calados uns, outros conversando, cada qual puxado aos amigos" - os bois e os trabalhadores são tratados de igual maneira, daí serem considerados amigos uns dos outros. Aqui, só se realça o quão mal é que eram tratados os trabalhadores do povo, pois os homens e os bois eram tratados de igual maneira. Ou seja, eram considerados amigos uns dos outros. Agora vou começar com a apresentação de alguns personagens, como Francisco Marques. "mas a um deles chegou-se-lhe o fogo ao rabo e, mal saiu de Mafra, largou num trote curto, parecia que ia a Cheleiros salvar o pai da forca, era o Francisco Marques que aproveitava a ocasião para ir enforcar-se entre as pernas da mulher" Neste excerto, temos inserido o personagem Francisco Marques, um personagem que representa o povo e o que ele sofreu para a construção e para o transporte da pedra. Festa ao ar livre. "Não havia barracas, não havia tendas, os soldados eram apenas os da vigilância costumada, mas parecia aquilo uma feira de gado, mais de quatrocentas cabeças, e os homens andando pelo meio dos bois, apartando-os para um lado, e com isso espantavam-se alguns animais." Com este excerto, podemos ver as condições miseráveis em que os trabalhadores tinham que estar neste percurso. Não havia as condições para os trabalhadores, que representam o povo, fazerem o trabalho como é de ser.
[8:25]Chegada a Pero Pinheiro e aparição da pedra. "Era uma laje rectangular enorme, uma brutidão de mármore rugoso que assentava sobre troncos de pinheiro, chegando mais perto sem dúvida ouviríamos o gemido de espanto que saiu da boca dos homens, neste instante em que a pedra desafogada apareceu em seu real tamanho." Nós, neste excerto, realizamos, reparamos que tem uma comparação, que é o "como", que compara o "gemir da seiva" com o "gemido de espanto". Depois, também temos uma personificação, que é "ouviremos o gemido da seiva". A seiva não consegue fazer um gemido, e depois temos ali o gemido de espanto dos homens, que é algo, uma atividade humana.
[9:16]Neste excerto, também podemos reparar na primeira aparição da pedra gigante. Só mais tarde é que a renomearam para "Pedra Benedicione". Em baixo, temos o excerto onde nós fomos buscar a informação, que a renomearam para esse nome. A força do povo. "Mas se estes homens e estes bois não fizerem a força necessária, todo o poder del-rei será vento, pó e coisa nenhuma. Porém, farão a força." "Foi para isso que vieram, para isso deixaram terras e trabalhos seus, trabalhos que eram também de força em terras que a força mal amparava". Aqui neste último excerto, dá para ver que eles serão uma epopeia, logo eles vão cumprir. Porque senão cumprirem, não serão uma epopeia. A mãe da pedra. "Manuel Milho, que estava ao lado de Cheleiros, medindo-se com a laje agora tão próxima, disse, É a mãe da pedra, não disse que era o pai da pedra, sim a mãe, talvez porque viesse das profundas, ainda maculada pelo barro da matriz, mãe gigantesca sobre a qual poderiam deitar-se quantos homens, ou ela esmagá-los a eles." Nós aqui, neste textinho, dá para ver que nós temos uma prolepse, que é um recurso narrativo através do qual se pode descrever o futuro. Ou seja, "ou ela esmagá-los a eles", dá para descrever, está a descrever o futuro. Através de outra prolepse surge a descrição do tamanho da pedra, com as unidades de medida atualmente utilizadas. "e quando um dia se acabarem palmos e pés por se terem achado metros na terra, irão outros homens a tirar outras medidas e encontrarão sete metros, três metros, sessenta e quatro centímetros, (...) em vez de duas mil cento e doze arrobas, diremos que o peso da pedra da varanda da casa a que se chamará de Benedictione é de trinta e um mil e vinte e um quilos, trinta e uma toneladas em números redondos".
[11:50]Agora, vou falar sobre a epopeia da pedra. A pedra será para a varanda da casa, e chama-se Benedictione. Agora, temos aqui um pequeno excerto: "Senhoras e senhores visitantes, e agora passemos à sala seguinte, que ainda temos muito que andar." Aqui, neste excerto, está para ver que nós temos uma prolepse e também temos sarcasmo. Durante todo o dia, os homens escavaram a terra, e Baltazar voltou ao carro de mão porque era preciso. Aqui, no "Dêem-me um ponto de apoio para vocês levantarem o mundo", dá para reparar que nós temos uma comparação da pedra ao mundo. Quando o sol se pôs, estava aberta a avenida, numa extensão de cem passos, até à estrada calçada. Agora, temos aqui o início da epopeia, que começa com um certo excerto: "Escuro ainda tocou a corneta." Descrição da Nau da Índia. Era uma plataforma de grossos madeiros assente sobre seis rodas maciças de eixos rígidos, no tamanho um pouco maior que a laje que teria de transportar. Esta foi construída em Pero Pinheiro com o objetivo de transportar a pedra.
[13:14]Agora, vamos passar a analisar como foi a viagem de volta para transportar a pedra desde Pero Pinheiro até Mafra. Esta viagem teve uma duração de oito dias, nos quais aconteceram diversos eventos e dificuldades que tiveram de ser ultrapassadas para conseguir concluir o objetivo de levar a pedra até o lugar de construção do convento. Assim, vou passar a explicar com excertos, os acontecimentos mais importantes de cada dia para ficarmos a perceber melhor como foi este transporte da pedra. Primeiro acidente. "Vinha puxada a braço, em grande alarido de quem fazia a força, de quem a mandava fazer, um homem distraiu-se, deixou ficar um pé debaixo da roda, ouviu-se um berro, um grito de dor insuportada, a viagem começa mal."
[14:06]O homem foi levado para uma enfermaria em Morenela, onde Baltasar já de outrora tinha passado a noite com Blimunda.
[14:15]É assim o mundo, junta no mesmo lugar o grande gosto e a grande dor, para inventar o céu e inferno não seria preciso mais que conhecer o corpo humano. Este excerto nos diz que, apesar das dificuldades que possa acontecer, como os acidentes, a viagem deve continuar.
[14:43]Agora passamos com o Dia Zero. Apesar do acidente, os trabalhos prosseguiram. A tarefa desse dia era tirar a grande laje inteira do buraco que os homens escavaram no dia anterior, e colocá-la estável em cima da nau da Índia. Espalharam barro na parede de mármore para reduzir o atrito contra a madeira e envolveram a pedra em cordas que posteriormente iriam ser puxadas pelas juntas de bois. Recorrendo a um discurso enumerativo e a várias onomatopeias, são descritos os trabalhos dos homens na colocação da pedra na grande carroça. "Todo o mundo puxa com entusiasmo, pena é que não esteja D. João V no alto da subida, não há povo que puxe melhor que este." No fim do dia, a pedra estava estável em cima da Nau da Índia. "Os homens e os bois já estão no seu jantar, depois será a hora da sesta, se a vida não tivesse tão boas coisas como comer e descansar, não valia a pena construir conventos" ... "Não foi a comida fartura, mas um estômago avisado sabe encontrar muito no pouco" Agora, vamos passar com os acontecimentos do Dia 1 do transporte da pedra. "eis senão quando ressoa a corneta" "move-se devagar, as rodas trituram os fragmentos de mármore que juncam o chão, pedra como esta de hoje é que nunca daqui saiu." O vedor e certos seus auxiliares graduados já montaram nas mulas, outros deles farão o caminho a pé por necessidade da obrigação. "Uma coisa é transportar a pedra para a varanda onde o patriarca, daqui por uns anos, nos há-de abençoar a todos, outra e melhor seria sermos nós a bênção e o abençoador, assim como semear pão e comê-lo." Este excerto mostra-nos como os homens não vão ser recompensados pelo seu trabalho. Os moradores de Pero Pinheiro descerem à estrada para admirar o aparato. "há quem comece a ter saudades de ver partir aquela tão formosa pedra, criada aqui nesta nossa terra de Pero Pinheiro, oxalá não se parta pelo caminho, para isso não valia a pena ter nascido." O vedor segue à frente com os seus ajudantes, vão reconhecer o terreno, medir a curva, calcular o declive e prever o acampamento. "Neste primeiro dia, que foi só à tarde, não avançaram mais que quinhentos passos." E esta ainda era a parte mais fácil da viagem. À noite, durante o descanso, alguns homens juntaram-se à volta de uma fogueira. Entre esses homens estavam José Pequeno, Baltasar, Francisco Marques e, mais tarde, chegara Manuel Milho. Manuel Milho começa a contar uma história: a voz narrativa. Falaremos agora da história de Manuel Milho. Manuel Milho passa a ser o narrador no final de cada dia até acabar a história. A história refere-se a uma rainha que vivia com o rei e tinha filhos, mas que não gostava de ser rainha, pois nunca tinha sido outra coisa para se comparar. Um dia foi-se encontrar com um ermitão para a aconselhar, queria saber o que precisava de fazer para uma rainha se sentir mulher. A conversa que tiveram foi sobre a existência do que se deseja ser e a rebelião necessária para deixar o que são. Foi tão profunda que até o ermitão se questionava no que ele queria ser. Um dia, os dois fugiram para tentar descobrir o que queriam ser ou o que eram. O rei ciumento e humilhado por ter sido deixado, mandou um exército procurar a rainha e o ermitão, mas não chegaram a encontrar e nunca se sabe se a rainha ou o ermitão chegaram a achar a resposta. Moral da história. Fala-nos da existência humana, que o mais importante é o ser humano e a sua essência, e cada um é aquilo que as condições e as circunstâncias sociais lhe permitam que seja. E, apesar da rainha ter estatuto e ser considerada superior ao povo, não sabia se queria ser rainha, o que demonstra mediocridade por parte dela. Inferioridade espiritual, ao invés do povo, uma classe considerada inferior, mas bem ciente do que era, inteligente nas tarefas mais difíceis, para colocar a enorme pedra no cargueiro. O narrador condena as diferenças sociais da época, daí surgir, em homenagem ao povo, a narração da história proferida por Manuel Milho. Agora, continuando com o Dia 2. "O dia seguinte foi de grandes aflições." "Apesar da estrada ser mais larga, havia mais curvas e o carro tinha de ser arrastado lateralmente, mais subidas que eram resolvidas pela força bruta e mais descidas que se tornaram uma aflição constante." Neste segundo dia, a pedra andou 1.500 passos, menos de meia légua (menos de 3 km). "Tantas horas de esforço para tão pouco andar, tanto suor, tanto medo, e aquele monstro de pedra a resvalar quando devia estar parado, imóvel quando deveria mexer-se, amaldiçoado sejas tu, mais quem da terra te mandou tirar e a nós arrastar por estes ermos". Nessa noite, Manuel Milho retorna à história, e quando termina já Francisco Marques e José Pequeno estão a dormir e Baltasar ia dando a sua opinião sobre a mesma. "Essa história não tem pés nem cabeça, não se parece nada com as histórias que se ouvem contar" "para homem que declarou ter voado e ser igual a Deus, és muito desconfiado". "Tão grande fora o sofrimento durante este arrastado dia, que todos diziam, Amanhã não pode ser pior, e no entanto sabiam que iria ser pior mil vezes." "Lembrava-se do caminho que descia para o vale de Cheleiros, aquelas apertadas curvas, aqueles declives espantosos, aquelas empinadas encostas que caíam quase à pique sobre a estrada, Como será que vamos passar, murmuravam para si próprios." E com isto, chegamos ao Dia 3. "Em todo aquele Verão não houve dia mais quente, a terra parecia uma braseira, o sol uma espora cravada nas costas." Perto da hora de jantar, chegaram a um alto onde se via Cheleiros, no fundo do vale. Ao contrário dos dias anteriores, o narrador termina o dia sem referir o descanso dos homens e, consequentemente, a história de Manuel Milho. Este dia foi uma pequena "introdução" ao dia terrível que se avizinhava. Esta afirmação pode ser apoiada pela referência textual do dia seguinte: "Ontem aquilo foi uma brincadeira de rapazes e a história de Manuel Milho uma fantasia", o pior estava para vir. Já no dia 4. Com isto mesmo é que Francisco Marques vinha contando, quer conseguissem descer quer não, esta noite em companhia da mulher é que ninguém lha tiraria. Levando consigo os ajudantes, o vedor desceu até ao ribeiro que lá em baixo passava, foi de caminho assinalando os lugares mais perigosos, os sítios onde o carro deveria ser encostado para garantir os repousos e maior segurança da pedra.
[21:51]Nesta fase, os bois foram dispensados e só os homens puxavam na parte de trás do carro, para que a pedra descesse calmamente. Neste dia, faz-se referência à importância e singularidade da pedra no excerto seguinte: "e tudo por causa de uma pedra que não precisaria ser tão grande, com três ou dez mais pequenas se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de poder dizer a sua majestade, É só uma pedra, e aos visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral." A pedra da varanda tinha que ser só uma pedra, porque o rei era só um e, por isso, deveria simbolizar o seu poder. É no Dia 4, também, onde ocorre uma tragédia: a morte de Francisco Marques. "Distraiu-se talvez Francisco Marques, ou enxugou com o antebraço o suor da testa, ou olhou cá do alto a sua vila de Cheleiros, enfim se lembrando da mulher, fugiu-lhe o calço da mão no preciso momento em que a plataforma deslizava, não se sabe como isto foi, apenas que o corpo está debaixo do carro"
[23:13]Num momento de descontrolo e distração, em frações de segundo, Francisco Marques morreu esmagado pelo carro e pela pedra. Esta personagem, como dissemos anteriormente, simboliza todo aquele que morreram na construção do convento, só por causa do capricho do rei. No dia em que Francisco Marques planeava passar a noite com a mulher, quatro colegas seus entregaram o caixão na casa da viúva. Mas este dia não iria acabar sem mais desgraças. Já no fim do vale, a pedra resvalou novamente e entalou dois bois contra a encosta. Os animais ficaram com as pernas partidas e tiveram de ser abatidos. Quem gostou desta notícia foram os moradores de Cheleiros. "Em Cheleiros ficou um homem para enterrar, fica também a carne de dois bois para comer". Continuando agora com o Dia 5. "Não se nota a falta deles. O carro vai ladeira acima, tão devagar como tem vindo, se Deus houvesse piedade dos homens teria feito um mundo rasinho como a palma da mão, levariam as pedras menos tempo a chegar." O caminho é melhor, mas o cansaço vai-se acumulando. Mesmo assim ninguém se queixa "para isto mesmo lhes foram dados". Estes homens assumem que foram concebidos por Deus para servirem o Rei e, portanto, resignam-se à sua tarefa. "Eeeeei-o, berra a voz, taratatá-tá, sopra a corneta, verdadeiramente isto é um campo de batalha, nem lhe faltam os seus mortos e os seus feridos" Neste dia, choveu pela primeira vez, desde que saíram de Pero Pinheiro, e a chuva foi muito bem-vinda pelos trabalhadores. Já no sexto dia, domingo, houve missa e sermão. O padre subiu para cima do carro e da pedra e improvisou um púlpito para se fazer ouvir às centenas de trabalhadores. O narrador critica quer o padre, quer a pedra. O padre por não se ter descalçado em cima da pedra, e a pedra por ser considerada "sagrada" por ter sido "sacrificado com sangue inocente".
[25:24]Para o padre, levar esta pedra "é certo que é pesada, mas muito mais pesados são os vossos pecados" é uma benção para estes homens. Para a igreja, os trabalhadores são uns privilegiados porque estão a cumprir uma penitência que lhes dará a vida eterna e, mesmo assim, recebem salário para o fazerem. O transporte desta pedra, e a construção do convento de Mafra são vistos como uma obra santa.
[25:48]O padre faz também referência a Francisco Marques, homem que morreu dois dias antes, numa sexta-feira. Afirma que este só está no paraíso (mesmo sem se ter confessado antes de morrer) por ter sido um "cruzado desta cruzada". Aos trabalhadores que morrem de doenças, o padre chama-lhes de "irredimíveis pecadores". O sermão acaba com "Deus nos dê a nós (membros da igreja) paciência, a vós (trabalhadores) força e a el-rei dinheiro para a levar a termo, que muito necessário é este convento para fortalecimento da ordem e alargado triunfo da fé, ámen". Aqui se prova que nestes tempos tudo girava em torno da igreja, até o rei, pois o convento não iria ser usufruído pelo rei nem pelo bebé, mas sim pela igreja.
[26:34]No fim do dia 6, Manuel Milho termina finalmente a sua história. Surgem as questões. José Pequeno pergunta: "Como é que um boieiro se faz homem?". Manuel Milho não tem resposta para isto e Baltasar diz "Talvez voando".
[26:55]Já no Dia 7, surge apenas uma referência a este dia: "Dormiram ainda uma noite no caminho". O fim da epopeia. Demoraram oito dias completos de Pero Pinheiro até Mafra. Chegaram no oitavo dia ao Terreiro "como se estivessem chegando duma guerra perdida, sujos, esfarrapados, sem riquezas". Toda a gente se admirava com o tamanho desmedido da pedra, tão grande. Mas Baltasar murmurou, olhando a basílica, tão pequena. Obrigado a todos por terem visto o nosso vídeo.



