[0:25]Eu tenho um recorde. Provavelmente, eu sou a pessoa que mais fez versões para esse TEDx. Foram seis textos completamente diferentes. A minha primeira versão foi sobre a minha história pessoal. Eu olhei e me apavorei. A segunda foi sobre empreendedorismo. O povo achou que parecia uma aula. Depois eu ainda fiz uma versão sobre gênero, uma sobre coragem e outra sobre o meu trabalho com impacto socioambiental. E tudo isso, gente, sabe por quê? Porque nesse processo de vir falar aqui com vocês, eu me peguei sentindo uma sensação que eu não sentia há muito tempo. Uma sensação que me acompanhou durante uns anos e eu achei que nem me pertencia mais. A sensação de que eu não posso ser o mesmo, que eu preciso me esconder, que senão as pessoas vão me achar ridícula. Eu sei que é forte, mas é assim que essa sensação vem. E quando eu percebi isso, foi quando a ficha caiu. Essa fala precisa ser sobre a minha história, aquela da primeira versão. Eu venho de duas famílias rurais muito grandes. E quando eu digo grande, eu quero dizer enorme mesmo. Meus pais prosperaram graças aos esforços que os meus avós fizeram para que eles pudessem estudar. Então, lá na minha casa, a gente só tinha um lema: estudar, estudar, estudar, estudar, para depois arrumar um emprego estável, muito bom. Lá em casa também, essa história de que menina é mais tranquila nunca funcionou. Desde criança, eu sou muito inquieta e quando eu cismo com algo, eu vou até o fim. Eu lembro que quando eu tinha 7 anos, eu e minha família a gente foi num baile de carnaval. Lá tinha um um concurso de fantasia, que eu cismei que eu queria ganhar. Mas, assim, as pessoas tinham caprichado muito na fantasia. A minha, até que era bonita, mas não tinha muita chance. Mas eu pensei, será que se eu dançar muito, eles podem me notar e eu ganhar esse concurso? E assim eu fiz. Eu dancei tanto, pulei, brinquei, que no fim, eu não ganhei o concurso de fantasia. Que ele era sobre a fantasia, né? Não tinha nada a ver com isso. Mas, eles criaram um outro prêmio de mais animada só pra me dar e reconhecer todo o meu samba no pé. E assim eu fui, gente, levando a vida, a vida me levando, sempre muito sapeca e, como meu pai gosta de dizer, tinhosa. Que na gíria, quem é teimosa, arteira, mas no dicionário também é quem é obstinado e não desiste dos seus objetivos. Quando eu tinha 10 anos, a gente se mudou de São Miguel do Oeste, no extremo oeste de Santa Catarina, para São José, na Grande Florianópolis. Eu lembro que no ano dessa mudança, a minha mãe levou eu e o meu irmão na Universidade Federal de Santa Catarina para passear e falou assim: meus filhos, é aqui que vocês vão estudar. Eu com 10 e ele com 12, imagina a pressão. E essa mudança, ela foi um divisor de águas na minha vida. Saí de uma cidade pequena, do interior, para uma cidade maior, perto da capital, onde tudo era diferente, inclusive o formato de educação. Na primeira semana de aula, a gente teve prova oral de tabuada. Aquela que a professora chegava e falava uma equação, tipo 7 x 8, e um aluno precisava dizer em voz alta a resposta. Acontece que na minha antiga escola, a gente ainda não tinha aprendido a tabuada. Toda vez que chegava a minha vez, a minha mão tremia, a minha garganta embargava, e eu ficava muito nervosa. Eu pensava, não basta ser aluna nova do interior, tem que ser a que não sabe matemática? E toda vez que eu errava, que eram todas as vezes, porque eu não sabia a tabuada, eu senti uma vergonha infinita. Na época também, eu sofri por causa dos meus costumes e sotaque diferente. Então, lá no interior, a gente fala gente, capaz, piar, e lá perto de no litoral, a gente tem um sotaque bem rapidinho, né, querido, não tem? E isso, para criança, é prato cheio de bullying. Eu não tinha ferramentas para lidar com o que estava acontecendo comigo, nem para contar para os meus pais. Mas de uma coisa eu sabia, eu não queria mais passar por aquilo. E o jeito que eu internalizei que isso ia acontecer é que eu tinha que ser muito boa em tudo, para que ninguém pudesse me criticar ou me achar ridícula. Logo, aquela Maira tinhosa, que pintava o 7 e seguia o seu coração, deu lugar a uma Maira mais séria, preocupada com o que os outros pensavam e também com o seu futuro. Muito rápido eu perdi o meu sotaque, me tornei popular na escola, boa aluna, boa filha e excelente nos esportes. Eu conciliava os estudos, as festinhas, os jogos e os compromissos familiares, que pelo tamanho da minha família, vocês devem imaginar que não eram poucos. E nessa de buscando ser boa em tudo, eu fui perdendo a minha essência e me tornando algo mais agradável, mais nos moldes de sucesso. Tentando me blindar de sentir aquela vergonha. E assim foi, e eu lembro que quando chegou o vestibular, eu fiz o que eu tinha que fazer para realizar o sonho da minha mãe. Passei na Universidade Federal e o que eu fiz nessa UFSC, meus amigos, focado em buscar um bom currículo, fundei atlética, fazia parte do time de futsal, fiz projeto de pesquisa, fui bolsista de projeto de extensão, fiz dois estágios, estudei inglês, francês, espanhol e fiz dois intercâmbios. Até na Indonésia eu parei. E antes mesmo de eu me formar, eu já tinha conseguido um emprego super bacana numa empresa descolada, onde eu tive um crescimento exponencial. Eu fui a primeira funcionária, passei por todas as áreas e em menos de 4 anos eu já era sócia e diretora de uma empresa que faz parte de uma rede global. Eu tinha um time incrível, a gente criava metodologias que impactavam a vida de pessoas no Brasil inteiro. Ou seja, eu tava criando uma carreira de sucesso. Invejada por muitos e muito motivo de orgulho dos meus pais. Mas a gente não esconde quem a gente é por muito tempo. Aquela menina tinhosa ainda tava dentro de mim. Ela só não tinha muito espaço para se expressar. Eu lembro de várias vezes me sentir sufocada e angustiada. E não é que eu não gostasse do que eu tinha feito. Eu amei a graduação, eu adorava o trabalho e eu sou muito, muito grata por a minha mãe ter sonhado com o que eu fosse mais longe do que ela podia ir. Mas era a motivação do porquê eu fazia tudo isso que me sufocava. Sempre buscando uma aprovação externa que nunca era o suficiente. E aí quando chegou em 2020, na pandemia, o ritmo das coisas diminuiu. Eu não tinha mais tantos eventos corporativos, compromissos familiares, os jogos, e de repente abriu um espaço dentro de mim. Para que eu pudesse olhar para algo que já estava gritando aqui dentro. Eu tava exausta, exausta de tentar ser boa em tudo, exausta do excesso de trabalho, exausta do excesso de compromissos. Da agenda sempre cheia, das mil reuniões, eu não aguentava nem mais ver a minha cara numa videochamada. E aí o que que eu ia fazer? Tinha uma voz que dizia assim, larga tudo. Só de ouvir essa voz, eu sentia aquela vergonha. E aí eu fui empurrando com a barriga, empurrando com a barriga e aprendi da pior maneira que quando a gente não se escuta, o nosso corpo fala. Foram meses muito difíceis, eu tive insônia, pesadelos e pior, um dia eu acordei com a minha mandíbula travada por estresse. Eu tava desesperada. Eu cheguei na minha terapeuta e pedi um remédio tarja preta para que eu pudesse dormir. E ela disse que isso só ia mascarar algo que eu precisava entender e que ela podia me receitar apenas um remédio, que eu parasse, refletisse e tomasse melhores decisões para mim mesma. Depois desse tapa na cara, eu juntei toda a minha coragem, todo o meu dinheiro e decidi largar tudo. E pensei, vou fazer um sabático. Que, na verdade, foi um nome bonito para eu lidar com a vergonha do desemprego. Já que eu não conseguia nem abrir um computador. E aí eu fui contar para o meu pai e tentar parecer que era o movimento da minha carreira e ele disse: minha filha, não faça isso, talvez não seja tão bom, e eu percebi, cara, eu não tô sendo sincera. Eu falei pai, a verdade é que eu não tô feliz. Ele me olhou assustado e falou: então vai atrás da tua felicidade, minha filha, eu e a tua mãe, a gente vai te apoiar. E esse marcou um novo momento na minha relação com a minha família e amigos, que eram acostumados com uma Maira que dava conta de tudo e de repente, viram o meu lado vulnerável. Uma Maira que por um tempo foi só uma criança meio perdida, que não sabia o que queria fazer, mas sabia que queria seguir um caminho de mais verdade. E nesse processo, eu percebi que essa corrida pelo sucesso, ela até te dá cargos e salários, mas ela não tem garantia de felicidade. E aí eu comecei a entender o que eu fazia porque eu gostava e o que eu fazia porque eu achava que era o que os outros queria que eu fizesse. E isso, amigos, são coisas completamente diferentes. Foi muita meditação, terapia para começar a entender os meus desejos, escutar a minha intuição e principalmente bancar tudo isso. E nesse florescer da Maira, eu descobri que empreender faz parte da minha verdade e que alegra muito a minha criança inquieta e tinhosa. Ainda mais empreender na área de educação, que foi o que mudou a vida dos meus pais lá atrás e a minha também. Por isso, hoje, a minha empresa trabalha para que empreendedores, profissionais e jovens possam buscar o seu caminho.
[12:08]Um desses projetos, um dessas jovens é a Fernanda. A Fernanda é de São Luís do Maranhão e ela vem de uma família bem humilde e ela achava que tinha que entrar no primeiro emprego para conseguir ajudar em casa. Durante a a jornada, a Fernanda percebeu que ela gostava e era muito organizada e podia ter uma vocação no administrativo de alguma empresa. E foi dentro das nossas aulas que a oportunidade veio. A gente chamou uma pessoa do Sistema Nacional de Empregos para falar das vagas abertas em São Luís. A Fernanda se inscreveu em uma, passou e teve sua primeira experiência profissional, menor aprendiz numa grande empresa no administrativo. E a história da Fernanda me lembra o trecho de um livro de uma pessoa que eu admiro muito, que é o Professor Yunus. Ele é economista e ganhador de um Nobel da Paz. Ele diz assim: todas as pessoas nascem não só capaz de cuidar de si, mas também de contribuir para o bem-estar do mundo. Algumas pessoas chegam no seu potencial, outras, em função das desigualdades, não conseguem nem tirar da caixa seus dons e talentos e o mundo fica assim, desprovido das suas contribuições. Hoje eu trabalho para que mais pessoas possam tirar da caixa seus dons e talentos. Porque eu já vivi desalinhada dos meus, mas eu sei que não não tem nada de errado em ser como eu sou hoje. E que eu sou sim, todas aquelas versões que eu trouxe lá no começo da minha fala pra vocês. Sou mulher, sou empreendedora, trabalho com impacto socioambiental e ainda adoro um futsal. Desde que eu faça tudo isso pela motivação certa, que é a motivação de ser feliz e buscar o meu caminho. Mas esse TEDx me mostrou que eu não tô imune as sombras dos meus traumas, mas que diferente da Maira de 10 anos, hoje eu tenho ferramentas para lidar com o medo do ridículo e da vergonha. E toda vez que ele vem, eu penso, o que de pior poderia acontecer se eu sentir toda aquela vergonha? E eu penso que pior mesmo do que alguém me achar ridícula, é eu deixar de fazer alguma coisa que eu gosto, que é importante para mim, com medo da opinião dos outros. E nessa eu vou, tentando ser mais eu em todos os ambientes, inclusive no profissional. E eu me sinto mais leve, mais respeitada até, e percebo que é muito mais fácil ser quem a gente é do que se esforçar para ser tentar ser outra coisa. E que a autenticidade, ela conecta. Autenticidade, ela conecta e logo eu não me sinto mais vulnerável a opinião dos outros. Isso lembra também o meu livro de cabeceira, chama Mulheres que Correm com Lobos. Desse livro tem uma frase assim: ser forte não significa desenvolver e exercitar seus músculos. Ser forte significa conhecer a própria luz e sustentar o que sabemos sobre nós. Ser forte significa manter-se firme e seguir a sua verdade. E essa é a minha verdade. Ela vem daquela menina tinhosa, que descobriu que às vezes não é fácil bancar quem a gente é, mas que é muito melhor do que viver uma vida desalinhada de si. E se algum dia você se sentir desalinhado, se você sentir que você se perdeu da sua essência, eu tenho só uma dica, volte para sua primeira versão, é lá que mora a sua verdade. Obrigada.



