[0:16]Ler mais, ler melhor de hoje é dedicado a Manuel António Pina, que nasceu no Sabugal, na Beira Alta, em 1943. Em 1974, licenciou-se em direito pela Universidade de Coimbra. A atividade literária iniciou-se um pouco antes da licenciatura, em 1973, com a obra O país das pessoas de pernas para o ar. Da sua bibliografia fazem parte cerca de quatro dezenas de obras de poesia, ficção, crónica, ensaio e literatura infanto-juvenil. E ainda duas dezenas de peças de teatro. Manuel António Pina recebeu os principais prémios literários portugueses de poesia e de literatura infanto-juvenil. Recebeu ainda, entre muitos outros, o prémio Gazeta de Mérito em 2006 e o prémio Camões deste ano. Entre outras distinções, foi-lhe atribuída em 2001 a Medalha de Ouro da cidade do Porto e, em 2005, a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique.
[1:34]Eu nasci numa, em Sabugal, na Beira Alta. Que é no distrito da Guarda, não é?
[1:53]Já relativamente perto da fronteira. Só que o meu pai era funcionário público e estava abrangido na altura por uma lei que só permitia que só lhe permitia estar no máximo seis anos em cada terra.
[2:08]Que na altura também não havia, como há, facilidade de arranjar escolas. Havia muito poucas escolas como eu e o meu irmão tínhamos que, andávamos em idade escolar, ele normalmente aos três anos começava a pedir transferência. Porque senão seis arriscava-se para um sítio onde não havia escolas e isso significou que a minha vida, a minha infância foi toda de um lado para o outro. Fiz a admissão ao Liceu, que na altura fazia-se, não é, também em Castelo Branco. O segundo eu fiz em Santarém, o terceiro é que foi em Aveiro do Bairro. Mas como é que eu me aproximei do Porto? O quarto também foi em Aveiro do Bairro, o quinto foi em Aveiro. O sexto e o sexto outra vez, que eu fiz dois sextos, que a minha primeira ideia era ir para a Academia Militar. Foi também em, em, em Aveiro, depois passei para Coimbra, depois vim para o Porto, já no fim do Liceu. E finalmente fui, fui, fiz o curso depois o, o curso de Direito em Coimbra, de maneira que eu estou aqui no Porto já que desde os 17 anos.
[3:09]Eu estava na tropa ainda quando, quando o jornal Notícias abriu um concurso e eu concorri, os primeiros anos do meu jornalismo, que eu fiz, fiz em acumulação com o exército. Que eu estava aqui no Porto no quartel general, colocado. E depois entretanto fui, fui para a advocacia, de facto, ainda, ainda acumulei alguns anos, mas é que eu tive que optar. E acabou por ceder o elo mais fraco, que foi o direito e por que é que é o elo mais fraco? É o elo mais fraco porque é o elo que, eu gosto muito de direito. Porque é o elo que, tem, era mais imperativo, tinha, tem, tem um prazos muito estritos e há muita responsabilidade, não é? No jornalismo, no, não há, não havia aquela, embora eu gosto de trabalhar sob pressão, mas não havia aquela, aquela, aquela omnipotência da, da obrigatoriedade de, de fazer a coisa até aquela data de prazos e coisas, e sobretudo era muito, muito trabalho as duas coisas juntas. E depois o jornalismo tinha outra vantagem relativa em relação ao direito, é porque eu trabalhava com a mesma matéria prima com que trabalha a literatura, não é, com as, com palavras. E de modo que, acabei por optar pelo jornalismo, como o modo, que eu costumo dizer, às vezes, digo às vezes isso, como o jornalismo serve para, para ganhar a vida e a literatura assim uma, serve-me um pouco para tentar salvar a vida.
[4:34]Desde pequeno, desde os 7 anos que eu já sabia escrever, já fui, quando fui para a escola, já sabia ler e escrever. Quando fui para a escola aos 7 anos, mas desde os 7 anos que escrevo versinhos, sempre escrevi sempre, outras pessoas fazem, outras pessoas, cantam, outras dançam, outras, outras pintam. Eu sempre escrevi. E tinha, na altura, 74, tinham, provavelmente, não sei porquê, mas tinha nascido as minhas filhas, já, tinha as duas filhas pequenas. Uma já tinha 4 anos, a outra tinha, tinha acabado de nascer, 73. A outra ainda não tinha nascido, nessa altura, só ainda tinha uma filha. Foi em 73. E o que é que aconteceu? Eu tinha, fui escrevendo uns contos, assim, para mim, não é? E entretanto, um, um grupo de amigos fez uma editora, a regra do jogo. E, e pensou-se editar lá o livro. Eu tinha aquele livro, editava-se o livro, começou aí. E logo, logo o segundo livro em 74, que foi no ano seguinte, exatamente nas vésperas do 25 de Abril, o livro de poesia também foi publicado nessa altura, na mesma editora, a regra do jogo.
[5:48]Normalmente eu escrevo-os, portanto, porque, porque se calhar se não escrevesse era um pouco, não quer dizer que eu passasse, vivesse, que, que não pudesse passar sem escrever, mas penso que seria outra, seria outra pessoa. Se calhar não, não propriamente infeliz, mas seria, se calhar, era capaz de ser infeliz se não escrevesse, pronto, vamos lá, não vamos dramatizar muito, mas se calhar. De maneira que, ah, é um, é um domínio de, de liberdade total. De liberdade livre, como diz o Rambo. De modo que eu não tenho, não consigo escolher. Eu escrevo porque, como lhe disse, se não escrevesse, sentir-me-ia provavelmente infeliz. Aliás, só o escre, o Borges, por exemplo, fala, o Jorge Luís Borges, quando está, quando está muito tempo sem escrever, sente remorso. O, o Paul Claudel diz que há, há qualquer coisa nele que se quer transformar em palavras, já sempre esse tipo de respostas. Comigo também, portanto, se, uma, às vezes essa voz exprime-se, que é uma, uma voz que é, ou melhor, não é propriamente uma voz, é mais a procura de uma voz. Exprime-se, enfim, num género, outras vezes noutro, portanto, não consigo optar entre uns e outros. O que acontece é que frequentemente, ah, e basta até estatisticamente, eu escrevo mais poesia que outra coisa qualquer.
[7:26]Escrevi muitos textos para televisão, ah, e não é a mesma coisa, de facto, um livro é um, um objeto físico que se, que se, e quando sai um livro a, a publicação de um livro é sempre, já publiquei tantos, é sempre muito emocionante, um ato emocionante. Agora, ah, e nesse, nesse sentido, marca sempre. Agora, o que resta depois, uns vão-se sucedendo aos outros, ah, nós vamos transformando, os livros transformam-se connosco. E, e além de nós, não é? E de maneira, o modo como eu leio o meu primeiro livro, a sensação que eu tenho é que um foi um livro escrito por um estranho. Eu sei, eu não sou completamente tonto, sei que o escrevi, que fui eu que o escrevi, mas esta palavra, este eu, é um ser muito, é um ser muito mutante. Quando estou muito tempo sem escrever, começo a sentir uma certa, uma espécie de incómodo. Também há muitos escritores que falam em incómodo, um certo incómodo, uma certa comichão, digamos assim, a vontade de escrever, ah, e só nessas alturas é que escrevo. O conselho que eu, que eu daria era o seguinte, era que, quando não se gosta de um livro, é fechá-lo e procurar outro. Ah, há sempre algum na, numa, na biblioteca, numa, na prateleira, há sempre um livro que está à nossa espera. E esse livro é aquele livro quando nós abrimos, começamos a folhear, nos abre portas para sítios onde saímos a saber, sempre estivemos.
[9:23]As obras de Manuel António Pina têm sido adaptadas ao cinema, televisão e banda desenhada e musicadas e editadas em disco. Até amanhã.
[10:00]Programa apoiado pelo Plano Nacional de Leitura.



