Thumbnail for Conheça o “pernambuquês” e fique por dentro das gírias do Nordeste by Domingo Espetacular

Conheça o “pernambuquês” e fique por dentro das gírias do Nordeste

Domingo Espetacular

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[0:00]Achamos no Brasil que o jeito de falar a nossa língua muda de região pra região, isso todo mundo sabe. Difícil é perceber que as expressões e também o sotaque mudam numa mesma região. É como acontece no nordeste. Essa semana nossa saltitante repórter, Maga, vai ensinar a gente a entender o português de Pernambuco, o pernambuquês.

[0:40]Estamos em Recife, cidade conhecida como capital do pernambuquês. Anda sabida, né? Tabacudo. Tabacudo. E a nossa repórter pernambucana apresenta o dicionário da terra. Ô, Maga, você cortou o cabelo? E aí, Paulo Henrique? Hoje eu vim aqui com este meu cabelo novo que, como o povo da minha terra fala, tirei pra lavar. Tirar para lavar significa cortar o cabelo. E é isso que eu vim mostrar vocês hoje, uma linguagem que só quem é nordestino entende, o pernambuquês. Mas rapaz. Vem com a Maga. Vamos começar por uma expressão que está na cabeça, quer dizer, na boca do povo. Como é que se chama, como é que se chama isso aqui em Pernambuco? Ponta. Ponta, é? Ponta, é. Gaia. Gaia, o que mais? E chifre. E feito de cabeça. Feito de cabeça, aí é cabeça de touro. Como é que faz? Ah! É! O Mercado São José é um bom lugar para aprender o pernambuquês. Oxente, pensou que ia esquecer de você? Oxente, pensou que eu ia esquecer? Seu Pompílio é um expert no dicionário de Recife. Tu sabe o que é, eita que hoje eu tô com a fome da bexiga lixa, o que é que significa? É que tá com muita fome mesmo, tá seco mesmo. Tá seco, né? É, tá seco mesmo, é. Tá seco, o que vem morre. Pronto, e rala. Rala bucho, o que que é? Rala bucho é, chama-se uma dança, né? Quem dança colado, rala o bucho no bucho do parceiro. Eita Maga. Vamos ralar o bucho aí e dançar.

[2:28]Maga é gente boa, mas é também muito buliçosa. Buliçosa, quem gosta de mexer, tipo tu já chegou ali vendo a saia, buliçosa, chegou bulindo. Já chamou de buliçosa que eu saí mexendo as coisas dela. Não, não, não, visse, não é crítica não. É só pra, já chego olhando. É, é um adjetivo, não necessariamente ruim. A vendedora Amanda é paulista, mora em Recife há alguns anos. Será que ela já domina o pernambuquês? Tu sabe o que é um cafuçu? Sei. É o que? É aquele boizinho assim, bem estranho, bem esquisito, mas que é gatinho lá no fim das contas. É aquele charme debaixo do bigode. Exatamente. Cuidado, cuidado, porque nem sempre cafuçu é elogio. Tem que ver como vai aplicar, porque pode ser xingamento também. É verdade. Cuidado só com o jeitinho. Fala piscando o olho, tá tudo certo, né? Cafuçu, jogando o charme, bota a mão no cabelinho. É, cafuçu é de onde? Agora, a prova de fogo para a paulista Amanda. Sabe o que é infeliz das costas oca? É alguém que tá lascado, né, mulher? Lascado. O povo não deve tá entendendo nada. O que é lascado? Alguém que tá ferrado, tá com problema, tá com as dificuldades assim, não tá muito bem das pernas. É, então infeliz das costas oca. É, pelo jeito Amanda já pernambucou. Quer dizer que tu gosta muito aqui em Recife. Gosto muito. Tu é arriada os quatro pneus por Recife. E o step junto. Maga, como é que se chama um caloteiro em Pernambuco? Pirangueiro, trambiqueiro, B.A. Checheiro, checheiro. Ah, tem tanto checheiro. Checheiro, o que que é, um comédia? Vem cá. Um comédia que não quer pagar a mulher, é comédia, é pilantra, é safado. Então, vamos aprender mais pelas ruas de Recife. Eu hoje vou saber o que é afolosado. Uma coisa afolgado. Folgado, já era pequeno e já afolosou. Um negócio de amarrar cabelo que a gente chama de pompom, é, aí ficou folgado. O que é amulengar?

[4:34]É o que? É pegar na pessoa? É. Amulengar? É amulengando, me pegando assim. Tu gosta de gente que conversa amulengando, tipo, oi, mulher. Não gosta, não, de gente que amulenga? Dá cotoco. Dá o que? Cotoco. O que é cotoco?

[4:52]Agora, Maga vai fazer o teste do pernambuquês. E agora eu vou botar o meu óculos para ficar com cara de sabida. Produção? Vugo, inteligente, esperta. Vou escrever algumas palavrinhas no quadro, produção. Olá, obrigado pela rapidez de sempre. E vou saber do povo se o pessoal sabe realmente o que é que significam essas palavras. Fuleiro. Fuleiro é aquela pessoa que você marca para sair com alguém em algum local e ela faz fuleragem com você e não sai. Frouxo é sem coragem.

[5:31]Me diz aí o que é que é Greia. Ele não sabe, eu sei. Greia é uma pessoa engraçada, divertida. E peitica, Maga, o que que é? Peitica. Uma peitica é alguém que fica aperreando, que também é daqui, perturbando, enchendo o saco, fica, peitica isso aí. Fica peiticando. E Pantim? O que que é isso? Pantim é uma pessoa que não gosta de curtir, que a pessoa gosta, não gosta dos lugares que a pessoa gosta. Ah, não faço isso, eu não topo aquilo. Aí a pessoa é cheia de pantim, cheia de fricote. Agora é torar o aço. Torar é, sei lá, é bota pra torar, bota pra lascar. Lascar, é, vai e arrasa. Vai e arrasa, detona, entendeu? Não é. Professora Maga, explica para elas. Torar o aço é quando a pessoa está com muito medo. Tá com tanto medo que toraria até um aço de tanto medo. Que eu acho que se botasse um aço na mão, assim, ia até torar o aço, eita meu Deus. É verdade. Eu toraria um aço se eu visse um sapo, porque eu tenho pavor a sapo. Já aprendeu. Torar o aço quando vê um sapo. E como é que a pernambucana chama o namorado? De Mõ. De Mõ. É um apelido muito carinhoso usado aqui no Nordeste, pernambucanamente, que é abreviação de amor. Exatamente. Né? Ou então quem sabe uma vaca, um Gino, Mõ. Mô. Mô. Ele não corre, não, quando chama ele assim. Gente, o cara correu, tá lá do outro lado da rua. Vai atrás dele, mulher, vai te embora. O namorado dela rodeou a praça. Fez a volta na praça. Picou a mula, foi embora. Mas a gente volta, viu? Antes de começar a falar em pernambuquês, a Maga encontra a Clara, uma turista portuguesa que acabou de chegar. Clara, gostaria de saber se você é uma mulher arengueira. Não sei. Arengueira, aqui no Nordeste, pernambucanamente, significa que gosta de brigar. Não. Então você é uma pessoa tranquila. Muito. Quando está sem dinheiro, fica aperreada?

[7:48]Não sei, essa palavra eu não conheço. Aperreada é quando tá preocupada. Ah. E eu gostaria de saber como é que você diz que tá com fome. Tô com fome. Por que não? Sabe como a gente diz aqui? Sei. Estômago colado nas costas. É, estômago colado nas costas. Ah, tá sabendo, ó. Clara está apenas um dia em Recife e já aprendeu a primeira lição. Oxe. Oxe. Fala lá em Portugal assim? Não. Não. Só aqui. Só. E tu usa como? Usa aí agora. Oxe. Oxe é um voto, só isso mesmo. Atenção, atenção, vai começar a aula. E agora estou com ela, essa mulher desenrolada, Maria das Graças, que é professora da língua portuguesa. Tudo bom? Tudo bem, está tudo bem. Professora, qual a palavra mais estranha do dicionário de Pernambuco? Por exemplo, em um local que eu estava, alguém perguntou a mim: "Tá uma cruviana imensa, não é?" Eu fiquei sem saber. Que isso, Maga? Tá espantando o que? Presta atenção na aula. Afinal, o que que é cruviana, professora? Eu não sabia. Aí fiquei ao lado da pessoa e perguntei: "Tem sempre essa cruviana?" Ela disse: "Sim, esse frio muito forte." Cruviana, um vento bem frio, mas não tem nada a ver. São termos em que as pessoas aprenderam com seus antepassados, que não tinham uma certa cultura nem um conhecimento e iam abreviando as palavras. Que bicho foi esse? Vixe, que tem um bichinho. É assim que fala? É, tem um bichinho que vai me ferroar, na minha linguagem, a abelha quer me ferroar. Ah, é uma abelha belhuda, que como dizem uns pernambucanos, emburacou. Se meteu na gravação. E essa abelha aqui, tá me enchendo o saco.

[9:51]Sai, viu? Eu vou cantar pra mainha. Pronto, a abelha pegou o beco. Que bom, pernambuquês significa, foi embora. Voltamos à nossa aula. O recifense, ele também criou a sua própria gramática. Por exemplo, um caso peculiar é o uso do pretérito do subjuntivo em lugar do pretérito do indicativo na segunda pessoa. Misericórdia, eu não entendi foi nada. Oxe, o que que significa isso, professora? O correto seria: "foste lá", aí você diz: "Fosse lá." Foi dessa forma que surgiu o famoso vice, vice, menina. Dizem que o pernambucano corta as palavras. É verdade, professora? Em cada região tem o seu ritmo. O baiano, ele fala meu rei. É mais devagar, né? E aqui não, aqui nós falamos as palavras com mais pressa. Quando eu digo comendo, telefonando, escrevendo, é regional, é daqui. É, o meu apelido mesmo, me chamam de Maga. Era pra ser Magra. Magra. Mas como nordeste, pernambuquês, fica maga. E agora um bate-bola em pernambuquês. Pernambucano não diz que vai longe. Diz que tá na. Tá na baixa da égua. Pernambucano não diz que é de baixa qualidade, diz que é peba. Pernambucano não é desarrumado, ele é malamanhado. Pernambucano não pega carona, ele pega bigu. Pernambucano não sai arrumado, ele sai imperiquitado. E de onde é que sai essa ideia de imperiquitado? Imperiquitado. O pássaro, o periquito, ele não é todo bonito, a plumagem é diferenciada, não é? É, aí as pessoas dizem: "Fulano está todo imperiquitado, está toda bonita." O que mais, Maga? Ele também mangar dos outros, fulano mangar. Então, cuidado nessa manga. Fulano tá mangando dela, pernambuquês, está rindo dela. É, o dicionário dos pernambucanos vai longe. Tem muitas páginas. Como é que se diz isso em pernambuquês, Maga? É, papel que só a gota. Gota. Papel que só a gota, porque papel que só a gota é muito. Papel que só a gota, porque a gota, quando tá chovendo, são várias gotas, então muitas, muitas gotas. Eu tenho serviço que só a gota. Eu tenho grande quantidade de serviço. Próxima lição. Se Hollywood fosse em Pernambuco, como se chamariam os clássicos do cinema? Assim caminha a humanidade, pra onde nós vai? Eu, a patroa e as crianças, como é que é? Eu, a mulher e os bruguelo. Guerra dos mundos? A chibata comendo no centro. Uma linda mulher. Cabrita arrumada. Olha, ia ficar mais bonito até, achei mais elegante. Mamma mia. Ô mainha. Os filhos do silêncio. Os meninos do mudim. Velozes e Furiosos? Os cabra vechado e invocado. Aí, a brava e vechado e invocado, nossa, isso não dá. Bom, hora da merenda, do recreio. A nossa produtora vai trazer o nosso bolo de rolo, que é a nossa representação de Pernambuco. Produção? Sem falar da nossa paçoquinha de midubim. E o midubim propriamente dito. Midubin é o amendoim. Produção, cadê o midubim? Na boca, por favor, produção. Muito obrigada, estou satisfeita. Comida no bucho, pé no mundo. Vamos embora e bem-vindos a Pernambuco. Ó, já começou aqui a pexinha. Eu já vou comendo bolo de rolo. Vamos, vamos aproveitar, vamos. Um vocabulário que é só a gota. Oxente. Mas, rapaz. Ah! O pernambuquês que nós achamos no Recife. Mô. Mô. Achamos no Brasil.

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