[0:10]Quem é Schumann? Hoje eu vou falar sobre Robert Schumann, nasceu em 1810 e morreu em 1856. Ele é o auge do romantismo alemão e hoje, se você ficar comigo até o final desse vídeo, você vai ter um bom retrato de quem é esse compositor tão especial e tão único. Fica comigo.
[0:36]Eu sou Simone Leitão, pianista e eu estou aqui nesse canal para te aproximar da música clássica, para te explicar aquelas coisas da música clássica que muita gente não te explica. Você quer se aproximar, mas você não sabe como ouvir e como tocar, eu estou aqui para isso. Então é só se inscrever no canal e curtir, depois me deixa aí seu comentário se você está gostando desse tipo de conteúdo por aqui. Então, Schumann é um compositor que ele é daquela grande geração dos românticos, né? Na década de 10, 1810. Então, Mendelssohn nasce em 1809, ele em 1810, Chopin em 1810, Liszt em 1811. 1813 a gente tem Verdi e Wagner, que é o grande ano da ópera e 1819, Clara Schumann. Então, essa geração, tem muito mais gente, claro, né, mas essa geração é uma geração que define o romantismo alemão. Ele tem em primeiro lugar a ligação com a literatura. Então a literatura, ela vai junto com a música, junto, juntinho. E no caso de Schumann foi simplesmente natural, o pai dele era editor e na casa dele tinha muitos livros. Ele foi criado entre os livros e justamente os livros forjaram ele, forjaram a música dentro dele.
[2:13]Como você sabe, Schumann foi entendido que ele tinha uma questão mental que mais tarde acabou virando uma esquizofrenia. O que poderia ser talvez uma bipolaridade, não sei, não dá para saber, porque ninguém diagnosticou de fato. O fato é que ele tinha mudanças repentinas de ideias, de humor e tudo. E isso tinha muito a ver com a literatura também que ele lia. Jean Paul Richter, que foi um escritor que influenciou muito Schumann, ele escrevia de uma maneira muito especial. Apesar de ter nascido em 1767, morrido em mais ou menos 1830, ele escrevia no, a poesia, naquele modelo clássico alemão mesmo ali, naquela escola de Weimar. Mas ao mesmo tempo ele trazia muita metáfora, muita fantasia, humor, símbolo. As obras dele, eles eram cheias de personagens que mudavam repentinamente de humor e a prosa, ele juntava a prosa natural, normal com essa escrita. Por que que eu estou falando isso? Porque Schumann foi Jean Paul Richter para o piano. Aliás, ele lia as obras dele, então, depois que ele leu um romance de Jean Paul Richter, ele escreve Papillons (Op.2, 1831). Que é o quê? É a sua primeira grande obra, né, Opus 2. E Papillons traz ali bem o que Schumann era, uma obra cheia de personagens, miniaturas, fragmentos, fragmentos psicológicos, que, na verdade, esses fragmentos, eles, um interrompem o outro. É como se fossem falas lá dentro. Aí está a inovação em Schumann, porque para você entender Schumann você tem que entrar no mundo dele. E o mundo dele é cheio de código e cheio de símbolos e fragmentos. Então assim, vamos pensar, Beethoven sustenta o quê? A grande forma, né? A forma alemã, a sonata, que tem uma ideia, que você desenvolve aquela ideia. Aquele tema vai e volta, depois ele aparece num próximo movimento, tudo isso é em unificado em uma grande obra. Então a gente pode dizer que é uma ideia musical, o quê? Horizontal, já a música de Schumann, ela é vertical, ela vai te levando para o interior. Vamos lembrar o seguinte, o que era o romantismo, se não o retorno ao homem interior, aquele ideal da idade média, trazido por Santo Agostinho na Cidade de Deus. O oposto do homem cívico, que é o homem da pólis, o homem da ordem, o ideal clássico grego que depois também influenciou o quê? O classicismo. Então é sempre essa coisa antagonista, e essa ambiguidade na música de Schumann, porque ambiguidade é algo muito normal no romantismo, é parte da estética romântica a ambiguidade. Ela é mostrada para ele é muito fácil porque ele tem dois personagens dentro dele, Florestan e Eusebius. Florestan é isso aqui que eu toquei, é um personagem mesmo, ele assinava como Florestan, porque ele tinha uma revista, ele era um crítico muito influente, e muitas vezes ele assinava como Florestan, mas ele assinava como Eusebius, que eram essas duas pessoas. Florestan era para fora, era um cara alegre, feliz, ele é cheio de energia Beethoveniana, forte, solar, ritmo e tudo mais. Eusebius, meditativo, introspectivo, às vezes meio deprimido, com muito suspense, aí eu preciso dizer para você o seguinte, a pausa em Schumann ela é um elemento expressivo. Então, quando você vai tocar Schumann e tem uma pausa num momento muito retórico, cheio de perguntas, você fica nela. Estou falando aqui mais hoje sobre a estética da música de Schumann, porque ela é muito específica. Quando a gente fala de código, o que que é código? Ele tem vários códigos. Ele tinha código para escrever cartas para Clara, como você sabe, Clara Schumann foi a paixão da vida dele, foi a mulher da vida dele, se casaram, tiveram oito filhos, não sei o que. E durante um período forte do relacionamento deles, três anos, o pai proibia que eles se vissem, interceptava cartas, uma série de coisas e eles continuavam se escrevendo, se amando, pá pá pá, e ele escrevia em código, ele tinha uma forma de escrever para ela. Todos os dias ele escrevia diários, então, o diário dele realmente tinha um bloco de diários que tinha a ver com um período da vida dele. E ele exigia que Clara escrevesse um diário também, principalmente da relação íntima deles. Todo dia que fizessem uma relação, tivessem uma relação íntima, ela depois tinha que escrever o que que ela sentiu, o que que ela gostou, como é que ela estava se sentindo emocionalmente e tal, e ela nem era muito disso, mas ela escrevia, porque ele escrevia muito sobre isso. Quando você vai interpretar, por exemplo, vou voltar em Papillon, eu estava falando em Papillon e larguei. É, na verdade, uma suíte de personagens que são momentos psicológicos dele, na verdade, mas são os personagens e eles se interrompem. E, na verdade, ele disse que ali é um baile de máscaras, só que elas são peças curtas, e muitas vezes, muito usadas para quem tá começando a estudar piano, para quem é intermediário, precisa entender a linguagem romântica. Se você não entra no mundo de Schumann, você não consegue tocar a música dele. E você precisa ter muita imaginação, porque o piano para Schumann, ele é um confessionário. Ele confessa o que está sentindo ali, não é como Liszt, que é um espetáculo, não é como Chopin, que também é um confessionário, mas é diferente. Chopin era um grande pianista, foi um grande pianista, Schumann não conseguiu ter carreira de pianista. Ele inclusive destruiu a mão, porque ele ficou tentando criar uma técnica lá, independência de dedos, ficou segurando aqui enquanto tocava e acabou quebrando a mão, não conseguia mais tocar, né, teve essa lesão. Então, quando você chega em Carnaval Opus 9, o Carnaval Opus 9 é a mesma coisa, mais ou menos, de Papillon nesse mesmo sentido. Você tem personagens ali, Chiarina, que é a Clara, Estrela, que, na verdade, é Ernestine von Fricken, que foi a namorada dele durante muito tempo, uma coisa controversa, que teve uma época que ele estava com Clara e com ela, e Clara tinha a irmã dela, uma confusão. Aí você tinha Chopin, aí você tem Florestan e Eusebius, aparecem ali. Eusebius e Florestan, dependendo da peça, eles são diferentes. Tem peça que são feitas assim, para mostrar, olha, esse aqui é o Eusebius, esse aqui é o Florestan. Tem coisas que você vai tocar que você vai falar assim, eu estou vendo Eusebius aqui. Então ele é para você um guia estético, um guia expressivo. E esses bailes de máscara, esse carnaval, isso tudo não são exatamente personagens. Ele está ali confessando as várias máscaras dele mesmo, do próprio Schumann. Vou dar um exemplo aqui de Florestan, é muito o romance do Faischfang. Se você não tiver nesse posicionamento, aí você quer Florestan, você perde e fica chato. Mas se você entende que é meditativo.
[8:40]Isso é uma frase de saudade de Clara, né? Toca de novo, aí toca diferente, tá? A sonoridade.
[8:58]Aí ele cria uma dissonância assim para doer mais a saudade ainda.
[9:23]E não vou continuar tocando tudo, mas basicamente é isso. A suspensão, quando você precisa suspender, você precisa ficar lá, porque é lá que Schumann quer que você fique. A música dele é cheia de contrastes, de situações, emocionais, psíquicas que não são resolvidas, elas simplesmente existem. O romantismo dele é um romantismo muito autobiográfico, né? Tocar a música dele, ouvir a música dele, é entrar no mundo de Schumann e talvez no seu próprio mundo. Tem um fim muito triste, porque a doença vai se agravando, ele não consegue, ele primeiro arranja um emprego em Dresden, primeiro em Leipzig, com o professor no conservatório, quem conseguiu para ele foi Mendelssohn, que foi quem criou o conservatório. Mas o próprio Mendelssohn também não estava dando conta, porque apesar de ser amigo, via as dificuldades que ele tinha, né, a instabilidade mental. Aí ele acaba deixando esse emprego, ele foi chamado para Dresden para trabalhar numa instituição musical, como regente e tudo, e ele não conseguia falar com as pessoas, tinha uma época que ele não conseguia se comunicar, ele era muito isolado. Depois ele se isolou mesmo e esse isolamento acabou trazendo muita intensidade, né? Ele estava tendo dificuldade até para escrever música, quando ele tenta suicídio em 1853, em 54, ele mesmo se coloca num num hospital psiquiátrico. Na época, isso tudo estava começando ainda, mas ainda bem que nesse lá em Dusseldorf era muito bom e os médicos tratavam com os melhores formas e com muita, eles são muito mais humanos, né? E ele fica ali dois anos, não pode encontrar Clara, porque cada vez que ele ouve o nome de Clara ele já fica mais doente. Tinha uma relação muito intensa com a mulher, muito simbiótica. Uma pessoa muito importante nesse período foi Brahms, porque Brahms tinha acabado de chegar na vida deles e Brahms era o cara que ia visitar ele, que às vezes até tomava decisão junto com os médicos, porque Clara não podia, ela estava proibida até de mandar carta. No final da vida ele encontrou com ela, mas ele já estava num estado mental muito já decadente, né, já estava num colapso, e aí ele morre e deixa esse legado que se a música dele chegou, sobreviveu, muito foi por causa de Clara, porque Clara tocou a música dele durante toda a vida e ela promoveu a música dele. Eles tiveram oito filhos, eram quatro meninas e quatro meninos, né, sendo que um morreu ele bebê. Mas quem sobreviveu mesmo foram três mulheres, Marie, a mais velha, totalmente dedicada à mãe, a secretária da mãe, a produtora da mãe. Ela depois ficou com esse legado de segurar a obra do pai, de organizar tudo, de edição, tudo isso, a edição quem fez foi Clara junto com Brahms. Tem muito mais sobre Schumann, se você gostou disso que você ouviu até agora, comente e se inscreva aqui no canal para você não perder, porque esse canal aqui traz a profundidade da história da música, quer te aproximar da música de concerto com uma legitimidade para você entender que isso também é seu, esse é um patrimônio da humanidade, é para todos nós. Um beijo e até o próximo vídeo.



